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Azia: sintoma de mal crônico

Drauzio Varella

Cerca de 10% dos adultos sofrem de azia quase todos os dias, e de 35% a 40% apresentam ocasionalmente esse sintoma. A azia é o sintoma mais característico de refluxo do suco gástrico para o esôfago (refluxo gastro-esofágico). A sensação de azia ou queimação costuma surgir nas duas primeiras horas depois da refeição, especialmente quando a pessoa se deita, e melhora com antiácidos.

Os sintomas incluem os casos clássicos de queimação no trajeto do esôfago e gosto ácido na boca, até crises de asma noturna, tosse e dores no peito que simulam ataques cardíacos. Além desses, podem surgir outros consequentes a complicações do refluxo: ulcerações no esôfago, diminuição do diâmetro esofágico causada por cicatrização de úlceras e o chamado esôfago de Barrett, caracterizado por alterações específicas da mucosa do órgão e aumento da probabilidade de câncer.

O diagnóstico de refluxo geralmente é estabelecido através da endoscopia, seguida ou não de biópsia da mucosa do esôfago para documentar sinais de inflamação. Cerca de 50% das pessoas com queixa de azia, no entanto, não apresentam alterações inflamatórias sugestivas de esofagite.

Por isso, o teste de monitorização do pH esofágico durante 24 horas é considerado o exame definitivo para o diagnóstico de refluxo. Se o aparelho acusa uma queda no pH no instante em que surgem sintomas, o refluxo está caracterizado mesmo que a endoscopia esteja normal.

A tendência moderna é considerar o refluxo como doença crônica. Seus sintomas podem desaparecer com o tratamento, mas retornam rapidamente com sua interrupção.

Mudanças do estilo de vida podem aliviar significativamente os sintomas. Elevar a cabeceira da cama a uma altura de 15 a 20 centímetros (muitos usam listas telefônicas como calços), pode dificultar a subida de suco gástrico pelo esôfago. Da mesma forma, dormir deitado sobre o lado esquerdo costuma reduzir o refluxo (enquanto deitar sobre o lado direito, de bruços ou de costas aumenta).

Como o refluxo surge quase sempre depois das refeições, é importante não comer exageradamente nem tomar muito líquido para evitar distensão do estômago. Dietas gordurosas não são recomendadas, porque a gordura retarda o esvaziamento gástrico.

Quem sofre de refluxo só deve deitar-se três horas depois de uma refeição. É importante, também, não ingerir bebidas alcoólicas antes de ir para a cama e não fumar, porque a nicotina estimula o refluxo.

Medicamentos como os chamados antagonistas do receptor-H2 (cimetidina, ranitidina e outros) reduzem a produção de ácido no estômago e podem ser muito úteis. Por razões desconhecidas algumas pessoas respondem melhor a um desses agentes do que a outros, mas a regra geral é de que, quando não ocorre resposta a um deles, dificilmente haverá a outro medicamento dessa classe.

Supressão mais eficaz da produção de ácido pode ser conseguida com os chamados inibidores de bomba de prótons (omeprazol, lansoprazol, esomeprazol e outros), o que explica a preferência dos médicos por essas drogas.

Uma vez que o controle da produção de ácido tenha sido obtido, o tratamento deverá ser mantido indefinidamente. Os inibidores de bomba parecem ser drogas que podem ser mantidas por muito tempo sem efeitos indesejáveis. A experiência européia de vinte anos com o uso continuado desses medicamentos reforça a confiança neles.

Medicamentos que promovem a motilidade e ajudam o esvaziamento gástrico podem ser úteis, também. A descrição de arritmias cardíacas associadas a um deles (cisaprida), entretanto, reduziu muito o emprego desses agentes.

Em certos casos, uma cirurgia pode evitar o inconveniente de tomar medicação pelo resto da vida: a fundoplicação, procedimento feito por laparoscopia, através do qual uma área do estômago é usada para “encapar” a parte terminal do esôfago. Embora alguns cirurgiões experientes relatem um índice de sucesso de até 90%, a experiência com esse tipo de operação ainda é limitada porque o procedimento passou a ser utilizado em larga escala apenas nos últimos cinco anos.

Vale lembrar que muitas pessoas com refluxo não apresentam sintomas típicos. Elas se queixam de tosse (principalmente noturna), irritação na garganta e crises de asma disparadas por espasmos dos brônquios provocados pela microaspiração de suco gástrico.