Crianças

Crise dos dois anos: mito ou realidade?

Juliana Conte

De repente, aquele bebê sossegado, carinhoso, que só faz caretas e pelo qual os pais se derretem muda. Gritos, birras e choros incessantes passam a fazer parte do seu comportamento. Essa fase é chamada pelos pais e pediatras de “crise dos dois anos” ou “terrible two” (“terrível dois”, em tradução livre). Ela não é mito e faz parte do desenvolvimento do bebê. Nessa hora, é necessária uma boa dose de paciência dos pais.

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Para entender por que isso ocorre, precisamos ter em mente que nos primeiros anos de vida do bebê, ele só engatinha e é totalmente dependente do outro. Não consegue comer sozinho, tampouco falar. Dos 10 meses em diante, já está apto a andar e começa a desenvolver autonomia para ir e vir. A partir dos dois anos, a criança já consegue se expressar e tem bom arsenal vocabular. Frases como “eu quero” ou “é meu” passam a ser usadas constantemente, além de ele se comportar de modo opositivo às solicitações dos pais. Na prática, a criança passa a verbalizar aquilo que deseja (ou não). E é aí que começam os conflitos entre pais e filhos. Essa fase é uma espécie de “adolescência do bebê”.

“Os pais precisam ter paciência, porque é neste momento que começa o processo de educação. Ensinar o que pode ou não, o que é certo ou errado. Isso demanda tempo para a criança assimilar e botar em prática. Não é de um dia para o outro que ela vai saber que jogar comida no chão, por exemplo, é errado. Ela aprende pela repetição. Gritar ou fazer birras é um jeito de o bebê demonstrar insatisfação. Afinal, é uma criança em processo de desenvolvimento, que mal fala e anda”, explica a pediatra comportamental Ana Lucia Balbino Peixoto.

Além disso, uma criança de dois ou três anos não entende muito bem o significado da palavra “não”. Por isso, não estranhe se ela fizer o contrário do que lhe for pedido. Na prática, a criança pode não entender exatamente o que querem dela.

Dicas

Uma dica fundamental para os pais de plantão: não adianta chamar a atenção do filho no momento da crise. Ou seja, falar mais alto, bater, colocar de castigo ou algo do gênero na hora da birra não resolve. O ideal é ter sangue frio e esperar a criança parar de chorar, gritar ou se debater. Logo em seguida, retire-a do ambiente e pontue o que ela fez de errado. Ignorar o comportamento da criança que se joga no corredor do shopping pode ser bem difícil e angustiante no começo, mas a boa notícia é que funciona. Peixoto explica que quando não há atenção dos pais, elas param automaticamente. Mas lembre-se: isso demanda tempo e o aprendizado surge com anos de repetição.

“A família tem papel fundamental no processo de aprendizagem, porque os filhos refletem os hábitos, as atitudes dos pais, como se fossem um espelho. Então, se o pai ou a mãe grita demais ou fala palavrão, por exemplo, a criança vai assimilar aquilo como sendo correto e repetir nos ambientes que frequenta, como escola, clube e parques”, complementa a médica.

O pediatra Moises Chencinski, membro do departamento de Pediatria Ambulatorial e Cuidados Primários da Sociedade de Pediatria de São Paulo, complementa dizendo que não se deve punir o filho por erros, como por exemplo se ele deixar cair sem querer um copo no chão. Mas deve-se puni-lo por pequenas transgressões, como jogar comida no chão, bater nos colegas etc.

“Na hora, o pai ou a mãe deve se abaixar na direção do filho, falar olhando diretamente nos seus olhos e explicar o que houve de errado. Por exemplo: ‘olha, a gente te ama, mas o que você fez foi muito feio e nos deixou triste. Espero que isso não se repita’. É importante usar palavras de carinho junto com a advertência. É necessário conversar e explicar. Demora, mas a criança vai aprender, sem dúvida”, esclarece Chencinski.

Outra sugestão para quem tem filhos pequenos: se por exemplo você for ao supermercado ou a uma loja, antes de sair de casa converse com a criança sobre o programa e já adiante que ela não poderá comprar nada, pois isso ajuda na assimilação da mensagem do que pode e do que não pode ser feito.

Também não ofereça recompensas em troca de bom comportamento. Evite atitudes como “se você ficar quieto eu lhe dou um doce/brinquedo”. Segundo Moises, esse tipo de costume faz a criança associar boas atitudes a prêmios, o que não é bom para ninguém.

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Educação demanda tempo, esforço e paciência, mas é uma responsabilidade dos pais. “Entendo que haja pais que chegam esgotados do trabalho e não tenham tempo e energia para cuidar dos filhos. Por isso, em vez de interagir com a criança, oferecem-lhe um jogo ou o celular para entretê-los. Bom, eu digo que a partir do momento em que a pessoa tem filhos, é importante estimular o vínculo com eles, não dá para esperar que eles sempre se adaptem a sua rotina”, pontua Moises.