Medicametnos

Aprenda a tomar medicamentos corretamente

Tainah Medeiros

Aquele papo de que medicamentos não podem ser misturados com bebidas alcoólicas não é apenas zelo materno. A associação realmente pode cortar a eficácia medicamentosa ou, até mesmo, potencializar os efeitos do álcool. Dr. Marcelo Gomes, diretor de área terapêutica da empresa Norvatis, explica que ambos são metabolizados pelo fígado e quando ingeridos simultaneamente dividem a capacidade de ação do órgão.

Veja também: Medicamentos distribuídos pelo SUS ganham nova embalagem
* SUS passa a distribuir cinco novos medicamentos para artrite

“Quando chegam as duas demandas no fígado, o órgão não sabe qual metabolizar primeiro, consequentemente acaba não exercendo seu papel por completo e uma das metabolizações é prejudicada. Como o álcool geralmente é consumido em maior quantidade, o fígado tenta metabolizá-lo primeiro e não concentra sua atividade na metabolização do remédio, por isso acaba diminuindo a eficiência medicamentosa. Mas o órgão também não consegue absorver totalmente o álcool e parte dele fica circulando por mais tempo na corrente sanguínea, o que potencializa o estado de embriaguez”, explica Gomes.

O álcool pode ser o vilão mais conhecido, mas não é o único. Mesmo uma simples refeição pode prejudicar a ação ótima de remédios. A eficiência dos princípios ativos é prejudicada logo após a ingestão, ainda na etapa de absorção, antes mesmo de começar o processo de metabolização. “Alguns medicamentos necessitam de ambiente mais ácido, como o do estômago, para serem absorvidos com facilidade. Só que após as refeições, o órgão produz o suco gástrico, que pode tornar o local ácido demais e eliminar os efeitos medicamentosos. Além disso, assim como no caso do álcool no fígado, os alimentos dividem espaço com os remédios no estômago, o que acaba atrasando a absorção medicamentosa”, explica Gomes.

O leite, em especial, pode prejudicar os efeitos de alguns remédios por outro mecanismo. Antibióticos feitos à base de tetraciclina, por exemplo, não devem ser ingeridos com a bebida, pois esse composto se liga ao cálcio, elemento muito presente nesse alimento, e forma aglomerações com ele.

Então, não se deve tomar remédios perto do horário das refeições? 

Não é bem assim. De fato, tomar remédios com o estômago vazio (pelo menos uma hora antes das refeições ou duas horas após ingerir alimentos) pode garantir absorção mais rápida e completa da medicação. Porém, em contrapartida, o jejum facilita a intolerância gastrointestinal caso o remédio em questão possua teor de acidez muito elevado. Por isso, deve-se seguir à risca as orientações do médico e da bula, pois alguns medicamentos devem ser ingeridos justamente após as refeições.

Mas existem inúmeras razões para um medicamento ser ingerido em determinado horário. Aqueles com a função de eliminar gordura têm melhor resultado quando consumidos após as refeições, por exemplo. Dr. Paulo Aligiere, assistente médico da Fundação do Remédio Popular de SP, explica que o modo como o remédio deve ser ministrado depende da natureza química da substância e pode variar muito. “Durante a fase de testes de um medicamento novo, descobre-se qual o melhor horário para administrá-lo,  perto ou longe das refeições, a fim de aproveitar ao máximo a sua absorção”, explica.

Independentemente da natureza química, uma orientação permanece: os fármacos orais devem ser ingeridos com um copo cheio de água. Além de ajudar na dissolução do fármaco, facilita a passagem pelo esôfago, evitando que o medicamento fique entalado na garganta.

Outros fatores que comprometem a eficiência medicamentosa

Não são só bebidas e alimentos interferem na absorção dos remédios. A interação medicamentosa também pode comprometer a eficiência. Como o nome já diz, essa interação nada mais é do que a relação entre dois medicamentos que foram administrados concomitantemente. Nem sempre essa mistura é eficiente, podendo aumentar ou diminuir os efeitos terapêuticos de um ou de outro. Antiácidos, que comumente são tomados junto com medicamentos que irritam o estômago, por exemplo, acabam diminuindo o efeito dos remédios, pois dificultam a absorção do princípio ativo, que geralmente tem pH ácido.

Nem todas as mulheres sabem, mas antibióticos ministrados junto com pílula anticoncepcional podem cortar o efeito do contraceptivo. Segundo Aligiere, os antibióticos modificam a flora intestinal e podem interferir na absorção e aproveitamento dos componentes hormonais das pílulas. “Sempre que se prescreve um destes medicamentos para mulheres em idade fértil, a usuária deve fazer prevenção da gravidez com um método adicional, além da pílula”, adverte.

Alguns problemas orgânicos também podem colocar em xeque a absorção de dois medicamentos ingeridos concomitantemente. “Pessoas que se submeteram a cirurgia bariátrica, por exemplo, não conseguem absorver grande quantidade medicamentosa no estômago. Se tomarem dois medicamentos ao mesmo tempo, eles não usufruirão completamente dos efeitos”, diz Gomes.

É sempre importante avisar os médicos sobre todos os medicamentos de uso frequente, principalmente os anticoncepcionais, que por serem tão assimilados no cotidiano muitas vezes não são considerados remédios de uso contínuo. Lembre-se também de falar a respeito de problemas crônicos que possui, assim o profissional pode prescrever um remédio que não interfira em outros tratamentos concomitantes.

Erros comuns

Quando o mal-estar gástrico surge, é comum recorrer ao uso de sal de frutas efervescente para aliviar o desconforto. Geralmente, ele é misturado em um copo de água, onde começa a efervescer, e em seguida é ministrado ao paciente. Só que nem todos esperam as “borbulhas” cessarem para começar a tomá-lo. Pelo contrário, é comum que pacientes associem, erroneamente, a gaseificação do remédio a seu intervalo de ação. Porém, o correto é esperar que o sal de frutas seja totalmente dissolvido na água, assim ele será aproveitado por completo.

Erros ao tomar antibióticos que têm horários determinados para ingestão também são muito comuns. Segundo Gomes, esses horários marcam a duração do medicamento no organismo. Ao fim de cada intervalo, eles serão absorvidos ou excretados por completo. “Quando esse período acaba, eles deixam de fazer efeito. Para ser eficientes, devem ser tomados no mesmo horário e ministrados em cada intervalo, que varia entre 6h, 12h e 24h, dependendo da tecnologia de cada medicamento. Não seguir o cronograma pode até intensificar a ação das bactérias”, completa.

Uma mania muito comum é partir os medicamentos ao meio para facilitar a ingestão. “Existem remédios que têm divisão própria no comprimido, o que indica que podem ser repartidos, pois não haverá comprometimento da dosagem medicamentosa. Mas os remédios que não têm essa divisão não devem ser cortados ao meio. Alguns medicamentos são desenvolvidos para se dissolverem aos poucos; logo, cortando-os ao meio, acaba-se prejudicando seu efeito. Sem contar que a dosagem correta pode ser perdida ao parti-lo”, explica Aligieri.

E nada de deixar os remédios dissolvendo na boca. Isso só pode ser feito caso eles sejam apropriados para esse uso. Caso contrário, os efeitos medicamentosos acabam perdidos.

Em relação aos cremes e às pomadas, que são facilmente removidos pela roupa ou por contato, o ideal é deixar que sejam absorvidos por 30 minutos antes de se vestir ou de deitar para dormir (quando há risco de a região entrar em contato com o travesseiro ou a cama).

As recomendação para cada medicamento são muito diversas quanto aos mais diferentes aspectos, portanto, sempre siga corretamente orientações do médico ou da bula para garantir a eficiência máxima do tratamento.