Circunferência abdominal, doenças crônicas e mortalidade

Cinturas avantajadas

Drauzio Varella

Gordura acumulada na cintura está mais associada a doenças crônicas do que aquela presente nos quadris.

Diversos estudos sugerem que a circunferência abdominal e a relação numérica entre ela e a do quadril permitem prever o risco de adoecer, de forma mais precisa do que o peso ou o índice de massa corpórea (IMC = peso/ altura x altura).

As recomendações atuais são as de que a circunferência abdominal não ultrapasse 102 cm nos homens ou 88 cm nas mulheres. Já a relação circunferência abdominal/circunferência do quadril não deve ser maior do que 1,0 nos homens e 0,85 nas mulheres.

A circunferência do abdômen deve ser medida na parte mais estreita da cintura ou a partir do ponto situado na metade da distância que separa as últimas costelas da parte superior do osso ilíaco. A medida da circunferência dos quadris deve ser efetuada na altura do maior diâmetro horizontal.

Embora a associação entre essas medidas e o aparecimento de doenças degenerativas tenha sido demonstrada em diversos estudos, a que existe entre elas e o risco de morte não estava clara.

Para esclarecer essa questão, acaba de ser publicado o European Prospective Investigation into Cancer e Nutrition (EPIC), que acompanhou uma coorte de 359.387 mulheres e homens de 25 a 70 anos (média = 51,5 anos), em dez países da Europa, durante um período médio de dez anos.

Todos os participantes foram medidos (altura, peso, circunferência abdominal e relação cintura/quadril) e responderam questionários para informar as características sociodemográficas e do estilo de vida, história médica, fumo, consumo de álcool e prática de atividade física.

No período médio de dez anos ocorreram 14.723 mortes: 5429 causadas por neoplasias malignas, 3443 por doenças cardiovasculares, 637 por enfermidades respiratórias e 2209 por causas diversas.

A relação entre o IMC e o risco de morte foi não linear, já que o risco foi mais elevado tanto no grupo com IMC mais alto quanto naquele mais baixo. Apresentaram os menores índices de morte os homens com IMC médio de 25,3 e as mulheres com IMC médio de 24,3.

Em cada valor do IMC, para cada aumento de 5 cm na circunferência abdominal o risco de morte cresceu 17% nos homens e 13% nas mulheres. Para cada aumento de 0,1 unidade na relação entre a circunferência abdominal e a dos quadris o risco de morte cresceu 34% nos homens e 24% nas mulheres.

Ao contrário da circunferência abdominal, a circunferência dos quadris como medida isolada não guardou relação com o risco de morte.

Houve uma associação positiva entre risco de morte e aumento da circunferência abdominal mesmo nos participantes com IMC normal.

Apresentaram risco relativo de morte por doenças cardiovasculares mais elevado as mulheres e homens com IMC mais alto. Já as mortes por doenças respiratórias estiveram associadas com mais frequência aos valores mais altos da circunferência abdominal ou aos da relação cintura/quadril.

A gordura não é simples depósito de energia para ser mobilizado em épocas de vacas magras; o tecido adiposo é metabolicamente ativo, particularmente aquele depositado entre as vísceras. Ele secreta mediadores inflamatórios potencialmente ligados ao desenvolvimento de doenças crônicas. Essa propriedade explica por que a gordura abdominal aumenta o risco de morte mesmo naqueles com valores mais baixos do IMC.

Já a relação cintura/quadril tem relação menos clara com o IMC e talvez seja apenas um marcador da distribuição de gordura.

O grande número de participantes do estudo europeu permitiu demonstrar que a circunferência abdominal é fator de risco independente do peso corpóreo e do IMC. Pessoas que estão na faixa da normalidade do IMC, mas que apresentam acúmulo excessivo de gordura abdominal, devem se preocupar tanto quanto aquelas que estão com excesso de peso.