HPV

Mais da metade dos jovens brasileiros tem HPV

Mariana Fusco Varella

No início desta semana (27/11/2017), o Ministério da Saúde lançou os dados preliminares do estudo “POP-Brasil: Estudo epidemiológico sobre a prevalência nacional de infecção pelo HPV” , feito em parceria com o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, que revelaram que mais da metade dos jovens brasileiros está infectada com o HPV, o papilomavírus humano.

A pesquisa foi realizada em 119 UBS (Unidades Básicas de Saúde) e em um Centro de Testagem e Aconselhamento nas 26 capitais do país e no Distrito Federal, e contou com a participação de mais de 250 profissionais de saúde. Foram testadas para o HPV amostras genitais e orais de 2669 dos 7586 participantes do estudo, todos com idade entre 16 e 25 anos e usuários do SUS (Sistema Único de Saúde). A prevalência de HPV entre as pessoas testadas foi de 54,6%, sendo que 38,4%  apresentaram os tipos de HPV de alto risco para o desenvolvimento de câncer.

A capital com maior número de casos é Salvador (71,9%), seguida de Macapá (61,3%) e Palmas (61,8%). São Paulo e Rio de Janeiro apresentaram 52% e 54,5% de casos, respectivamente.

A pesquisa também revelou que 16,1% dos jovens analisados tiveram alguma infecção sexualmente transmissível (IST) prévia ou apresentaram resultado positivo no teste rápido para HIV ou sífilis. A maior parte dos entrevistados está em uma relação estável (mais de 40% estavam namorando e 33% disseram estar casados ou vivendo com o/a parceiro/a),

Apesar de pouco mais da metade (51,5%) ter afirmado usar camisinha na rotina sexual, 83,4% dos participantes apresentaram comportamento sexual considerado de risco: a média de parceiros no último ano foi de 2,2 e a média de parceiros nos últimos cinco anos foi de 7,5.

O relatório completo será divulgado em março de 2018.

Estudo

A alta prevalência do HPV entra a população masculina brasileira foi revelada em um estudo divulgado em abril deste ano e publicado na revista científica da Sociedade Brasileira de Infectologia “Brazilian Journal of Infectous Disease”.

A pesquisa, intitulada “HIM – Human Papillomavirus Infection in Men” (Infecção pelo HPV em homens, em tradução livre), acompanhou por quase cinco anos a saúde sexual de 4,1 mil homens com idade entre 18 e 73 anos de três países, Brasil, México e Estados Unidos.

Aproximadamente 72% dos homens brasileiros estiveram infectados pelo HPV em algum momento do estudo, ante 62% dos mexicanos e 61% dos norte-americanos. Dos 37 subtipos de HPV investigados, foram encontrados com mais frequência quatro: dois considerados de baixo risco para causar tumores, mas responsáveis pela maioria dos casos de verrugas genitais e anais (HPV6 e HPV11), e dois de alto risco (HPV16 e HPV18).

Os quatro subtipos foram encontrados em 80% dos condilomas (verrugas genitais) e das lesões pré-cancerígenas dos participantes do estudo. A vacina quadrivalente oferecida pelo SUS protege exatamente contra esses subtipos.

Veja também: A segurança da vacina contra o HPV

HPV e vacina

Transmitido pelo contato de pele e mucosas durante o sexo, o HPV está associado ao surgimento de verrugas genitais e anais e de câncer de orofaringe (boca e garganta) e anal em ambos os sexos, além do câncer de pênis nos homens e de colo de útero nas mulheres (84% dos casos desse tipo de câncer, o quarto mais comum entre as mulheres, estão relacionados ao HPV).

O HPV é um vírus altamente transmissível, que se aloja tanto na mucosa quanto na pele da região genital, por isso o preservativo, apesar de evitar muitas transmissões do HPV e prevenir outras doenças sexualmente transmissíveis, nem sempre evita a contaminação pelo vírus. Desse modo, a melhor forma de combater sua disseminação é vacinar a população não contaminada.

O SUS oferece gratuitamente a vacina contra o HPV para meninas de 9 a 14 anos, para meninos de 11 a 14 anos e para pessoas de 9 a 26 anos com HIV/Aids e para pacientes oncológicos ou transplantados (este último grupo precisa de prescrição médica para vacinar-se).

A vacina oferecida pelo SUS é a quadrivalente, que cobre os quatro subtipos mais prevalentes de HPV (os subtipos 6, 11, 16 e 18).

Apesar de disponível gratuitamente, a adesão à vacinação é baixa: de 2014, quando começou a ser oferecida a meninas, até junho deste ano, 72,45% das meninas tomaram a primeira dose e apenas 45,1% receberam a segunda. Somente 16,5% dos meninos foram vacinados de janeiro, quando o SUS passou a fornercer a vacina a esse grupo, a junho deste ano.

A vacinação de meninos é extremamente importante, pois além de protegê-los contra o vírus, a vacina ajuda a evitar a disseminação do vírus para as mulheres, principais vítimas do vírus.

Se a vacina é oferecida gratuitamente por meio do Calendário Nacional de Imunização e o Ministério da Saúde tem feito amplas campanhas de vacinação, por que a taxa de adesão à vacina é tão baixa?

Desde que começou a ser oferecida, em 2014, houve uma série de boatos envolvendo a vacina contra o HPV. No entanto, especialistas e o próprio ministério afirmam que a vacina é segura, sendo amplamente utilizada em países como Estados Unidos. Austrália, Inglaterra, entre outros, desde 2006.

“A vacina é extremamente segura e protege contra os 4 subtipos de vírus mais prevalentes. É fundamental que meninas e meninos sejam vacinados antes de iniciar a vida sexual, para evitar a disseminação do HPV”, explica o dr. Ésper Kallás, médico infectologista e professor da Faculdade de Medicina da USP.

A vacina é feita com vírus morto, que não tem potencial de causar doença. Deve ser tomada em duas doses, sendo que a segunda deve ser aplicada 6 meses após a primeira (pessoas com sistema imunológico deprimido, como os pacientes com aids, precisam de três doses).

Doenças relacionadas a sexo são cercadas de tabu não é de hoje. Durante muito tempo as pessoas evitavam mencionar a palavra sífilis, o que contribuía para o estigma e a desinformação acerca da doença.

No início da epidemia mundial de aids, houve relutância por parte de governos do mundo todo em encampar campanhas preventivas.

Mas não podemos fugir do fato de que, por mais que não seja simples para algumas pessoas, falar a respeito dessas doenças e buscar conhecimento sobre elas e sobre sexo, sem deixar que preconceitos e tabus levem à desinformação, são nossa principal ferramenta para combatê-las.