Artigo

Especulações sobre a longevidade

Drauzio Varella

A expectativa de vida durante o século 20 experimentou um salto quantitativo jamais vivido nos 5 milhões de anos da espécie humana. Em 1900, para quem nascia na Europa mais desenvolvida, ela andava ao redor do 40 anos; quando o século terminou, havia chegado aos 80 anos em diversos países. O salto espetacular atiça a esperança de repetirmos o feito nos próximos cem anos. Quem não gostaria de chegar saudável aos 120 ou 150 anos?

A duração da vida é tecnicamente definida pela idade atingida pelo indivíduo no dia da morte. Para grandes populações heterogêneas, os demógrafos calculam a expectativa de vida com base em tabelas que consideram os valores médios de duração da vida dos indivíduos.

Estatisticamente, à medida que a expectativa de vida, ao nascer, cresce numa população, ela se torna menos sensível a variações nos índices de mortalidade. Assim, num país com expectativa de vida de 20 anos, um aumento de longevidade para 80 anos em 10% da população puxaria a média mais para cima, do quem em outro cuja expectativa inicial fosse de 70 anos.

Esse fenômeno é conhecido com o nome de entropia das tabelas de vida. Para ilustrá-lo, a seguinte situação costuma ser citada: as mulheres francesas nascidas no início do século 20 apresentavam expectativa de vida ao redor de 50 anos. Para aumentar-lhes essa expectativa média em mais 365 dias, foi preciso reduzir a mortalidade da população feminina em 4,1% a cada ano de vida. Em contraste, para aumentar mais um ano na expectativa atual de cerca de 80 anos, seria preciso conseguir uma redução de 9,1% por ano de vida.

Ainda usando o caso das francesas, mulheres que em 1987 ultrapassaram a barreira dos 80 anos de expectativa de vida, a partir dessa data, seria necessário reduzir-lhes a mortalidade em 26%, ano por ano de vida, para chegarmos à expectativa de 85 anos.

Nos Estados Unidos, para essa expectativa atingir os mesmos 85 anos a mortalidade atual precisaria cair pela metade, em cada ano de vida.

Até entre as mulheres japonesas, cuja expectativa de 83 anos é a mais alta da espécie humana, a queda de mortalidade anual para ser atingida a meta dos 85 anos seria alta: 20%.

A diminuição dos índices de mortalidade entre as mulheres americanas possibilitou um aumento da expectativa de vida de 49 anos em 1900, para 79 anos em 2000. Se declínio idêntico de mortalidade puder ser repetido neste século 21, a expectativa aumentará para 89,1 anos. E, se no século 22 ele for novamente repetido, o aumento será de apenas mais 6,1 anos.

A persistirem entre os mais velhos índices de mortalidade semelhantes aos de hoje, a média de 100 anos de vida só será alcançada quando nenhum dos filhos dos leitores desta coluna estiver presente. A expectativa de vida dos franceses (homens e mulheres) atingirá meros 85 anos em 2033, a dos japoneses em 2035, e a dos americanos em 2182.

Na verdade, reduções de mortalidade na população abaixo de 50 anos da ordem daquelas ocorridas no século passado não serão mais possíveis em países desenvolvidos, porque as infecções e doenças parasitárias não representam mais causas de morte em massa. Isso quer dizer que se pretendermos aumentar significativamente a longevidade, seremos forçados a obter grandes quedas de mortalidade na população com mais de 50 anos.

Será preciso acrescentar décadas de vida aos que chegam aos setenta anos, o que significa convencer a imensa maioria a não fumar, beber pouco, praticar atividade física diária, comer com moderação. Significa, também, aprendermos a prevenir todas doenças cardiovasculares, encontrarmos a cura do câncer, das doenças reumatológicas e, a tarefa mais difícil, evitarmos a deterioração neurológica que aflige os que insistem em permanecer vivos. Teremos muito trabalho pela frente.