Entrevista

Terçol, calázio e conjuntivite

Edilberto Olivalves é médico oftalmologista, chefe do Setor de Uveítes do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

A pessoa acorda com o olho inchado e aparece uma feridinha na pálpebra que dificulta um pouco seus movimentos. olha no espelho e logo  descobre que está com terçol, uma inflamação causada pela penetração de uma bactéria, cujos principais sintomas são dor, rubor e calor.

Muitas vezes, porém, não é um terçol, mas um calázio, uma patologia não infecciosa resultante da obstrução de certas glândulas. O calázio se instala mais na parte superior da pálpebra, enquanto o terçol surge bem perto dos cílios. Conjuntivite é outro problema ocular que também não assusta muito, mas incomoda bastante. O problema é que basta o olho ficar vermelho, para a pessoa supor que está com conjuntivite e pingar algumas gotas do primeiro colírio que lhe cai nas mãos. Agir assim pode ser perigoso. Primeiro, porque doenças graves podem estar camufladas sob a aparência de uma conjuntivite banal associada a gripes e resfriados. Segundo, porque muitos colírios são contraindicados mesmo nos quadros simples de conjuntivite. Por isso, quer se trate de terçol, calázio ou conjuntivite, o ideal é procurar um oftalmologista para diagnóstico preciso e tratamento adequado.

TERÇOL E CALÁZIO 

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

Drauzio – Por que os terçóis aparecem nas pálpebras?

Edilberto Olivalves – Quase todas as lesões da pálpebra são popularmente consideradas terçóis, embora existam duas patologias diferentes responsáveis por seu aparecimento: uma com infecção, o terçol, e a outra sem infecção, o calázio.
Para entender o que acontece ( imagem 1), vamos lembrar que na borda da pálpebra estão os cílios e, em sua parte interna, o músculo orbicular, que fecha o olho, uma cartilagem chamada tarso e glândulas cuja função é produzir substâncias para misturar com as lágrimas. A glândula de Melbômio é maior e as de Zeis e Mol são menores e estão localizadas nas margens ao lado dos cílios.
O terçol ou hordéolo consiste na inflamação das glândulas Zeis e Mol. Os principais sintomas são dor, rubor e calor, sinais típicos de infecção provocada por uma bactéria. Já a inflamação da glândula de Melbômio não é produzida por bactéria e chama-se chalázeo ou calázio ( imagem 2).
A evolução das duas patologias é semelhante. Em dois ou três dias, elas tendem para o autocontrole, mas o calázio pode circunscrever e ficar na pálpebra sob a forma de um granuloma.

Drauzio – Como se estabelece a diferença clínica entre calázio e terçol?

Edilberto Olivalves – O terçol se instala mais na borda da pálpebra perto dos cílios por causa da localização das glândulas de Zeis s Mol e os sinais da inflamação são mais acentuados ( imagem 3). Embora haja mais rubor, mais dor e mais calor, ele geralmente drena ou desaparece espontaneamente.

Por sua vez, o calázio atinge uma glândula mais profunda e, mesmo depois de ter sido controlada a inflamação, fica um granuloma que pode aumentar ou diminuir sem sinais inflamatórios. Isso pode ocorrer de vez em quando, se a glândula voltar a produzir secreção que não consegue ser eliminada, porque há um bloqueio na saída.

Drauzio – Quanto tempo pode durar um quadro de calázio?

Edilberto Olivalves – Pode levar meses. Vale chamar a atenção, porém, que a presença frequente desse tipo de inflamação não infecciosa pode ser indicativo da prevalência de algum defeito de refração do olho.

Drauzio – Que relação existe entre a refração do olho e o entupimento da glândula?

Edilberto Olivalves – Às vezes, o olho é obrigado a fazer um esforço maior para compensar o defeito de refração (um pouco de astigmatismo ou de hipermetropia). Esse ajuste através do músculo ciliar e da acomodação do cristalino induz vasodilatação na borda palpebral que predispõe ao aparecimento de calázios.
Nas pessoas idosas, esse quadro pode tornar-se crônico, o que nos obriga a curetar a glândula.

Drauzio – Curetar significa raspar a glândula por dentro para que ela deixe de funcionar.

Edilberto Olivalves – Exatamente. Faz-se uma incisão em cruz do lado da conjuntiva e cureta-se o núcleo da glândula que deixa de existir. No entanto, é importante observar, sobretudo nos idosos, que o calázio pode manifestar-se em outra das 23 a 25 glândulas de Meibômio existentes, porque elas são empaliçadas, paralelas. A repetição desse episódio pode ser um sinal de alerta para a possibilidade de uma neoplasia ter-se instalado.

Drauzio – O que favorece a formação de calázios?

Edilberto Olivalves – A incidência de calázios depende muito do tipo de pele, porque a glândula onde se formam produz uma substância que vai misturar-se com a lágrima. Pacientes com acne rosácea ou com muita oleosidade na pele têm mais tendência à formação de calázios, pois a glândula retém a secreção, que não consegue extravasar por causa do bloqueio que existe na saída.

EVOLUÇÃO E TRATAMENTO

Drauzio – Como evoluem os quadros de calázio?

Edilberto Olivalves – Na fase inicial, o calázio pode regredir espontaneamente em dois ou três dias, como ocorre com o terçol. No entanto, depois pode aparecer um granuloma no local onde ele se formou. Às vezes, esse granuloma não é aparente internamente, mas passando o dedo sobre a pálpebra, sentimos que está ali. Além disso, a evolução do calázio é marcada por avanços e retrocessos. Quando parece estar curado, volta a inflamar.

Drauzio – Como é o tratamento indicado para os casos de terçol?

Edilberto Olivalves – Feito o diagnóstico, o tratamento do terçol é feito com aplicação de calor úmido e de colírios ou pomadas com antibióticos no local. Se o paciente for idoso ou muito debilitado, é preciso dar uma cobertura sistêmica de antibiótico por via oral, porque a irrigação da pálpebra é muito rica e a infecção pode disseminar-se. Em condições normais, porém, bastam o antibiótico de uso tópico e a aplicação de compressas de água quente.

Drauzio – Fazer compressas com água boricada ajuda?

Edilberto Olivalves – Não há necessidade. O mais importante é o calor úmido que produz vasodilatação e facilita a liquefação da substância retida e sua reabsorção.

Drauzio – E o tratamento do calázio?

Edilberto Olivalves - No calázio, o tratamento é praticamente o mesmo, só que não se usam medicamentos com corticoides nem antibióticos. Compressas com calor úmido costumam ser suficientes, Entretanto, se o quadro tornar-se muito repetitivo, é importante encaminhar o paciente para avaliação refracional, isto é, para verificar se não é portador de astigmatismo, miopia, etc.
Além disso, indicam-se cuidados de higiene da pele com xampus de pH neutro que funcionam como detergente, pois a glândula de Meibômio tem um canículo que passa ao lado do cílio, e o excesso de oleosidade pode formar uma rolha que acaba obstruindo a saída. Em alguns casos, a inflamação na borda palpebral externa e cílios é provocada por outra doença, a blefarite que, tanto quanto o calázio, pode ser sinal indicativo de que o olho está trabalhando em condições excepcionais.

CONJUNTIVITE 

CARACTERÍSTICAS, TIPOS E DIAGÓSTICO

Drauzio – Basta o olho ficar um pouco vermelho que as pessoas acham que estão com conjuntivite. Está certo pensar assim?

Edilberto Olivalves – Na imagem 4, aparece o bulbo ocular com seus anexos. A conjuntiva é a membrana fina e transparente que recobre a frente da esclera ou branco do olho (conjuntiva bulbar) e a parte interna da pálpebra (conjuntiva palpebral).
Chama-se conjuntivite a inflamação da conjuntiva, que pode ser unilateral ou bilateral. Sua principal manifestação é o olho vermelho. Como são vários os fatores que podem provocar olho vermelho, é preciso estar atento, pois a conjuntivite, às vezes, mascara um problema mais sério (uveíte, esclerite ou outra doença ocular). Por isso, é extremamente importante determinar as características do olho vermelho e suas possíveis causas para estabelecer o diagnóstico.

Drauzio – Como se estabelece o diagnóstico de conjuntivite?

Edilberto Olivalves – O primeiro passo é verificar se o quadro ocular (coriza, olho vermelho, secreção e lacrimejamento) está associado ao comprometimento das vias aéreas superiores, o que é frequente. É importante também levar em conta se a hiperemia é unilateral ou bilateral. Por exemplo, na imagem 5, o olho direito está normal e o esquerdo, vermelho. Essa alteração respeita a parte próxima da córnea, mas acomete a zona periférica, sobretudo do lado do nariz, onde existe uma membrana chamada prega semilunar. Toda a vez que isso acontece, ou seja, quando a hiperemia respeita a parte interna da córnea, mas aparece um edema dessa prega (elevação com aparência gelatinosa), estamos diante de processo viral. No caso em questão, estamos diante de um quadro de uveíte viral e não de conjuntivite.

Drauzio – Quais as principais características da uveíte viral?

Edivaldo Olivalves - As uveítes virais dificilmente acometem os dois olhos ao mesmo tempo. Primeiro se manifestam num olho e depois no outro. Em geral, evoluem associadas a um quadro de vias aéreas superiores ou dor muscular e provocam dor que atinge até o ouvido por causa do enfartamento do gânglio pré-auricular, uma vez que a drenagem linfática do olho se dá por esse gânglio e pelo sub-auricular.

Drauzio – Que tipos de conjuntivite existem?

Edilberto Olivalves - A imagem 6 registra um quadro de conjuntivite bacteriana, que geralmente é bilateral. A hiperemia respeita um pouco a parte em volta da córnea, mas há secreção, cujas características são importantes para identificar a provável etiologia do problema. Secreção amarelada ou esverdeada é sinal de conjuntivite provocada por bactéria, uma vez que as conjuntivites virais produzem lacrimejamento e, às vezes, secreção mucosa.
Gostaria de citar, ainda, a conjuntivite aguda por gonococos ( imagem7) que pode acometer crianças recém-nascidas. Os pontinhos que se veem na ilustração indicam a saída da glândula de Meibônio.

Drauzio – Pacientes com conjuntivite apresentam perda da acuidade visual?

Edilberto Olivalves – Nem sempre. A baixa da acuidade visual pode ocorrer nas conjuntivites virais. A causa mais frequente é a infecção pelos adenovírus, que além da conjuntivite provocam inflamação da córnea (ceratite) que interfere na visão.

Drauzio  O que é a pseudomembrana que se forma em algumas conjuntivites?

Edilberto Olivalves – Nós mostramos quadros de conjuntivite viral, bacteriana e um quadro de conjuntivite aguda para destacar as características de unilateralidade, bilateralidade e tipo de secreção. No que se refere às conjuntivites virais, é importante apontar que, além do comprometimento uni e bilateral, pode ocorrer a formação de uma pseudomembrana que, se não for tratada, pode arrastar o quadro por muito tempo.
A imagem 8 deixa ver a pálpebra por dentro e uma membrana esbranquiçada, a pseudomembrana, resultante do processo inflamatório. Sem tratamento, irá formar-se no local um quelóide, responsável pelo prolongamento do quadro e por algumas sequelas. No entanto, por causa do medo do contágio, muitas vezes, o profissional não inverte a pálpebra para examinar sua parte interna e o diagnóstico não é feito. Essa inversão, porém, sempre deveria ser feita porque, na maioria das vezes, dependendo das características dos vasos e das papilas, é possível estabelecer o diagnóstico etiológico das conjuntivites.

Drauzio – Quais as características da conjuntivite registrada na imagem 9?

Edilberto Olivalves - A imagem 9 mostra um quadro crônico de conjuntivite alérgica, que geralmente é bilateral. Às vezes, o olho em si não apresenta nada de muito diferente, mas a conjuntiva palpebral e o fundo de saco apresentam alterações que lembram bolinhas de sagu.

TRATAMENTO

Drauzio – Nas conjuntivites banais associadas a processos virais, como gripes e resfriados, geralmente as pessoas não procuram o oftalmologista, simplesmente pingam um colírio que têm em casa. O que seria certo fazer quando acordam com os olhos vermelhos?

Edilberto Olivalves – Quando acordam com os olhos vermelhos, as pessoas devem verificar se a hiperemia manifesta-se num olho ou nos dois olhos e a cor da secreção para informar posteriormente ao médico, se necessário. Como os colírios com antibióticos e corticoides ou que contenham substâncias vasoconstritoras não devem ser usados (o que limita muito o uso de colírios), o melhor é aplicar compressas de água gelada para aliviar os sintomas.

Drauzio – Existe fundamento científico para o uso de água boricada?

Edilberto Olivalves – Não existe. Água boricada pode até irritar a pele por causa do pH, se a aplicação for repetida muitas vezes.

Drauzio – Você não recomenda o uso de colírios com antibióticos, corticoides e substâncias vasoconstritoras. E os colírios que são compostos praticamente apenas por água e sal?

Edilberto Olivalves – Colírios à base de cloreto de sódio podem ser usados, mas é preciso verificar se não contêm sulfato de zinco ou algum vasoconstritor em sua composição, porque essas substâncias são adstringentes e contraindicadas, sobretudo para pacientes hipertensos, pois podem induzir reações adversas.

Drauzio – Há conjuntivites que são contagiosas. Como fazer para evitar a transmissão?

Edilberto Olivalves – É preciso evitar ao máximo o contato pessoal e com objetos dos portadores da conjuntivite. Por isso, toalhas de rosto e de banho, lenços e certos tipos de roupas não devem ser compartilhados.
Outra medida importante é não coçar os olhos. Coçá-los promove uma agressão física prejudicial e o agente da infecção pode ser transmitido pelas mãos. Por isso, é indispensável lavá-las com frequência. Se a coceira incomodar, uma compressa de água gelada é suficiente para aliviar o sintoma.