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Reflexões sobre a reposição hormonal

Drauzio Varella

Em medicina, as generalizações são perigosas. Em 1998, numa conferência internacional, ouvi uma professora universitária americana afirmar com ênfase: “São tantas as vantagens da reposição hormonal, que negar à mulher de meia idade o direito de usufruir seus benefícios é conduta antiética”.

A seguir apresentou uma série de slides para justificar a afirmação de que a reposição devia ser iniciada nos anos que antecedem a última menstruação e mantida pelo resto da vida. A argumentação, de fato, impressionava: a reposição hormonal aliviaria os sintomas vasoativos da menopausa responsáveis pelas ondas de calor, sudorese e mal-estar; reduziria os níveis de colesterol, o risco de doenças cardiovasculares, de osteoporose e de fraturas ósseas; diminuiria a secura vaginal, a dor à penetração, o número de infecções ginecológicas e do trato urinário. Além disso, rejuvenesceria a pele, elevaria a autoestima, teria ação antidepressiva, preservaria a memória e retardaria o aparecimento de demências como a doença de Alzheimer.

Embora a passagem para a menopausa seja amena para muitas mulheres, há outras que sofrem. Os sintomas vasoativos podem ser tão intensos e os episódios de sudorese abundante tão frequentes que inviabilizam o convívio social. A perda de elasticidade da pele, a diminuição da libido, a secura vaginal, os lapsos de memória, as crises de choro e os quadros depressivos característicos dessa época em que os filhos ficaram adultos podem destruir relacionamentos amorosos, provocar perda da autoestima e da vontade de viver.

Para agravar, algumas doenças parecem aguardar a chegada da menopausa para instalar-se. As mulheres têm menos ataques cardíacos e derrames cerebrais do que os homens, até chegar à menopausa, daí em diante o risco passa a ser idêntico: uma em cada três mulheres irá morrer de doença cardiovascular. As infecções ginecológicas e urinárias de repetição, a osteoporose, as fraturas e a redução da massa muscular comprometem a qualidade de vida e muitas vezes encurtam sua duração.

Nada mais desejável, portanto, que um tratamento como a reposição hormonal, aparentemente desprovido de maiores efeitos colaterais, fosse indicado para essa fase da vida. O que me incomodou naquela palestra não foi a indicação, mas a proposta de torná-la universal sem levar em conta a diversidade entre os seres humanos. Em medicina, não existe um único exemplo de remédio que sirva a todos.

Então, em 1992, foram publicados os resultados do estudo americano conhecido com a sigla WHI (“Women’s Health Initiative”). Uma população de 16.608 mulheres de 50 a 79 anos foi estratificada e dividida aleatoriamente em dois grupos: o primeiro recebeu reposição hormonal com uma associação de estrógeno e progesterona; o outro, placebo, um comprimido de aparência idêntica, porém inerte.

O estudo foi encerrado inesperadamente depois de 5,5 anos, bem antes do previsto, porque os riscos da reposição excederam os benefícios. As mulheres tratadas tiveram aumento de 29% de ataques cardíacos, 41% de derrames cerebrais, 113% de embolias pulmonares e 26% de câncer de mama. Em contrapartida, o risco de fraturas ósseas diminuiu 34% e o de câncer de cólon 37%. As demências ocorridas depois dos 65 anos, infelizmente, aconteceram com o dobro da frequência nas que receberam hormônios.

Desde a publicação do WHI, nenhum médico razoavelmente informado defende reposição hormonal para todas as mulheres em menopausa, ao contrário, a indicação se tornou criteriosa, restrita aos casos em que os sintomas desagradáveis são suficientemente intensos para justificá-la. Ainda assim, as doses de estrógeno e progesterona empregadas costumam ser bem menores e a duração do tratamento muito mais limitada.

A importância dos dados estatísticos obtidos em estudos com tantos participantes quanto o WHI, é justamente permitir a avaliação crítica de dogmas como aquele enunciado pela professora americana.

A prática da medicina moderna não pode seguir a moda como no passado, deve ser baseada em evidências científicas. Nas situações em que elas não existem todo cuidado é pouco. Em Biologia, especialmente, nem tudo o que reluz é ouro.