Especial Saúde Mental

Falta de informação ajuda a estigmatizar os transtornos mentais

Luana Viana

A origem da palavra “estigma” aponta para marcas ou cicatrizes deixadas por feridas. Por extensão, em um período que remonta à Grécia Antiga, passou a designar também as marcas feitas com ferro em brasa em criminosos, escravos e outras pessoas que se desejava separar da sociedade “correta” e “honrada”. Essa mesma palavra muitas vezes está presente no universo das doenças psiquiátricas. No lugar da marca de ferro, relegamos preconceito, falta de informação e tratamentos precários a pessoas que sofrem de depressão, ansiedade, transtorno bipolar e outros transtornos mentais graves.

“Holocausto Brasileiro”, livro escrito por Daniela Arbex em 2013 e que virou documentário produzido pela HBO Brasil em 2017, mostra um período sombrio que teve como uma de suas principais marcas o Hospital Colônia de Barbacena, Minas Gerais. Ali, pessoas com doenças e transtornos mentais eram tratadas de forma desumana na década de 1960, abandonadas por seus familiares e condenadas a viver entre seus próprios dejetos e sob risco permanente de uma série de doenças. “Elas não eram consideradas sujeitos, mas sim, objetos de intervenção pelos ‘detentores do poder médico’. Os seus direitos fundamentais, como liberdade e dignidade, foram retirados”, explica Ed Otsuka, membro de Conselho Regional de Psicologia de São Paulo.

A 1ª Conferência Nacional de Saúde Mental, em 1987, foi um marco nacional na área. O resultado do evento foi a criação de uma nova proposta de legislação específica sobre a reforma dos serviços e bases que atendiam os pacientes. No lugar de manicômios e hospitais psiquiátricos, abriu-se espaço para serviços psicossociais com atendimento mais humanitário e sem internações compulsórias, que só se dariam em casos extremos por ordem médica. Essa mudança significativa inspirou a criação da Semana de Luta Antimanicomial, que é lembrada anualmente entre os dias 13 e 18 de maio e pontua o período em que se concentram as batalhas por melhorias no atendimento psiquiátrico.

A militância no setor rendeu alguns progressos. O orçamento nacional destinado à saúde mental cresceu 200% entre 2002 e 2011. O número de CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) chegou a 1.981 e mais de 4 mil leitos psiquiátricos em hospitais gerais foram criados. Estima-se que cerca de 7,8 milhões de atendimentos sejam realizados anualmente nos CAPS específicos para usuários de drogas e bebidas alcoólicas.

Ainda assim, principalmente fora do meio médico, as doenças psiquiátricas continuam sendo encaradas como sinal de fraqueza, incompetência, frescura e às vezes reunidas sob o termo genérico e inferiorizante da “loucura”. É fácil encontrar aqueles que não acreditam que seus parentes mais próximos possam estar com problemas clínicos sérios, o que ocorre em parte porque, muitas vezes, a saúde mental não é vista como parte da saúde física. “O cérebro está no comando, mas ele não é valorizado como deveria. Quando ele não está bem, nada mais vai estar”, conta a psicóloga Tatiane Paula Souza.

Para Tatiane, as doenças psiquiátricas não são levadas a sério porque não são palpáveis e visíveis, como um osso quebrado ou uma enfermidade de pele, por exemplo. “Quando se tem depressão, pacientes são tachados de preguiçosos e pessimistas, e o medo de um rótulo faz com que muitos não procurem tratamento. Só passamos a acreditar que algo realmente está errado quando o pior acontece.”

Achar que a manifestação de um transtorno mental é “frescura” está relacionado a um ideal de felicidade que não é igual para todo mundo. A criação desse ideal traça um padrão de comportamento social uniformizante. Você DEVE ser feliz o tempo todo; você DEVE trabalhar todos os dias; você DEVE esconder as emoções que são consideradas negativas. A tentativa de se encaixar nesse modelo cria distância dos sentimentos reais, e quem os demonstra é rotulado, o que progressivamente dificulta a interação social. É aqui que redes sociais de enorme popularidade, como Facebook e Instagram, mostram uma face cruel, desempenhando um papel de validação da vida perfeita e criando um ambiente em tudo deve ser mostrado em seu melhor ângulo.

Fora dos holofotes da internet, porém, transtornos mentais mostram-se mais presentes do que se imagina. Comparadas com 2016, as buscas no Google sobre informações básicas a respeito de sintomas de depressão e ansiedade aumentaram 11%, com pico em março e abril de 2017. Ao mesmo tempo em que a internet pode fornecer informação de forma privada, ela também pode apropriar-se do tema para fomentar piadas e transmitir ideias caricatas de certos distúrbios mentais, alimentando o estigma e confundindo quem está realmente em busca de esclarecimento.

“Compartilhar páginas e memes que não condizem com a realidade e não ajudam as pessoas que sofrem com algum transtorno é uma falta de responsabilidade e de respeito. A melhor forma de manter a internet um ambiente seguro e sem preconceitos é divulgar informações corretas de profissionais que entendem do assunto”, ressalta a psicóloga.

A maioria das doenças mentais pode ser tratada de maneira eficiente quando existe o diagnóstico preciso e os pacientes são inseridos em um ambiente acolhedor e social. Tratamentos evoluem continuamente, mas no que concerne ao acolhimento, cabe à sociedade como um todo reconhecer cada indivíduo como cidadão e ajudar a acabar com a discriminação e preconceito tão enraizados em cada um de nós.