Artigo

Um mundo de fumantes

Drauzio Varella

O mundo tem quase um bilhão de fumantes. O cigarro é a principal causa de morte precoce em mais de 100 países.

Acaba de ser publicado na revista The Lancet o estudo mais completo sobre a prevalência mundial do fumo. Foram avaliados 2.818 bancos de dados existentes em 195 países, no período de 1990 a 2015. As principais conclusões são as seguintes:

1) No mundo inteiro, fumam diariamente 25% dos homens e 5,4% das mulheres;

2) Em relação a 1990, a porcentagem de fumantes na população caiu cerca de 18% nos homens e 34% nas mulheres. A queda foi mais acentuada no período de 1990 a 2005, do que nos dez anos seguintes;

3) Entre 2005 e 2015, essas porcentagens aumentaram apenas em quatro países: Congo e Azerbaijão para os homens, e Kuwait e Timor Leste para as mulheres;

4) Embora a prevalência tenha caído cerca de 30% entre 1990 e 2015, o crescimento populacional elevou o número total de fumantes de 870 milhões para 933 milhões, no mesmo período;

5) Apesar da redução da prevalência, a mortalidade aumentou 4,7%;

6) Em 2015, houve 6,4 milhões de mortes atribuíveis ao cigarro. Esse número corresponde a 11,5% do total de mortes, no mundo. Metade delas ocorreu em quatro países: China, Índia, Estados Unidos e Rússia.

7) Em 1990, fumar estava entre as cinco principais causas de incapacitação para o trabalho em 88 países, número que aumentou para 109, em 2015;

8) Em 51 países, a prevalência de homens fumantes ultrapassa a média global. A maioria está localizada na Europa Central e no sudeste asiático. No caso das mulheres, 70 países ultrapassam a média, a maioria no centro e no oeste europeu;

9) A prevalência de fumantes do sexo masculino é mais alta nos países de desenvolvimento socioeconômico intermediário. Entre as mulheres, é mais elevada nos países industrializados;

10) Sugere progresso sustentável no combate ao tabagismo no período estudado, a redução anual do número de fumantes em 13 países: Austrália, Brasil, China, Dinamarca, Estados Unidos, Islândia, República Dominicana, Quênia, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Suécia e Suíça;

11) Em adolescentes do sexo masculino de 15 a 19 anos, a prevalência global de fumantes caiu de 16% em 1990 para 10,6% em 2015. Nas adolescentes, a queda foi de 4,8% para 3,0%;

12) Em 2015, havia 22 países com prevalências mais altas do que 15% nas adolescentes, 18 deles no oeste e na região central da Europa. Dos 24 em que a prevalência nos adolescentes do sexo masculino fica acima de 20%, seis estão na Europa Central. Os demais se acham espalhados em várias regiões;

13) Desde 2005, somente três países obtiveram redução da prevalência em adolescentes de ambos os sexos: Estados Unidos, Islândia e Nova Zelândia;

14) Os dez países com maior número de fumantes respondem por 63% do total existente no mundo. Na China, Índia e Indonésia vive a metade dos homens fumantes do mundo;

15) Graças ao bombardeio das campanhas publicitárias, no Leste Europeu a prevalência entre as mulheres aumentou a partir de 1990 e se manteve em níveis altos entre os homens (chega a 60% na Ucrânia).

Veja também: O cigarro

Segundo Emmanuela Gakidou que liderou o estudo, “o Brasil tem sido uma enorme história de sucesso”. No período de 1990 a 2015, o país apresentou a terceira maior queda mundial na prevalência em ambos os sexos: 55%. Em 1990, cerca de 30% dos brasileiros com mais de quinze anos fumavam; hoje, são pouco mais de 10%.

A diminuição foi alcançada graças a um conjunto de políticas públicas: aumento de impostos, restrições à publicidade e ao fumo em lugares públicos, imagens expostas nos maços de cigarro e divulgação dos malefícios pelos meios de comunicação de massa.

Apesar da queda porcentual, ainda estamos entre os dez países com o maior número absoluto de fumantes, ao lado de China, Indonésia, Estados Unidos, Rússia, Bangladesh, Japão, Alemanha e Filipinas.

Em sua trajetória criminosa, a indústria do fumo se volta agora para os mercados emergentes dos países africanos situados abaixo do deserto do Saara, em que as leis de combate ao tabagismo são frouxas e faltam recursos para enfrentar o marketing milionário das companhias.