HPV

Mitos e verdades sobre a vacina contra o HPV

Juliana Conte

Diante dos casos de possível reação à vacina contra o HPV, (papilomavírus humano), que tiveram enorme repercussão na mídia, uma dúvida paira na cabeça dos pais: ”Será que preciso mesmo vacinar minhas filhas contra o vírus?”.

A resposta é sim, e elas só estarão protegidas se tomaram as três doses indicadas da vacina. ”Hoje, a OMS não admite mais o licenciamento de uma vacina se não houver mais de 20 mil pessoas envolvidas no estudo, que tem de passar por inúmeras fases e testes em animais. Há regras rígidas de produção e na vigilância de eventos adversos”, tranquiliza a médica Isabella Ballalai, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Mas é importante destacar que somente a vacina não protege contra o câncer de colo do útero. O objetivo da imunização é evitar a infecção pelos quatro tipos mais prevalentes de HPV, um vírus que pode provocar, entre outros sintomas, a formação de verrugas na pele e nas regiões oral (lábios, boca, cordas vocais), anal, genital e da uretra, além de ser um fator de risco que predispõe ao câncer.

Mesmo vacinada, a mulher deve continuar fazendo o exame de papanicolau após o início da vida sexual, pois ele consegue detectar as lesões precursoras do câncer de colo de útero. Quando as alterações  são identificadas e tratadas, é possível prevenir a doença em 100% dos casos.

Veja também: Infecção pelo HPV, o papilomavírus humano

Pais contrários

Uma comunidade na página do Facebook intitulada ”Sou contra a vacina HPV” tem aproximadamente 3.200 membros. Pais, mães e profissionais de saúde postam diversos relatos explicando o motivo da recusa da vacina, além de reportagens, depoimentos e fotos.

Em entrevista por e-mail ao portal Drauzio Varella, José Alexandre Tavares, engenheiro na indústria aeroespacial, da cidade de São José dos Campos, SP, associa a doença da filha de 13 anos à vacina contra o HPV que ela tomou na época que moravam em Dubai, quando a  menina tinha 10 anos. O pai relata que os sintomas, como dor intensa nas pernas e dificuldade de locomoção, começaram um mês após a terceira dose da vacina. A princípio a menina recebeu o diagnóstico de Síndrome de Dor Complexa Regional (dor e alterações que acometem a extremidade e são desproporcionais ao fator desencadeante). Depois de inúmeras idas e vindas aos mais diversos especialistas, chegou-se ao diagnóstico definitivo: esclerose múltipla. Mas a garota também sofre de problemas vasculares sérios que ainda não foram diagnosticados pelos médicos.

Apesar de não ter uma comprovação causal que relacione a vacina à doença da filha, Tavares diz não ter dúvidas a respeito e chegou até a cobrar uma explicação da Gardasil (fabricante responsável pelo medicamento), mas não obteve resposta satisfatória. ”Hoje não existe teste que confirme com certeza absoluta que a vacina foi a grande causadora [da doença], mas evidências como essas são bastante fortes. Concorda?”

Na mesma comunidade, Jaqueline Barbosa também dá sua versão: ”Os sintomas começaram 2 horas depois da vacina contra o HPV”.

Ela desenvolveu a Síndrome da Dor Complexa Regional no braço. “Chegamos a um ponto em que ela não conseguia mais fazer nada sozinha. Com os exames foram observadas várias lesões vasculares”, lamenta a mãe, que também associa os sintomas à vacina.

Cássio Reis, analista de sistemas, de São Paulo, optou por não vacinar a filha de 11 anos. ”Eu e minha esposa achamos melhor que ela não fosse vacinada. Li muita coisa na internet e penso que há meios de prevenção mais eficazes e seguros”, pontua.

Explicações 

Você certamente já ouviu falar que a vacina que protege contra o sarampo causa autismo. O movimento ganhou força principalmente após a publicação de um artigo científico na revista Lancet (um dos mais importantes periódicos sobre saúde do mundo) no ano de 1998, no qual o médico inglês Andrew Wakefield associava o aumento do número de crianças autistas à vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, rubeola e caxumba. O artigo foi o suficiente para que pais assustados deixassem de vacinar os filhos. Entretanto, alguns anos depois, descobriu-se que Wakefield, na verdade, recebia pagamentos de advogados em processos por compensação de danos vacinais. A própria revista foi obrigada a se retratar.

Histórias desse tipo, segundo a médica Helena Sato, diretora de imunização da Secretaria Estadual de Saúde, servem para ajudar a disseminar a má fama da vacina que protege contra o HPV.

Segundo a especialista, como na primeira fase da campanha foram vacinados quase 100% do público-alvo, as meninas que já teriam predisposição para desenvolver alguma doença, seja de origem reumatológica, neurológica ou de qualquer outra espécie, ficaram doentes independentemente da vacina. (Leia matéria sobre a baixa adesão à segunda fase da campanha aqui.)

”Eu vacinei a totalidade dessas garotas. E a ideia de que a vacina poderia agilizar o surgimento de doenças, funcionar como gatilho, é falsa. Porque se isso fosse verdade, nós já teríamos identificado um aumento no número de jovens com doenças reumatológicas nessa faixa etária. E não é o que se observa. A esclerose e outras doenças autoimunes têm uma incidência esperada na população em geral, infelizmente”, garante Sato.

Em relação aos eventos adversos, como toda vacina e qualquer medicamento, eles podem ocorrer, mas são considerados leves e de boa conclusão. Dor, edema, cefaleia (dor de cabeça), febre e desmaios são as manifestações mais comuns.
Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, após a primeira dose da vacina contra o HPV, foram notificados 854 eventos (0,02%) de um total de 4.159.335 doses. Desses, 811 (95%) foram considerados esperados e sem gravidade. Entre os eventos tidos como graves, os mais representativos foram 19 casos de anafilaxia (reação alérgica)  e 17 de convulsão (45% e 40% dos casos graves, respectivamente). Esses eventos estão em investigação e, com exceção dos casos de anafilaxia, ainda não existem evidências de associação causal entre eles e a vacina.