Causas e tratamento das hemorragias nasais

Quando o nariz sangra

Drauzio Varella

Em medicina, nem sempre é sábia a sabedoria popular.

Se assim fosse, corrente de ar nas costas seria pneumonia na certa, friagem deixaria todo mundo gripado, amarrar lenço com álcool no pescoço curaria dor de garganta, mulher menstruada jamais lavaria a cabeça, vitamina C nos livraria para sempre dos resfriados, parturientes deveriam guardar resguardo e tomar Malzebier para engrossar o leite. Para não falar da infinidade de chás, poções e garrafadas que apregoam curar qualquer enfermidade, nem dos suplementos vitamínicos, dos remédios para abrir o apetite, queimar gordura localizada, estimular a imunidade e proteger o fígado que infestam feito ervas daninhas as prateleiras das farmácias brasileiras.

Outro exemplo de conhecimento que a sabedoria popular consagrou é a manobra de inclinar a cabeça para trás nos sangramentos nasais. Basta escorrer a primeira gota de sangue do nariz mais próximo, que os circunstantes ordenam em uníssono: “Cabeça para trás”.

Aqui entre nós, leitor, você já fez parte desse coro?

Pelo menos uma vez na vida, 60% das pessoas terão sangramento nasal (epistaxe, em linguagem médica). Ele é mais comum nas crianças com menos de 10 anos e em adultos com mais de 35.

A quase totalidade ocorre na parte da frente do septo que separa as narinas – a parte mais móvel, elástica. Apenas 10% acontecem na parte de posterior do septo – a parte fixa e dura – ou nas paredes internas das asas laterais do nariz. Sangramentos posteriores são mais comuns depois dos 60 anos.

A epistaxe pode ser causada tanto por problemas locais como por condições gerais (ou sistêmicas). Traumatismos locais são mais frequentes em crianças. Nos adultos, o uso tópico de descongestionantes, antialérgicos e corticosteróides pode provocar hemorragias em cerca de 20% dos casos. Para minimizar esse risco, é aconselhável dirigir o spray para as partes laterais do nariz.

Outras causas locais são: uso de cocaína, ressecamento da mucosa causado pelo clima excessivamente seco, pelo inverno rigoroso, por exposição prolongada ao ar condicionado ou por infecções virais e bacterianas.

As condições sistêmicas que mais provocam sangramento nasal são as doenças que afetam a coagulação do sangue: hemofilia, insuficiência hepática, insuficiência renal, leucemias e linfomas. A administração de aspirina para prevenir doenças cardiovasculares aumenta o risco. A ingestão de ginseng, pó de alho, ginkgo e outros produtos assim chamados alternativos, também.

Embora popular, o mito de que pressão alta faz o nariz sangrar é no mínimo controverso.

Um estudo populacional com grande número de participantes, publicado em 2003, não encontrou nenhuma relação. Num outro, conduzido entre hipertensos que já haviam apresentado pelo menos um episódio de sangramento nasal, não foi possível demonstrar que a gravidade nem o descontrole da hipertensão tivesse influência no aparecimento de epistaxes.

Quando o sangramento é abrupto, fica difícil diferenciar se foi causado por um pico de pressão alta ou se a ansiedade causada pela visão do sangue foi responsável pelo aumento da pressão.

A maioria dos sangramentos nasais é autolimitada e não requer tratamento médico. Como 90% deles se instalam na parte da frente do septo nasal basta comprimir com firmeza as asas nasais contra essa parte mais elástica do septo, usando o polegar e o indicador em forma de pinça, durante 15 minutos. Não esqueça: 15 minutos.

A pessoa deve respirar pela boca, enquanto durar a compressão, e sentar-se confortavelmente de modo a manter a cabeça numa posição mais alta do que o resto do corpo. Jamais deitar!

A cabeça deve ficar ligeiramente inclinada para frente. Não deve ser inclinada para trás para evitar que o sangue escorra pela faringe e vá parar no estômago ou nas vias aéreas.

Hemorragias refratárias à compressão mecânica mantida por 15 minutos, requerem assistência médica. Aplicação local de vasoconstritores, cauterização elétrica ou química (com nitrato de prata) costumam controlar a maior parte dos quadros.

Casos de perda de sangue mais intensa podem exigir tamponamento com material esponjoso deixado na cavidade nasal por 1 a 3 dias. Sangramentos na parte posterior do septo exigem intervenções mais agressivas.