Saúde pública

Aids feminina

Drauzio Varella

O HIV se espalha entre as mulheres sexualmente ativas. O relatório do Fundo de Desenvolvimento da ONU para as Mulheres mostra que, na faixa etária entre 15 e 25 anos, 60% das infecções ocorrem no sexo feminino.

Em 1981, num congresso sobre doenças infecciosas em Nova York, foram apresentados cinco casos de homens aparentemente saudáveis acometidos por um tipo raro de pneumonia que costuma instalar-se apenas em portadores de deficiências imunológicas. Em conversa durante o café que se seguiu à apresentação, os médicos responsáveis pelo acompanhamento dos doentes citados estranharam a coincidência: seus pacientes eram jovens e homossexuais.

Em seguida, casos semelhantes foram descritos entre habitantes das comunidades homossexuais das grandes cidades americanas e europeias. Setores da imprensa imediatamente batizaram a nova epidemia como “peste gay”.

A denominação não passava de mera expressão do preconceito contra homossexuais, porque quase concomitantemente foram descritos casos idênticos entre usuários de drogas injetáveis, receptores de transfusões de sangue e seus derivados, haitianos residentes nos Estados Unidos e, em seguida, entre os habitantes dos países africanos situados na região abaixo do deserto do Saara.

O rótulo “peste gay” prestou grande ajuda à disseminação do HIV, porque os heterossexuais automaticamente se julgaram imunes à infecção. No início da epidemia, a Aids era considerada por quase todos uma doença exclusiva de “drogados” ou de “homossexuais promíscuos”. No final dos anos 80, encontrei várias mulheres que mantinham relações anais receptivas – a mais arriscada das práticas sexuais – confessarem que jamais tinham imaginado correr risco de adquirir o vírus.

Ao mesmo tempo, outro mito colaborou decisivamente para propagação do HIV entre as mulheres: o de que homens heterossexuais não seriam infectados por elas. Se os homens não pegavam Aids, para que usar preservativo?

Durante os anos 1990, tive várias discussões com alguns colegas sobre esse tema. Muitos deles acreditavam cegamente nessa insensatez, alheios à existência de milhões de heterossexuais africanos infectados e ao fato de não existir exemplo de doença sexualmente transmissível capaz de poupar um dos sexos.

Quando lhes dizia ter perdido a conta de quantos presos infectados pelo HIV encontrei no Carandiru que negavam uso de drogas injetáveis e a prática de relações homossexuais, respondiam que não se podia acreditar em bandidos.

À relutância masculina em aceitar o uso de preservativo, foram acrescidos outros fatores decisivos para a disseminação da epidemia entre as mulheres.

O primeiro está ligado à anatomia feminina. A vagina representa um ambiente muito mais acolhedor do que o pênis para um vírus como o HIV, que precisa penetrar através das mucosas, para invadir o corpo humano pela via sexual. Nela, o vírus contido no esperma fica retido por mais tempo, dispõe de maior superfície de contato e pode utilizar como porta de entrada os processos inflamatórios ginecológicos, tão freqüentes nas mulheres.

O segundo é de ordem econômica: as mulheres são mais pobres e têm menos poder do que os homens. Como outras epidemias de doenças transmissíveis, a Aids se alastra com mais velocidade nas classes sociais mais desfavorecidas. A falta de escolaridade e a dependência econômica colocam a mulher em desvantagem na hora de negociar com o parceiro o uso do preservativo.

O terceiro está relacionado com fatores culturais: a sociedade faz vista grossa à infidelidade masculina. Todos os que trabalham com Aids conhecem exemplos de senhoras ingenuamente infectadas pelo marido, único parceiro sexual de suas vidas.

Nos primeiros anos da epidemia, os conceitos de “grupo de risco” e de “promiscuidade” – aceitos até pelas publicações científicas de primeira linha para caracterizar aqueles com maior probabilidade de contrair a doença – contribuíram decisivamente para a falsa sensação de segurança das mulheres em relação ao HIV. As que não se consideravam “promíscuas” (característica que jamais atribuímos a nós mesmos) imaginavam estar imunes à infecção, sem pensar que um homossexual com cem parceiros HIV-negativos jamais pegará o vírus, enquanto a senhora casada correrá risco com marido infectado.

A face feminina que a epidemia adquiriu exige intervenções educacionais agressivas destinadas a convencer as mulheres de que não podem confiar na sorte.

A responsabilidade dessa tarefa começa em casa: não tem sentido os pais insistirem que os filhos homens carreguem preservativos na carteira, enquanto se omitem envergonhados no caso das filhas. Não custa lembrar que, assim como aconteceu conosco no passado, nossas filhas não nos pedirão licença para iniciar a vida sexual; portanto precisam receber orientação antes da puberdade.

Ninguém espera uma criança atravessar a rua sozinha pela primeira vez para depois adverti-la do perigo dos automóveis.

A sociedade e os responsáveis pelas políticas de saúde pública precisam agir conscientes de que a epidemia de Aids é uma ameaça gravíssima. Para enfrentá-la, distribuir medicamentos aos doentes é medida necessária, mas não suficiente: se não quisermos chegar à situação crítica em que se encontram alguns países da Ásia e da África, precisamos ensinar práticas de sexo seguro às meninas e aos meninos em idade pré-sexual. E, o mais importante de tudo, garantir a eles o acesso universal aos preservativos.