Para as mulheres

As mulheres e o HIV

Mariana Fusco Varella*

Logo que surgiu, no início da década de 1980, a Aids foi chamada de “peste gay” porque as pessoas pensavam, erroneamente, que a doença atingia apenas os homens homossexuais. Foi necessário pouco tempo para os cientistas demonstrarem que a doença era causada por um vírus, o HIV, e que sua transmissão se dava por via sexual e por sangue contaminado.

Como sabemos, as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) não se restringem a apenas um dos sexos, e logo começaram a surgir casos de mulheres infectadas pelo HIV. Hoje, segundo o Boletim Epidemiológico HIV-Aids, divulgado em 2015 pelo Ministério da Saúde, em 2013 a razão de sexo nas faixas etárias de 20 a 29 anos e de 30 a 39 anos foi de 2,2 e 1,9 casos em homens para cada caso em mulheres, respectivamente, com tendência significativa de aumento nos últimos dez anos.

Há algumas razões para o aumento do número de mulheres infectadas. O primeiro diz respeito à anatomia dos órgãos sexuais femininos, pois a vagina oferece uma superfície de contato mais extensa que o pênis. Além disso, sua mucosa é mais suscetível a feridas e fissuras que podem servir de porta de entrada para o HIV.

O fato de o vírus ser inicialmente associado aos homossexuais fez com que muitos heterossexuais, homens e mulheres, dispensassem o uso de preservativos, acreditando ser imunes ao vírus.

A submissão às regras estabelecidas pelos homens, que frequentemente rejeitam a camisinha, é mais uma razão para a alta prevalência do HIV no sexo feminino. Como boa parte das mulheres é financeira e emocionalmente dependente dos parceiros, não causa estranheza saber que muitas aceitam o sexo sem proteção.

A infidelidade masculina, socialmente aceita, também colabora para que muitas mulheres em relacionamentos estáveis estejam mais vulneráveis à contaminação.

Outro motivo é que a geração mais jovem, que não viveu sob o medo da epidemia de Aids, em uma época em que não havia tratamento eficaz contra a doença, deixou de usar preservativo. Segundo o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), divulgado no ano passado, 40% das mulheres não usam camisinha.

A mulher que vive com o HIV enfrenta muitos problemas. Em geral, depende financeiramente do homem que a infectou ou precisa ganhar a vida para sustentar os filhos. O medo do desemprego e do desamparo, entre outros temores, é responsável pelo alto número de distúrbios de ansiedade e depressão entre as soropositivas.

As mulheres mais jovens, que ainda não têm filhos, precisam enfrentar o dilema da maternidade. Apesar de a transmissão vertical (de mãe para filho) hoje ser baixa, graças ao tratamento realizado durante a gravidez, muitas abrem mão da maternidade por medo de contaminar os filhos ou de não viver tempo suficiente para criá-los.

Quando encontram um novo parceiro, as moças solteiras se deparam com uma difícil escolha: revelar logo que têm o vírus ou contar mais tarde, caso se envolvam?

Na primeira hipótese é quase certo que o parceiro se afastará, e ela ainda correrá o risco de que ele revele a outras pessoas seu segredo. No segundo caso, será que o parceiro saberá compreendê-la ou se sentirá enganado?

Na dúvida, muitas optam pela abstinência sexual. E, com medo do preconceito, omitem de todos o fato de ter o vírus. Tomam medicamentos escondidas, mentem para ir ao médico, não revelam nem mesmo aos mais íntimos sua condição.

A ignorância dos que ainda associam o HIV e a Aids à promiscuidade também faz com que as mulheres infectadas se escondam, com medo de ser julgadas.

Isolada e solitária, a mulher soropositiva vive a face mais cruel do HIV-Aids: o preconceito.

 

*Editora do site drauziovarella.com.br e do blog Chorumelas