Aids

Profilaxia e exposição ao HIV

Drauzio Varella

A transmissão do HIV está longe de ser um acontecimento relâmpago. O intervalo de tempo necessário para que o vírus recém-transmitido consiga estabelecer um foco no organismo, a partir do qual a infecção se tornará crônica, é suficientemente longo para proporcionar a oportunidade de combatê-lo com antivirais capazes de destruí-lo.

A chamada profilaxia pós-exposição nasceu no início dos anos 1990, época em que contávamos apenas com o AZT e mais dois ou três antivirais. As primeiras tentativas foram realizadas em médicos, enfermeiros e técnicos de laboratório acidentalmente feridos por agulhas, ou que entraram em contato íntimo com líquidos corpóreos infectados.

Em 1997, um pequeno estudo demonstrou que a administração de AZT, nesses casos, reduzia em 81% a probabilidade de transmissão do vírus. Apesar das limitações científicas desse estudo, a profilaxia medicamentosa da infecção pelo HIV tornou-se procedimento aceito por todos. A partir de 1996, com o aparecimento dos novos antivirais ela ganhou mais eficácia e indicação nas seguintes situações:

1 – Exposição ocupacional

Os índices de transmissão por meio de picadas com agulhas infectadas são baixos: em média 0,3%. Nos contatos acidentais de líquidos corpóreos infectados com as mucosas dos olhos e da boca ou com a pele ferida do profissional, mais baixos ainda: em média 0,09%.

Alguns fatores, no entanto, aumentam o risco: Aids avançada no paciente-fonte da infecção, agulhas que foram utilizadas como cânulas de veias no paciente-fonte, ferimentos profundos e a presença de sangue visível no instrumento.

A maioria dos clínicos usa como critério para indicar a profilaxia, o aparecimento de sangue no local da picada acidental.

2 – Exposição não ocupacional

O risco de transmissão do HIV varia com a natureza da exposição: de 1% a 30% nas relações anais receptivas, de 0,1% a 10 % nas relações anais insertivas e nas vaginais receptivas, de 0,1% a 1% nas vaginas insertivas. Embora haja descrições de infecção pelo HIV em pessoas que praticaram apenas sexo oral, o risco desse tipo de prática é bem mais baixo.

A probabilidade de transmissão varia com a presença ou ausência de doenças venéreas, ulcerações genitais (herpes, sífilis), circuncisão, displasia anal ou do colo uterino, com a virulência e com a concentração do vírus (carga viral) presente nas secreções sexuais.

A probabilidade de adquirir HIV ao compartilhar seringas e agulhas contaminadas é bem mais alta: 0,67% em cada injeção.

As características do paciente-fonte são fundamentais para definir a necessidade de profilaxia.

Na exposição ocupacional é mais fácil, porque o paciente-fonte pode ser testado rapidamente, por meio dos testes Elisa de alta sensibilidade. Resultado negativo afasta a necessidade de profilaxia. Se, por qualquer motivo, houver demora para obter o resultado, a profilaxia deve ser iniciada até que o mesmo se torne disponível.

Nos casos de exposição sexual ou ao compartilhar seringas e agulhas em que a condição do paciente-fonte for desconhecida, a profilaxia costuma ser indicada nas situações em que existir maior risco: homens que fazem sexo com outros homens ou com homens e mulheres, pessoas que fazem uso comercial do sexo, que fizeram sexo com usuários de drogas ilícitas intravenosas, ex-presidiários, estupradores, habitantes de países nos quais os índices de prevalência do HIV sejam superiores a 1% da população, e naqueles que tiveram contato sexual desprotegido com membros desses grupos.

Quanto mais rapidamente for administrada a profilaxia, melhor será o resultado. Dados experimentais indicam que os índices de infecção são mais baixos quando ela é iniciada nas primeiras 36 horas. Um estudo mostrou que filhos de mães infectadas apresentam menor chance de contrair o HIV quando tratados nas primeiras 48 horas depois do parto.

O esquema de tratamento precisa conter pelo menos duas drogas, mantidas por um período de 28 dias.