Ciência

Os micróbios da boca

Drauzio Varella

A boca é um ecossistema de alta complexidade. Esse é o tema de uma revisão publicada num dos últimos números da revista Science.

A primeira descrição de que na boca humana havia seres estranhos, foi feita no final do século 17, na Holanda, por Antony van Leeuwenhoek – um dono de armarinho, hoje considerado o pai da bacteriologia – cuja distração principal era explorar os recursos de uma engenhoca recém-descoberta: o microscópio.

Enquanto os microscopistas da época procuravam magnificar com o novo aparelho asas de insetos, grãos de pólen e outros objetos minúsculos, Leeuwenhoek decidiu pesquisar o invisível. Colocou no aparelho uma gota de água da chuva e revelou o achado: “Encontrei pequenos animais, a meu ver, mais de 10 mil vezes menores do que a pulga d’água, que se pode ver a olho nu”.

Em 1683, ele descreveu o exame microscópio da placa aderida a seus dentes da frente. Nela encontrou milhares desses “pequenos animais”, que desapareciam quando o exame era feito depois de tomar café bem quente. Perguntou intrigado: “Será que o calor do café matou os animaizinhos?”.

Na década de 1960, pesquisadores americanos verificaram que, nas placas dentárias, havia populações distintas de bactérias, e que a mucosa da boca e a superfície dos dentes eram revestidas por micro-organismos dispostos em camadas finas, denominadas biofilmes.

Os bacteriologistas procuraram, então, cultivar as bactérias da cavidade oral em laboratório. Os resultados foram decepcionantes: apenas metade crescia nos meios de cultura, impossibilitando a caracterização da biodiversidade existente.

No início dos anos 1990, Sigmund Socransky e colaboradores, de Boston, desenvolveram técnicas para identificação das bactérias sem a obrigatoriedade de cultivá-las em caldo de cultura. A metodologia se baseia em provocar reações bioquímicas capazes de diferenciar o DNA de cada micro-organismo presente numa comunidade, e permite examinar milhares de amostras de cada vez. As novas técnicas identificaram mais de 700 espécies diferentes de germes vivendo em estilo comunitário na cavidade oral humana.

Os micro-organismos que colonizam a boca mostram predileção clara por determinadas regiões: alguns preferem a superfície da língua, outros, a das gengivas ou a dos dentes. Por exemplo, a bactéria Streptococcus mutans que se alimenta de açúcar, a partir do qual libera ácido láctico que destrói o esmalte e provoca as cáries, vive exclusivamente na superfície dentária.

Apenas na língua, foram encontradas 92 espécies de micro-organismos, alguns dos quais responsáveis pelo mau hálito. Quando estes são eliminados por raspagem ou gargarejos com soluções bactericidas, a halitose diminui de intensidade ou desaparece.

Como em outras comunidades biológicas, existe cooperação entre as bactérias contidas nos biofilmes, que revestem as diversas regiões da boca: substâncias liberadas por uma bactéria podem atrair outras. Por exemplo, a bactéria Streptococcus gordonii, que vive no biofilme que cobre os dentes, possui proteínas em sua superfície que atraem outra bactéria, Porphiromonas gingivalis, envolvida em infecções gengivais.

Para dar idéia da complexidade biológica do ambiente criado por tantos micro-organismos comunitários basta lembrar que apenas esta última bactéria produz cerca de 220 proteínas.

Em 2004, o Instituto de Pesquisas Dentárias e Craniofaciais, de Rockville, Estados Unidos, deu início a um estudo programado para catalogar todos os genes dos germes existentes na cavidade oral. Em três anos de duração, o projeto pretende identificar 40 mil genes característicos das populações de saprófitas, simbiontes e parasitas que se instalam e convivem nas diversas regiões da boca.

O estudo permitirá identificar as fragilidades dos germes patogênicos e identificar aqueles que oferecem proteção à mucosa oral e aos dentes.

Compreender melhor as relações ecológicas que se estabelecem entre as diversas comunidades microbiológicas distribuídas pela cavidade oral permitirá usar bactérias inofensivas, geneticamente modificadas, para competir e eliminar as patogênicas responsáveis pelas cáries e outras doenças que agridem a porta de entrada do aparelho digestivo.