Infectologia

O começo e o fim da Aids

Parece ficção, mas esse foi o nome de um congresso realizado na Universidade George Washington, em dezembro último.

Há muito a comunidade científica discute a ideia de que tratar a infecção pelo HIV com antirretrovirais (ARVs), traria a vantagem paralela de impedir a transmissão do vírus.

De um lado, os que consideravam óbvia essa hipótese: se os remédios reduzem a carga viral, a probabilidade de espalhar o vírus tem que diminuir. De outro, os céticos: falta provar.

A controvérsia foi esclarecida com a publicação do estudo conduzido pelo HIV Prevention Trial Network, um consórcio internacional do qual fizeram parte os infectologistas brasileiros Esper Kallás, Mauro Schechter e Valdileia Veloso.

Batizado como HPTN 052, o estudo envolveu 1.763 casais heterossexuais com apenas um dos cônjuges infectado (casais discordantes), residentes em cinco países africanos, Brasil, Tailândia e Estados Unidos.

Para participar, o parceiro infectado devia estar virgem de tratamento e ter no sangue um número de células CD4 entre 350 e 550/mm3, característica dos que apresentam certo grau de deficiência imunológica, porém ainda insuficiente para chegar à fase de Aids.

Sorteados ao acaso, metade dos participantes recebeu comprimidos contendo ARVs. Para os outros, foram distribuídos comprimidos placebo aparentemente idênticos, até que suas células CD4 caíssem abaixo de 250.

Em abril de 2011, os resultados se mostraram tão contundentes que o estudo foi encerrado e enviado para a revista médica de maior circulação mundial: The New England Journal of Medicine.

Das 28 pessoas infectadas por seus parceiros, 27 faziam parte do grupo-placebo; apenas uma pertencia ao grupo medicado com os ARVs.

Além do benefício na prevenção, os que receberam tratamento precoce tiveram 41% menos processos infecciosos do que os demais, constatação que levou os organizadores a prescrever ARVs para todo o  grupo-controle.

Para excluir a possibilidade de que os 28 infectados tivessem adquirido o vírus em relações extraconjugais, o HIV colhido na circulação de cada um deles foi submetido a testes genéticos para confirmação de identidade com o vírus do cônjuge.

Você acha, leitor, que o debate está encerrado?

Claro que não, em ciência a resolução de um problema inevitavelmente cria outros. Agora, alinham-se em campos opostos os otimistas, que acham possível conter a epidemia em países inteiros às custas do tratamento precoce dos HIV-positivos, contra os que consideram essa estratégia fantasiosa, pelas seguintes razões:

1) É muito difícil identificar todos os infectados pelo HIV. Nos cinco continentes há 34 milhões, apenas 6,6 milhões dos quais recebendo medicamentos. A cada ano ocorrem 2,7 milhões de infecções novas. Lesoto, país africano com a terceira prevalência mais alta do mundo, lançou em 2004 uma campanha nacional para testar a população inteira. Até hoje, apenas metade dos adultos fizeram o teste.

2) Os testes anti-HIV não possuem sensibilidade para detectar o vírus nos primeiros dias depois de adquiri-lo, quando a multiplicação rápida na corrente sanguínea torna a transmissão mais provável. Cerca de um terço delas ocorre nessa fase aguda.

3) Para a estratégia ter êxito, os portadores devem tomar os remédios com regularidade, durante muitos anos, rotina especialmente problemática no caso dos assintomáticos, quando experimentam efeitos colaterais.

4) Prescrever ARVs em grande escala aumenta o risco de tornar o vírus mais resistente. Na África, a resistência do HIV entre os que recebem tratamento aumenta a cada ano que passa.

5) Confiar na atividade protetora dos ARVs poderia levar os portadores a adotar práticas sexuais inseguras para seus parceiros.

6) Embora menos da metade dos que precisariam tomar ARVs tenha acesso a eles, cerca de dois terços dos U$ 7 bilhões anuais investidos no combate à epidemia são consumidos apenas no custeio de programas de tratamento. Haveria recursos para medicar todos?

Apesar dessas objeções, a possibilidade de conter a epidemia com medicamentos deixou de ser pensamento mágico. A revista Science considerou a prevenção do HIV com antirretrovirais a mais importante de todas descobertas científicas do ano passado.