Especial Saúde Mental

Depressão infantil não deve ser encarada como “manha”

Rafael Machado

Apesar de parecer pouco provável, a depressão pode ocorrer na infância. Muitas vezes ela é subestimada e negligenciada pelos adultos, e encarada como “manha” ou “frescura”. Outros transtornos psiquiátricos que também podem afetar crianças são muito mais discutidos, como o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e as fobias. No entanto, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2020 a depressão se tornará a doença mais incapacitante no mundo. Para mudar esse quadro, uma das medidas é tirar a depressão infantil da invisibilidade.

Dra. Ana Kleinman, psiquiatra infantil e pesquisadora do Programa de Transtorno Bipolar do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, aponta que cerca de 2% das crianças em idade pré-escolar e escolar sofrem de depressão. Esse número sobe para 11,7% quando elas passam para a puberdade.

O desenvolvimento da depressão em uma criança geralmente envolve dois pontos: pré-disposição genética e problemas no entorno familiar e social (brigas entre os pais, bullying, dificuldades escolares, perda de um animal de estimação ou parente próximo, entre outros).

Atenção para os sintomas

É de extrema importância saber identificar os sintomas. Os primeiros sinais são físicos: dor de cabeça, dor de barriga, alteração no apetite e no sono. “Quando os pais começam a ligar muito para o pediatra, ou ir várias vezes ao pronto-socorro, é um sinal de alerta para a depressão”, afirma a médica. A criança pode ficar muito ansiosa ou irritada, apresentar dificuldades escolares e evitar socializar com família e amigos. Também podem surgir medo de ficar sozinhas e choro excessivo.

Mas é importante ressaltar que os sintomas nem sempre são aparentes, pois crianças tendem a ter mais dificuldade de falar sobre o que sentem, o que torna mais difícil o diagnóstico precoce. A partir dos 12 anos as crianças conseguem descrever melhor seus sentimentos, e é fundamental não ignorá-los. Para isso, pais, professores e pessoas próximas devem sempre observar e acompanhar as crianças.

Identificados os possíveis sintomas, os responsáveis devem procurar um psiquiatra infantil, que poderá definir o diagnóstico com precisão após descartar outras condições clínicas capazes de provocar sinais semelhantes.

A etapa seguinte é atestar o grau da doença. Segundo a médica, é preciso avaliar o prejuízo funcional, ou seja, o quanto a depressão está interferindo no desenvolvimento e socialização da criança. Nos casos de grau leve, o tratamento é focado em terapias e atividade física, mas a especialista reforça que é preciso enfrentar a raiz do problema. “Não adianta fazer terapia se as brigas familiares não cessarem, por exemplo. É necessário uma mudança nas causas da depressão.” Nos casos de depressão moderada ou grave, o tratamento pode incluir o uso de medicamentos.

Veja também: Depressão na adolescência

Suicídio infantil

Se negligenciada, em casos extremos algumas crianças podem cometer suicídio. Apesar de esse ser um dos grandes tabus da área de saúde, não é um problema tão raro. Em 2015, o suicídio infantil foi a terceira principal causa de mortes de crianças de 10 a 14 anos nos Estados Unidos, segundo levantamento do Centro Nacional de Prevenção e Controle de Doenças (CDC). Dos 15 aos 34 anos, o suicídio passa a ser a segunda principal causa de morte. “Mesmo as tentativas que parecem inocentes, como tomar vários comprimidos de vitaminas C, não devem ser ignoradas”, aponta a psiquiatra.

Crianças e adolescentes com depressão podem ter graves complicações ao se tornarem adultos depressivos. Eles correm mais risco de desenvolver problemas como alcoolismo, uso abusivo de drogas, ansiedade e doenças cardiovasculares.

Portanto, os pais devem lidar com a depressão de forma respeitosa e séria e ter paciência e dedicação para que o tratamento não seja interrompido. Depressão é doença, mas felizmente tem tratamento.

Onde buscar ajuda?

O sistema público de saúde oferece tratamento para a depressão infantil. Os pais podem fazer o primeiro contato pelas Unidades Básicas de Saúde, que encaminharão  o paciente para os CAPS – Centros de Atenção Psicossocial – espalhados por todo o Brasil ou para centros de referência da região.