Artigo

O mau colesterol

Drauzio Varella

Há muito sabemos que níveis altos de colesterol aumentam a probabilidade de ataques cardíacos.

Em 1952, foi iniciada uma pesquisa clássica que acompanhou durante dez anos, 12.763 homens de 40 a 59 anos de idade, em sete países, com o objetivo de relacionar níveis de colesterol com o consumo de gordura e o número de mortes por infarto do miocárdio. Os resultados mostraram que quanto mais gordurosa a dieta, mais altos os níveis de colesterol e maior o número de mortes por infarto. No período estudado, para cada 1000 habitantes, no Japão foram 5 mortes, na Grécia 8, na Iugoslávia 12, na Itália 18, na Holanda 30, nos Estados Unidos 40 e na Finlândia 50.

Assim que se tornou possível fracionar as partículas de colesterol de acordo com sua densidade em HDL, LDL e VLDL, verificou-se que a fração LDL (mau colesterol) estava diretamente relacionada com o risco de doença cardiovascular, enquanto a HDL (bom colesterol) reduzia o referido risco.

Estudos mais recentes em famílias portadoras de uma condição conhecida como hipercolesterolemia familiar heterozigótica, cujos membros apresentam LDL em níveis muito elevados e risco 10 vezes aumentado de sofrer ataque cardíaco precocemente, mostraram que eles são portadores de mutações num determinado gene.

Esse gene codifica os receptores do LDL, moléculas localizadas no fígado encarregadas de se ligar ao LDL para retirá-lo da corrente sanguínea. As mutações genéticas presentes nessas famílias prejudicam a função desses receptores encarregados de se ligar ao LDL; como consequência, os valores médios de LDL na circulação praticamente duplicam.

Na última semana de março de 2006, Cohen, Hobbs e colaboradores publicaram, no New England Journal of Medicine, uma pesquisa conduzida entre norte-americanos de meia idade, que lança uma nova luz no entendimento da influência dos genes nos valores de LDL e na incidência de doença coronariana.

Ao estudar as mutações presentes num gene batizado com a sigla PCSK9, os autores constataram que seus portadores apresentavam concentrações baixas de LDL no sangue. Verificaram ainda que, quando essas mutações eram múltiplas, os níveis de LDL diminuíam em média 38 mg/decilitro e os de doença coronariana caíam espetacularmente: 88%. Mesmo quando as mutações em PCSK9 alteravam menos a estrutura do gene, o efeito protetor se fazia sentir: os níveis de LDL caíam em média 21 unidades e os de doença coronariana 47%.

As quedas ocorrem porque o gene PCSK9 está envolvido no controle do número de receptores do LDL. Quando as mutações o impedem de funcionar normalmente esses receptores se acumulam em número maior, ligam-se com mais avidez ao LDL circulante e reduzem sua concentração no sangue.

Esse trabalho tem provocado grande repercussão na literatura médica pela seguinte razão: por que mutações ocorridas num gene, responsáveis por queda nos valores de LDL ao redor de 40 unidades, evitam 88% dos casos de doença coronariana, enquanto a redução das mesmas 40 unidades, quando obtida por meio da administração de medicamentos (estatinas e outros), é de apenas 23%?

A explicação mais lógica é a de que os medicamentos dotados da propriedade de reduzir níveis de colesterol tornaram-se disponíveis apenas nos últimos 20 anos, e passaram a ser indicados nos casos de pessoas com alto risco de desenvolver enfermidade coronariana, muitas das quais portadoras de aterosclerose avançada. Mas, como a aterosclerose é uma doença de caráter inflamatório que se instala a partir da primeira década de vida, a redução das concentrações de colesterol obtida com medicamentos prescritos geralmente depois dos quarenta anos, quando o processo já está avançado, teria impacto menor do que as mutações presentes num gene associadas à manutenção de LDL em níveis baixos desde o nascimento.

Assim que dispusermos de métodos mais precisos para diagnosticar a aterosclerose já na adolescência, é possível que medicamentos como as estatinas encontrem indicações nos mais jovens. Alguns cardiologistas defendem, então, que seu uso se prolongue pela vida toda.