Entrevista

Hormônio do crescimento

Marcello Bronstein, médico endocrinologista, é professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

O hormônio do crescimento é produzido pela hipófise, glândula pequena como um grão de feijão, localizada na parte inferior do cérebro. Como o nome diz, esse hormônio é absolutamente essencial para proporcionar o crescimento físico e a deficiência em sua produção é responsável pelos casos de nanismo, isto é, pela estatura muito baixa de algumas pessoas. Produzido em excesso, provoca acromegalia, ou seja, crescimento exagerado dos pés, das mãos, das orelhas e nariz.
Entre as décadas de 1960 e 1980, o hormônio do crescimento era obtido a partir da hipófise de cadáveres, método que limitava muito sua utilização. No entanto, o desenvolvimento da tecnologia do DNA recombinante tornou possível introduzir o gene do hormônio do crescimento humano em bactérias a fim de que elas produzissem esse hormônio. Em outras palavras: a introdução do gene do hormônio do crescimento humano em bactérias fez delas escravas obrigadas a produzi-lo em quantidades ilimitadas, o que possibilita sua utilização numa série de situações clínicas diferentes.

FISIOLOGIA

Drauzio – Qual é a fisiologia do hormônio do crescimento?

Marcello Bronstein – O hormônio do crescimento, ou GH (Growth Hormone), é produzido pela hipófise. Ao contrário de outros hormônios produzidos pela hipófise que costumam regular o funcionamento de glândulas, como as suprarrenais, os testículos e os ovários , o hormônio do crescimento age no organismo como um todo, promovendo não só o crescimento longitudinal, mas o das células em geral. Ele faz isso valendo-se de um intermediário, chamado somatomedina C ou IGF-1, produzido principalmente no fígado, mas também pelas células ósseas e musculares, por exemplo. Essa dupla GH e IGF –1 promove grande parte do anabolismo do corpo, ou seja, é fundamental para o crescimento e desenvolvimento de todos os tecidos.
Embora o GH possa ser encontrado em algumas células de mamíferos, as quantidades obtidas são pequenas e o preço final, muito alto. Atualmente, o GH costuma ser produzido em bactérias, geralmente, na Escherichia coli.

DEFICIÊNCIA NAS CRIANÇAS

Drauzio  O que acontece com a criança com deficiência na produção do GH?

Marcello Bronstein - Problemas genéticos, traumas de parto ou radiação por causa de tumores na região da hipófise podem resultar na falta de hormônio do crescimento e, consequente, na falta de produção do IGF-1, prejudicando o desenvolvimento físico da criança. A deficiência desses hormônios fará dela uma anãzinha, portadora de nanismo, com altura final entre um metro, 1,20m ou 1,30m, no máximo

Drauzio – O crescimento de todos os órgãos dessas crianças também é proporcionalmente menor? 

Marcello Bronstein – Nessas crianças, o nanismo é harmônico. Elas são proporcionais, diferentes do anão acondroplásico, que tem tronco normal, mas membros curtos e arqueados. Neste caso, não há deficiência de hormônio de crescimento. O problema está nas cartilagens dos braços e das pernas.

Drauzio Se prescrevermos hormônio do crescimento para um anão harmônico, menino ainda, seu desenvolvimento será normal? 

Marcello Bronstein – Dependerá da fase em que o diagnóstico for feito. Quanto mais cedo for, melhores serão os resultados.

Drauzio – Essas crianças nascem com tamanho normal?

Marcello Bronstein – Podem nascer ou não. Depende da causa que vai levar à deficiência na produção do GH. De qualquer modo, a alteração no crescimento pode ser percebida muito cedo. Os pais podem notá-la comparando o filho com as outras crianças e, obviamente, levando-o ao pediatra. Ele irá constatar que a velocidade do crescimento e a estatura da criança estão aquém do considerado normal para a população infantil na mesma faixa de idade.

Drauzio  Crianças com deficiência de GH devem ser tratadas por quanto tempo?

Marcello Bronstein – Depois que a engenharia genética tornou disponível o hormônio de crescimento recombinante, essas crianças são tratadas até fecharem as cartilagens de conjugação, o que se dá por volta dos 16 anos nos meninos e por volta dos 14, 15 nas meninas, ou são tratadas até atingirem uma estatura adequada. Na verdade, quando o GH era obtido em quantidades pequenas a partir da hipófise de cadáveres, em geral, as meninas recebiam o hormônio até os doze anos e os rapazes, até os treze.

DIAGNÓSTICO

Drauzio – Quando a criança não cresce é fácil diagnosticar a falta do hormônio do crescimento. Mais tarde, porém, esse conjunto tão variável de ações que ele desempenha no organismo deve dificultar o diagnóstico. 

Marcello Bronstein – A forma mais simples é fazer a dosagem do IGF-1, o representante do hormônio do crescimento. Como ele depende do GH para ser produzido, se o nível do IGF-1 estiver baixo, é sinal de falta do hormônio do crescimento e, se estiver elevado, de que ele existe em excesso.
Entretanto, a dosagem do IGF-1 permite fazer o diagnóstico apenas em 50% dos casos. Por isso, muitas vezes, precisamos provocar sua liberação no sangue através de um estímulo farmacológico para diagnosticar a deficiência do hormônio do crescimento.

Drauzio – Então, eu poderia dizer o seguinte: se o exame de sangue revelar que o IGF-1 está baixo ou alto, é possível fazer o diagnóstico de deficiência ou excesso de produção do hormônio do crescimento. Quando ele está normal e há a desconfiança de que haja alguma alteração, é necessário fazer outro teste.

Marcello Bronstein – Isso mesmo. Lembrando que a hipófise produz vários outros hormônios e que, normalmente, o GH é o primeiro a apresentar comprometimento na sua produção, quando existe um tumor ou um trauma, por exemplo. Mais tarde, surgirão também alterações na produção de outros hormônios, dado importante para complementar o diagnóstico.

Drauzio – Qual é o inconveniente do excesso de hormônio de crescimento no organismo?

Marcello Bronstein – Excesso de hormônio de crescimento provoca aumento da massa magra, ou seja, dos músculos, e diminuição da massa gordurosa. Esse aumento da musculatura, porém, acarreta um aumento de força transitório.
Além disso, o excesso desse hormônio provoca deformações no corpo, tais como protusão da fronte, aumento do nariz e dos lábios, das mãos e dos pés. Os anéis ficam pequenos, e o indivíduo é obrigado a usar calçados dois ou três números maiores. Esse quadro é chamado de acromegalia (acro quer dizer extremidade e megalia, aumento).

APLICAÇÕES NA MEDICINA
Drauzio – Além da aplicação precisa do hormônio do crescimento para fazer crescer crianças com nanismo, existem outras baseadas na propriedade que ele tem de construir tecidos.

Marcello Bronstein – A possibilidade de o GH recombinante ser produzido em quantidade ilimitada, estimulou a realização de pesquisas que apontaram condições de uso ligadas ou não à deficiência em sua produção.
Nos últimos vinte anos, verificou-se que ele é fundamental não apenas para as crianças, mas para dar continuidade ao processo de construção do organismo dos adultos.
Adultos com deficiência desse hormônio adquirida, por exemplo, por trauma de crânio, cirurgia na hipófise ou por radiação, apresentam a síndrome da deficiência do GH, caracterizada não pela falta de crescimento, porque eles já atingiram a altura total, mas por uma somatória de outras características que podem orientar o diagnóstico. São eles: aumento da massa gordurosa e diminuição da massa magra, isto é, dos músculos, tendência à descalcificação dos ossos, aumento do colesterol e dos triglicérides, tendência à síndrome metabólica e consequentemente, intolerância à glicose e aparecimento de diabetes.

Drauzio  Você poderia lembrar o que é síndrome metabólica?

Marcello Bronstein – A síndrome metabólica ou síndrome X é caracterizada por hipertensão arterial, glicose discretamente aumentada no sangue, alterações nos níveis de triglicérides e de colesterol e acúmulo de gordura no abdômen.
A obesidade abdominal é característica importante da síndrome metabólica, em função da qual ocorrem alterações no metabolismo dos açúcares e das gorduras. O curioso é que doses altas do hormônio do crescimento aumentam o nível de glicose no sangue e a deficiência em sua produção pode levar à intolerância à glicose ou mesmo ao diabetes.
Alguns estudiosos do assunto – e eu acredito também nisso – defendem que o GH é fundamental para o bem-estar psicológico. Adultos com deficiência na sua produção têm o que se chama genericamente de diminuição de energia e apresentam tendência à depressão. Um estudo que fizemos a respeito da reposição desse hormônio em adultos com deficiência em sua produção deixou claro que ele ajuda a restaurar as proporções adequadas dos músculos e de gordura, melhora a calcificação dos ossos e nitidamente favorece o bem-estar psicológico em muitos deles.
Em vista disso, crianças com deficiência de GH na infância e que, na maior parte dos casos, vão continuar apresentando essa deficiência, devem retomar o tratamento, quando atingirem a adolescência e a idade adulta.

Drauzio – A variedade de ações fisiológicas e a maior disponibilidade pela produção do DNA recombinante fizeram com que o GH encontrasse muitas aplicações na medicina, além de fazer a criança crescer. Quais são as mais importantes?

Marcello Bronstein – Existe uma gama variada de boas indicações para o hormônio do crescimento. Atualmente, não no Brasil, mas em outros países, seu uso já foi aprovado para crianças com baixa estatura constitucional, ou seja, para crianças que não têm propriamente deficiência na produção do hormônio, mas que têm previsão de estatura final muito baixa, porque a ação do GH não é eficiente.
Sua indicação também pode ser útil na síndrome de Turner, uma doença cromossômica que leva não à deficiência do hormônio, mas à falta de crescimento; nos casos de insuficiência renal e em queimados com destruição importante de tecidos, porque o hormônio do crescimento é anabolizante. Ele pode beneficiar, também, portadores de HIV com AIDS já instalada e crianças com baixo peso ao nascer, ou seja, crianças pequenas para a idade gestacional.

ENVELHECIMENTO

Drauzio – Há alguns anos a imprensa leiga falou muito da aplicação do hormônio do crescimento na geriatria para retardar o envelhecimento. Existe fundamento científico para essa afirmação?

Marcello Bronstein – Sabe-se que a produção do hormônio do crescimento e do IGF-1 é reduzida com a idade. Em homens com mais de 60 anos, ela chega a ser quase nula.
Em 1990, foi publicado um trabalho no New England Journal of Medicine, conceituada revista médica, sobre um estudo realizado durante seis meses com homens normais acima de 60 anos, sem qualquer deficiência na produção de GH nem problema algum na hipófise. Esse estudo pioneiro revelou que houve aumento da massa muscular, diminuição da massa gordurosa e, em alguns casos, fortalecimento dos ossos. Infelizmente, capas de revistas conceituadas, como Life e Times, veicularam a ifeia de que o GH funcionava como a fonte da juventude tão procurada por Ponce de Leon. A partir daí, disseminou-se o uso seja do hormônio do crescimento, seja dos engodos que são vendidos nos balcões das farmácias americanas livremente. Na Internet, então, pode-se encontrar uma teia de produtos que dizem ter efeito similar ao do hormônio do crescimento.
Ora, tanto o uso abusivo do verdadeiro quanto dos falsos hormônios do crescimento são contra-indicados no envelhecimento, porque se sabe que as doses utilizadas para alcançar algum efeito podem provocar efeitos colaterais adversos, entre eles a acromegalia.

Drauzio Mesmo em pessoas de mais idade?

Marcello Bronstein – Mesmo nas pessoas de mais idade, se a dose for generosa e doses pequenas podem não produzir resultado algum. Por outro lado, está claro e bem estabelecido que, embora possa aumentar a massa muscular, o GH não aumenta a força muscular mais do que aumentaria um bom exercício físico. Por isso, não é racional prescrever hormônio do crescimento para o idoso. Se ele tiver condições de locomover-se e exercitar-se ganhará muito mais fazendo exercícios e tendo boa alimentação.
Existe, porém, um subgrupo de idosos depauperados, catabólicos, que sofreram cirurgias grandes ou estão em cadeiras de rodas, que podem beneficiar-se do uso bem orientado e controlado do hormônio do crescimento.

USO NAS ACADEMIAS

Drauzio – O aumento da massa muscular produzido pelo hormônio do crescimento tem levado ao uso abusivo nas academias por gente interessada em ficar musculosa.

 Marcello Bronstein – Esse abuso não tem nenhuma razão de ser. Se para idosos em determinadas condições indica-se a reposição do hormônio do crescimento, para os atletas essa indicação não existe, a não ser nos casos raros de hipopituitarismo em que existe deficiência de GH.
Aliás, se um atleta ou uma pessoa jovem, normal, receberem uma quantidade fisiológica de hormônio de crescimento, a hipófise vai parar de produzi-lo, uma vez que ela funciona como um reostato de geladeira. Esfriou demais, o motor desliga e só volta a ligar quando a temperatura subir novamente. Assim, ao receber uma injeção de GH, o organismo dessas pessoas não reconhece se a substância foi produzida por ele mesmo ou se veio de fora e avisa a hipófise para suspender a produção.

Como se vê, não há vantagem alguma em tomar o hormônio. Há as desvantagens trazidas pelo custo da injeção e pelos efeitos indesejáveis.

Drauzio  Quando a pessoa para de tomar o hormônio, a hipófise volta a produzi-lo normalmente? 

Marcello Bronstein – Sempre. Não há razão para imaginar-se que não faça.

Drauzio – O problema maior é que esses jovens não se contentam com doses fisiológicas do hormônio.

Marcello Bronstein – Eles tomam doses suprafisiológicas, ou seja, muito acima da necessidade do organismo e desenvolvem acromegalia. Recentemente, atendi uma jovem bastante bonita que estava começando a apresentar traços faciais mais rudes, mãos e pés inchados depois de ter tomado hormônio do crescimento por indicação do seu personal trainer. A dosagem do IGF-1 revelou que havia excesso de GH em seu organismo. Ora, nível excessivo desse hormônio não só desfigura a fisionomia e aumenta as extremidades, mas leva com frequência ao diabetes, à hipertensão arterial. Também não está descartada sua participação em alguns tipos de câncer, por exemplo, no câncer de cólon. Se pensarmos no idoso, que está mais propenso ao câncer, o IGF-1, que é fator de proliferação de células, pode agravar esse processo.

Drauzio – Não se pode descartar que o excesso de hormônio de crescimento pode provocar a instalação de doenças crônicas, das quais as pessoas não se livrarão facilmente?

Marcello Bronstein – Pode provocar. Se parar de usá-lo, a pessoa pode melhorar, mas uma vez estabelecido o problema, as consequências serão sempre nefastas. Por isso, chamo a atenção para o fato absolutamente ilógico e irracional que está acontecendo nas academias e que precisa ser coibido com o máximo de energia.

Drauzio – Como os jovens ou seus personnal trainers conseguem o hormônio?

Marcello Bronstein – Essa é uma pergunta que não sei responder. O GH deveria ser vendido mediante a apresentação de receita médica, mas não sei se elas são exigidas em algum momento. Por isso, volto a alertar os jovens sobre o perigo que o hormônio do crescimento pode representar. Embora já tenha sido usado em competições internacionais (existe até um antidoping específico para ele) com o argumento de que pode aumentar a massa muscular a curto prazo, não está demonstrado que esse efeito se traduza em aumento da força muscular.

Drauzio – O problema é que a maioria dos meninos e meninas que toma esse hormônio não está interessada na força muscular e ,sim, na aparência física.

Marcello Bronstein – É verdade, mas eles precisam entender que da fase em que estarão bem moldados, bem sarados, podem evoluir para uma fase de deformação definitiva.

Drauzio – O aumento exagerado das extremidades regride quando o jovem para de tomar o hormônio?

Marcello Bronstein – Parcialmente. As partes moles tendem a voltar ao normal, mas como existe aumento também das cartilagens e dos ossos, muitas vezes, o usuário não volta à situação anterior de forma completa. Quando tratamos um acromegálico, seja por cirurgia, seja com medicamentos, há uma certa regressão do quadro. O sapato diminui de tamanho, o anel volta a entrar no dedo, embora fique um pouco apertado, porque a reversão do problema nunca é total.