Artigo

Histórico da obesidade

Drauzio Varella

Tive um professor de endocrinologia que dizia: “Todo gordo come muito e anda pouco”. Citava como exemplo ele próprio, em luta inglória contra a balança.

Essa visão simplista da obesidade vinha de encontro à tendência milenar de atirar nos que sofrem a culpa dos males que os afligem.

Há mais de um século, no entanto, já havia ideias discordantes que acabam de ser revisadas por Chin Jou, da Universidade Harvard.

Em 1907, o patologista Carl von Noorden propôs que a obesidade poderia ser exógena ou endógena. A primeira dependeria do excesso de calorias e da falta de atividade física; a outra estaria ligada ao “hipometabolismo e demais distúrbios tireoideanos”.

Embora o pensamento corrente considerasse apenas os fatores externos, nas publicações dos vinte anos seguintes, muitos duvidavam de que eles explicassem todos os casos.

A hipótese do hipometabolismo foi deixada de lado na década de 1930, quando cálculos mais acurados da superfície corpórea demonstraram que os índices metabólicos dos obesos eram comparáveis aos dos mais magros.

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Nos anos 1950, os fatores metabólicos voltaram à tona, quando Jules Hirsch, da Universidade Rockfeller, mostrou que, ao perdermos peso, o metabolismo se torna mais lento para economizar energia. Foi a primeira demonstração de que ao emagrecer 30 quilos, uma pessoa que antes pesava 100, agora precisará consumir menos calorias diárias para manter o peso constante, do que aquela que sempre pesou 70.

Nos anos 1960, em experiências da Universidade de Vermont – que jamais seriam autorizadas hoje -, o grupo de Ethan Sims alimentou prisioneiros de peso normal com 10.000 kcal diárias, cerca de cinco vezes a média das necessidades energéticas do organismo adulto.

Em resposta, os índices metabólicos desses homens aumentaram de modo a fazê-los voltar ao peso normal com relativa facilidade, quando a oferta calórica foi reduzida. As exceções foram dois presidiários que engordaram rapidamente, mas tiveram muita dificuldade para perder o peso adquirido. Ambos tinham histórico de obesidade familiar.

Em 1986, na Universidade da Pensilvânia, o grupo de Albert Stunkard publicou o trabalho mais contundente sobre a influência dos fatores genéticos, ao analisar o Registro de Adoção da Dinamarca. O grupo selecionou 540 adultos adotados entre 1927 e 1947, com a idade média de um ano.

Comparando suas alturas e pesos com os dos pais naturais e adotivos, Stunkard  constatou que os índices de massas corpóreas estavam mais próximos daqueles dos pais naturais. Quando o pai e a mãe natural eram obesos, 80% dos filhos apresentavam obesidade; contra 14% dos que tinham pais naturais de peso normal.

Estudo semelhante foi realizado na Suécia com 247 pares de gêmeos idênticos, dos quais 154 pares haviam crescido juntos, enquanto 93 pares foram adotados por famílias diferentes. Criados juntos ou separados, na vida adulta os irmãos tinham virtualmente o mesmo peso.

Quando Jeffrey Friedman isolou a leptina, um dos hormônios envolvidos na sensação de saciedade, na década de 1990, os estudos enveredaram pela biologia molecular.

Como a descoberta aconteceu numa época em que a epidemia de obesidade se alastrava pelos Estados Unidos, os aspectos moleculares do binômio fome-saciedade atraíram a atenção do mundo científico.

Nos anos seguintes, foram identificados a grelina, ligada à sensação de fome, o neuropeptídeo Y e outros fatores ativos na sinalização que coordena, no cérebro e no aparelho digestivo, o equilíbrio entre as calorias ingeridas e as exigências energéticas do organismo. Diversos genes que codificam esses fatores têm sido clonados e suas variantes ou mutações sequenciadas.

Tais estudos começam a desvendar os mecanismos reguladores do balanço energético. As predisposições genéticas dos que vivem no conforto das poltronas, em ambientes com farta disponibilidade de alimentos altamente calóricos, estão por trás da explosão mundial do número de obesos.

Limitar esse fenômeno ao aporte calórico e à preguiça crônica que nos assola é simplificação infantil. O controle do peso corpóreo é fenômeno complexo, que não depende exclusivamente da força de vontade.