Entrevista

Doenças da poluição

João Ferreira de Mello Jr. é otorrinolaringologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina FMUSP.

Em cidades como São Paulo, especialmente nos períodos de longa estiagem, todos nos queixamos dos efeitos maléficos da poluição ambiental nas mucosas do aparelho respiratório, retratado na imagem 1.

A cavidade nasal onde se localiza o septo que separa as duas narinas é a câmara de entrada do ar. Logo abaixo está a faringe, tubo muscular que une o aparelho respiratório ao aparelho digestivo, isto é, a boca com o nariz. Por isso, podemos também respirar pela boca. A seguir vem a laringe (onde ficam as cordas vocais), que se abre para a entrada do ar e se fecha para que os alimentos desçam pelo esôfago.

A traqueia, estrutura que vem a seguir, é formada por anéis cartilaginosos e se divide em dois tubos mais finos: os brônquios que se dividem em ramos cada vez menores até atingirem um diâmetro quase microscópico, quando alcançam os alvéolos pulmonares. Essa ramificação recebe o nome significativo de árvore brônquica.

Toda a mucosa do aparelho respiratório produz muco e é revestida por cílios. A função do muco é aprisionar partículas estranhas e irritantes e a dos cílios é removê-las. Para tanto, vibram em ondas como as que o vento provoca soprando numa plantação de trigo. A presença de irritantes, quaisquer que sejam, produz alterações importantes nesse mecanismo fundamental para a vida.

FUNÇÕES DO NARIZ

Drauzio – Qual a função do nariz? Como a evolução preservou essa estrutura saliente na face?

João F. de Mello Jr. – O nariz tem função estética, função olfatória ou olfativa, função respiratória e de caixa de ressonância. Não se sabe por que a evolução preservou a função estética. O fato é que para nós ter nariz é bonito. Sem ele, o rosto adquire um aspecto assustador, tanto que antigamente algumas penalidades previam a amputação do nariz.  No processo evolutivo, com certeza, a função olfativa está relacionada com a procriação, com a procura do parceiro mais forte e adaptado para garantir a preservação da espécie. O nariz funciona também como caixa de ressonância ligada à vocalização, isto é, é nele que a voz ressoa e se torna mais agradável.

Sem dúvida alguma, porém, a mais importante de suas funções é a respiratória. O nariz funciona como filtro do ar que inspiramos. Além de reter as partículas de poeira, ele também regula a temperatura e umidade do ar que entra nos pulmões.

Drauzio – Até que ponto o nariz filtra mesmo o ar que entra no organismo?

João F. de Mello Jr. – O nariz é um excelente filtro. Ele retém, por exemplo, quase 100% das partículas grandes contidas na fumaça cinza dos caminhões e uma série de gases. Quando moramos num ambiente despoluído, o nariz consegue exercer essa função de forma adequada. O grande problema ocorre em cidades poluídas como São Paulo, porque a capacidade de filtrar do nariz acaba sendo ultrapassada e entram pelas vias aéreas substâncias que não gostaríamos de respirar.

Drauzio – O que nós não gostaríamos exatamente de respirar?

João F. de Mello Jr. – Não gostaríamos de respirar nada que não fosse ar. O nariz evita que substâncias ou partículas como germes, bactérias, vírus, gases tóxicos, penetrem na parte inferior das vias aéreas, zona onde ocorre a respiração propriamente dita, ou seja, onde o oxigênio é absorvido e os gases prejudiciais para o organismo são exalados.

MECANISMOS DE DEFESA

Drauzio – Como o aparelho respiratório se defende dessas agressões externas representadas por produtos químicos, bactérias e vírus, por exemplo?

João F. de Mello Jr. – Os sintomas são sempre os mesmos. O nariz entope para impedir que elementos nocivos penetrem no organismo, aparece coriza para lavar e expelir substâncias estranhas como vírus e bactérias, e a pessoa espirra para removê-las mecanicamente. Se a agressão for muito intensa, surge a tosse e, algumas vezes, ocorre fechamento da garganta para impedir a penetração dos germes.

Como o nariz em particular e o restante das vias aéreas fazem isso, varia um pouquinho. Nos alérgicos, por razões genéticas, esse mecanismo de defesa está comprometido e há a produção de anticorpos que agem contra a mucosa das vias aéreas, provocando aumento da quantidade de secreção. Os não alérgicos expostos à grande quantidade de poluição também manifestam esses sintomas, mas por mecanismos reflexos. Para deixar mais claro o que isso significa, imagine o que acontece quando uma pessoa encosta a mão numa panela fervendo. Ela puxa a mão bem depressa para não se queimar. O nariz tem reflexos “semelhantes”. Toda a vez que entra em contato com substância irritante, ele se defende provocando obstrução, coriza e espirros.

Não se pode deixar de dizer ainda que o nariz neutraliza os gases que inalamos e que as vibrícias, esses pelinhos que revestem internamente sua ponta, retêm as partículas maiores de sujeira. Além disso, a cavidade nasal é cheia de reentrâncias e saliências. O ar batendo nessas paredes que são cobertas por muco viscoso deixa nelas grudadas as partículas em suspensão. Assim, quando chega na parte de trás do nariz, na altura da garganta, o ar está com o grau correto de umidade, filtrado e aquecido, ou seja, com as características ideais para alcançar os alvéolos pulmonares onde se processa a troca gasosa.

ÁCAROS: POLUENTES BIOLÓGICOS

Drauzio – De que maneira a poluição ambiental altera esses mecanismos naturais?

João F. de Mello Jr. – No que se refere à poluição ambiental, é  preciso diferenciar alguns tipos de poluentes. Os ácaros, que são poluentes biológicos, agridem mais as pessoas alérgicas.

(imagens 2 e 2a) Eles pertencem à família dos aracnídeos e possuem quatro pares de patas como as aranhas. Basicamente, o que fazem na vida é alimentar-se, pôr ovos e brigar com os outros ácaros.

Existem mais de 30 mil espécies de ácaros. O carrapato é um deles, mas os que mais causam doenças alérgicas vivem dentro de nossas residências. São os dermatofagoides, ou comedores de pele (dérmato quer dizer pele e fagoide significa que come). Eles proliferam onde houver descamação de pele e necessitam de um ambiente escuro, úmido e quente como os fungos. Nas nossas casas, embora carpetes, estofados e armários possam abrigar muitos ácaros, o colchão é o lugar ideal para eles. O calor e a umidade de nosso corpo, a descamação natural da pele, lençóis e colchas que mantêm o escurinho e a umidade que não desaparece mesmo durante o dia propiciam as condições de que necessitam para se desenvolverem.

Drauzio – Como os ácaros chegam às nossas vias aéreas?

João F. de Mello Jr. – Em geral, o ácaro fica retido entre as fibras do colchão, não em sua superfície. O que provoca alergia é o animal morto que se solta das fibras e elimina bolotas fecais extremamente alergizantes. Quando a pessoa se senta ou se deita na cama, é como se pulverizasse essas substâncias para o ar, que voltam a cair e são inaladas.

Drauzio – Esses aparelhos que apregoam a propriedade de eliminar ácaros funcionam?

João F. de Mello Jr. – Tudo é paliativo. O ideal é não ter ácaros. Esses pequenos animais ficam presos nas fibras dos tecidos, e os aparelhos não têm como removê-los dali. Os que produzem vapor quente conseguem matar os ácaros, porque eles morrem a 60º. O problema, porém, é que umedecem o tecido e, como não se consegue secar completamente o colchão, o carpete ou o estofado, depois de algum tempo a população de ácaros aumenta muito. O ácaro vive mais ou menos cem dias e a fêmea coloca cerca de dois ovos por dia, portanto 200 durante a vida.

POLUIÇÃO AMBIENTAL NAS GRANDES CIDADES

Drauzio – De que maneira a poluição do dia a dia numa cidade como São Paulo afeta as vias respiratórias?

João F. de Mello Jr. – O efeito da poluição ambiental pode ser agudo ou crônico. O agudo é sentido, por exemplo, por uma pessoa que more no campo e venha para São Paulo num dia extremamente poluído, ou por aqueles que, mesmo vivendo na cidade, se ressintam de um pico elevado nos níveis de poluentes. Nesses casos, basicamente ocorrem reações inflamatórias resultantes dessa grande agressão ao aparelho respiratório.

Já o efeito crônico acaba minando as defesas do organismo. Num estudo que está em andamento e do qual tenho a oportunidade de participar, observamos que a agressão crônica na cavidade nasal faz com que o nariz exposto continuamente à poluição ambiental produza menos secreção do que o da pessoa que respira ar puro.

Pacientes com alergia, quando entram em contato com a poluição atmosférica, amplificam a reação alérgica. Explicando melhor: uma pessoa que precisa entrar em contato com 50 ácaros para manifestar uma reação de alergia, se estiver num ambiente em que haja partículas advindas da combustão de óleo diesel como as que existem na fumaça dos caminhões, basta um ácaro para provocar nela a reação alérgica. Isso quer dizer que a poluição ambiental potencializa a sensibilidade dos indivíduos alérgicos.

SINTOMAS NOS DIAS MAIS POLUÍDOS

Drauzio – Nesses dias de longa estiagem em que o ar está pesado, de que as pessoas se queixam mais?

João F. de Mello Jr. – As pessoas sentem os olhos irritados, lacrimejando, o nariz e a garganta muito secos. Os cheiros incomodam e algumas reclamam de dor de cabeça causada pelo ressecamento das cavidades nasais ou pela própria poluição ambiental. Além disso, se sentem mais cansadas, com mal-estar e desanimadas. O interessante é notar que, no hospital e no consultório, nesses dias, aumenta muito o número de indivíduos que apresentam esses sintomas.

EFEITOS DO AR CONDICIONADO

Drauzio – Qual é o efeito do ar condicionado nesse tipo de situação?

João F. de Mello Jr. – Para avaliar os efeitos do ar condicionado, precisamos determinar primeiro o que estamos querendo limpar com esses aparelhos. Se é a poluição externa, eles são muito bons, desde que os filtros estejam sempre limpos, já que ele vai reter a sujeira do meio externo, impedindo que ela entre em casa ou no escritório. No entanto, se existe grande quantidade de poluentes no ambiente interno, o ar condicionado não resolve nada. Ao contrário, prejudica bastante. Portanto, pessoas fumando, carpetes, estofados, ou mesmo paredes pintadas recentemente podem liberar substâncias nocivas que ficarão circulando e serão aspiradas pelas pessoas que por ali circulem.

Drauzio – Outro problema é que o ar condicionado resseca o ar…

João F. de Mello Jr. – Esse é outro aspecto do ar condicionado prejudicial ao nosso organismo. Embora o nariz tenha a capacidade de fazer com que o ar que respiramos chegue à nossa garganta com a umidade correta, se ele estiver seco demais, esse processo ficará comprometido.

Uma série de estudos já mostrou que a mudança da temperatura e da umidade relativa do ar altera a sensibilidade da mucosa nasal. No entanto, repito que qualquer instrumento usado para minimizar as manifestações alérgicas ou a poluição ambiental é sempre de ação paliativa. O certo seria combater a poluição antes que ela fosse gerada. Depois disso, o custo acaba sendo maior e os resultados mais precários.

Drauzio – Grande número de pessoas é obrigado a trabalhar em ambientes com o ar condicionado ligado ininterruptamente. O que essas pessoas devem fazer para evitar os malefícios que essa situação traz consigo?

João F. de Mello Jr. – O ideal seria que a área de trabalho estivesse livre de tudo que pudesse irritar as vias aéreas. Quando isso não é possível, é preciso tomar algumas precauções. Como já dissemos, a função do nariz é filtrar o ar que respiramos. Nesse aspecto, ele se parece com um aspirador de pó. Do aspirador, volta e meia, o filtro deve ser trocado. Como não se pode fazer o mesmo com o nariz, a solução é lavá-lo com soro fisiológico para que o muco se torne mais fluido e exerça suas funções eficazmente.

SOLUÇÃO SALINA PARA O NARIZ

Drauzio – Quantas vezes por dia você aconselha que se pingue solução salina no nariz?

João F. de Mello Jr. – Quanto mais vezes melhor, mas no mínimo de duas a três vezes por dia, especialmente de manhã e à noite. Como não há nenhuma contraindicação para o uso da solução salina, vale a pena aplicá-la pelo menos mais uma vez, na hora do almoço, por exemplo, se a pessoa for obrigada a passar o dia inteiro fechada num ambiente com ar condicionado. Isso não vai resolver completamente o problema, mas ajudará a diminuir os efeitos adversos.

Drauzio – A solução salina pode ser comprada nas farmácias, mas pode ser preparada em casa também. Qual a proporção de água e sal que deve conter? 

João F. de Mello Jr. - Para um copo desses de requeijão de água fervida deve-se colocar uma colher de chá rasa de sal. A solução salina não tem contraindicações desde que não contenha conservantes agressivos para o nariz. Por isso, a preparada em casa precisa ser sempre nova. Preparada pela manhã, deve ser jogada fora no fim do dia. Mesmo depois de filtrada ou fervida, a água pode conter algumas substâncias agressivas, uma vez que antes de chegar ao consumidor, passou por uma série de tratamentos e foram adicionados produtos químicos para deixá-la mais limpa. Como consequência, a solução fisiológica comprada na farmácia é a única completamente estéril e sem contraindicações, já que a doméstica pode conter algumas substâncias irritantes. Apesar disso, é sempre melhor usá-la para combater os efeitos prejudiciais da poluição do que não tomar nenhuma providência nesses sentido.

MEDIDAS CONTRA OS MALEFÍCIOS DA POLUIÇÃO

Drauzio – Que outras medidas você sugere para quem é obrigado a viver numa cidade poluída com São Paulo, por exemplo?

João F. de Mello Jr. – Sempre que puder, a pessoa deve sair da cidade durante algum tempo para respirar ar um pouco mais limpo. Deve praticar esportes evitando fazê-lo no meio do dia em lugares como o Parque Ibirapuera, por exemplo, porque a poluição do ozônio que não enxergamos é agressiva para o organismo. Deve usar soluções salinas para lavar o nariz e acima e tudo não deve fumar, porque o cigarro é muito agressivo para as defesas das cavidades nasais.

Drauzio – Todos sabemos que os alérgicos devem evitar ter em casa carpetes, cortinas ou qualquer outro objeto que acumule poeira facilmente. Além dessas medidas que são bastante conhecidas, que outras são importantes nesses casos?

João F. de Mello Jr. – Eu gostaria de lembrar outras medidas conhecidas há mais tempo ainda e das quais nos esquecemos com frequência. Existe um ditado que diz: onde há sol não há doença. Se a cama for colocada num lugar do quarto onde bata sol e as cobertas forem retiradas do colchão para que os raios solares incidam diretamente sobre ele, vai ajudar muito. Os ácaros, como os bolores, preferem umidade e escuro.

É bom lembrar, também, que a melhor forma de retirar a sujeira dos tapetes e carpetes não requer o uso do aspirador. Para ter uma ideia, remover os ácaros desses objetos exigiria passar o aspirador com força durante três e cinco minutos por metro quadrado. Como fazer isso é difícil, o aparelho acaba sendo passado superficialmente e limpa quase nada. O melhor seria fazer como as donas de casa antigas que levavam os tapetes para fora de casa, onde ficavam expostos ao sol, e batiam neles para acabar com a poeira.

Como ambientes em que bate sol são mais saudáveis, abrir as janelas e deixar o ar circular, mesmo que haja poluição, externa é outra boa medida. Virar o colchão a cada 15 dias e, se possível, colocá-lo no sol é uma recomendação bastante válida. Passar aspirador no colchão, por incrível que pareça, também ajuda. O ideal seria forrá-lo com capas de plástico, mas dormir sobre elas é extremamente desagradável. Existem para esse fim, então, capas especiais, de custo e textura variáveis que podem ser utilizadas com bons resultados.

Trocar a roupa de cama no mínimo uma vez por semana é outra conduta importante, assim como é importante lavar as roupas de inverno que ficaram guardadas no armário durante os meses quentes antes de usá-las.São cuidados simples, mas podem evitar que crises de alergia tragam sofrimento e mal-estar para as pessoas.