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Reposição hormonal: continuar ou descontinuar?

Drauzio Varella

A menopausa pode trazer desconforto e sofrimento. Sensações súbitas de calor intenso, astenia, secura vaginal, diminuição da libido, redução da elasticidade da pele e da densidade óssea, aumento da probabilidade de enfermidades cardiovasculares, labilidade emocional e depressão atormentam as mulheres nessa fase da vida. Como a reposição de hormônios sexuais com a associação de estrógeno mais progesterona ou apenas estrógeno costuma diminuir a intensidade desses sintomas, grande parte dos médicos aconselhava a reposição para a maioria das mulheres.

A publicação de um estudo americano aguardado com grande interesse, no entanto, confundiu médicos e pacientes a respeito das indicações da reposição e dos problemas com ela relacionados.

Esse estudo foi o WHI (Women Health Initiative). Nele foram inscritas mais de 160 mil mulheres pós-menopausadas, com idades entre 50 e 79 anos, no período de 1993 a 1998. As participantes foram distribuídas aleatoriamente em dois grupos: o primeiro recebeu uma combinação de estrógeno e progesterona, em doses mais altas do que as empregadas nos dias de hoje. O segundo recebeu placebo, comprimido inerte, mas de aspecto idêntico ao da reposição. O formato do estudo era em duplo-cego, isto é, médicos e pacientes desconheciam a composição dos comprimidos ingeridos.

O trabalho estava planejado para terminar em 2005, mas foi encerrado três anos antes em virtude de um aumento significante de casos de câncer de mama, infartos do miocárdio, derrames cerebrais e embolias pulmonares nas mulheres submetidas à reposição. Mostrou, ainda, que a reposição reduziu o número de fraturas ósseas provocadas por osteoporose e, curiosamente, a incidência de câncer do intestino.

A confusão dos especialistas com essa publicação pode ser explicada, não apenas pelos resultados surpreendentes, mas porque as doses empregadas de estrógeno e progesterona foram bem mais altas do que as utilizadas na rotina atual. Tivessem sido elas mais baixas, os números finais seriam os mesmos?

As mulheres que recebiam reposição hormonal, e se sentiam melhor e mais jovens com ela, foram tomadas por uma dúvida cruel: devo continuar?

A decisão de interromper ou prosseguir com a reposição deve ser discutida com base no motivo que levou à indicação do tratamento. Se a razão foi reduzir a possibilidade de ataque cardíaco numa mulher com fatores de risco como história familiar, diabetes, fumo, hipertensão e vida sedentária, as doses devem ser diminuídas gradualmente e o tratamento obrigatoriamente descontinuado.

Se foi indicado apenas para proteger contra osteoporose, medidas como dieta variada rica em vitamina D, suplementos de cálcio, exercícios físicos, não fumar e eventualmente tomar medicamentos específicos para prevenção, podem conferir proteção aos ossos, com menos risco do que os hormônios.

Caso a indicação tenha sido feita para combater sintomas mais intensos, que comprometiam seriamente a qualidade de vida, o médico poderá optar por descontinuar o tratamento para avaliar se os sintomas retornam. Em caso positivo, reintroduzi-lo na dose mais baixa que for possível.

É importante entender o que significam os aumentos de risco encontrados numa pesquisa como essa. O estudo mostrou, por exemplo, que no grupo tratado houve aumento de 26% nos casos de câncer de mama. Isso não quer dizer absolutamente que um quarto das mulheres desenvolveu tumores, mas que se a chance de uma mulher qualquer apresentar câncer de mama no decorrer da vida é de 10%, se fizer reposição nas doses utilizadas no WHI, passará a correr risco de 10 + 2,6 = 12,6%.

Entretanto, se essa mulher tiver mãe e duas irmãs com câncer de mama, já tiver sido submetida a biópsias de lesões pré-malignas no seio e tiver, por exemplo, risco de 30%, acrescentar 26% significaria aumentá-lo para 30 + 7,8 = 37,8%.

A decisão de indicar ou contraindicar reposição hormonal é complexa. Deve levar em conta as expectativas da mulher e ser tomada por um médico bem informado, para ajudá-la a escolher o melhor caminho.

Nos casos em que seja necessário suspender a reposição, é melhor fazê-lo com redução gradativa das doses sob orientação médica, para evitar desequilíbrios hormonais que provoquem efeitos indesejáveis. Interromper o tratamento abruptamente por conta própria certamente não é a medida mais sensata.