Entrevista

Alergia de contato

Salim Augusto Amed Ali, médico especializado em dermatologia ocupacional, é membro do Fundacentro/SP e da Associação Nacional de Medicina do Trabalho.

A pele é um órgão constituído por três camadas: a epiderme (camada externa onde se encontra a córnea composta por células mortas com a função de proteger contra a entrada de agentes agressivos), a derme (camada intermediária onde se localizam os vasos sanguíneos, as glândulas sebáceas, as terminações nervosas e os folículos pilosos) e o tecido subcutâneo ou hipoderme (camada mais profunda formada por células de gordura responsáveis pelo suprimento de eventuais necessidades calóricas).
Além de ser sensível aos estímulos sensoriais, de regular a temperatura corporal e de sintetizar vitaminas, a pele funciona como barreira contra a agressão de agentes externos e de microrganismos e preserva o organismo da desidratação, pois as glândulas sebáceas secretam uma substância que dificulta a evaporação da água do corpo.
A pele pode, porém, desenvolver reações de fundo imunológico, quando exposta a certas substâncias. Todos conhecemos pessoas alérgicas ao contato com agentes irritantes como giz, detergentes e outros produtos de limpeza, metais usados em bijuterias, cosméticos, tecidos sintéticos, que passam momentos difíceis quando entram em contato com esses agentes.

CARACTERÍSTICAS

Drauzio – As alergias de contato aparecem por quê? Por que algumas pessoas manifestam esse tipo de problema e outras não?

Salim Augusto Amed Ali – Algumas pessoas possuem hipersensibilidade ao contato com determinadas substâncias e desenvolvem uma reação alérgica de caráter imunológico, quando mexem com esses agentes que, em geral, causam pouca irritação nos outros.
Por isso, é importante estabelecer o que se entende por irritação e por alergia. Veja o seguinte exemplo: mexer com ácido irrita as mãos, mas isso não pode ser chamado de alergia. A alergia envolve uma sensibilidade específica, pessoal, e caracteriza-se por reação exagerada quando o indivíduo lida com substâncias como sabão, loções, perfumes, etc. Nesses casos, o uso de tal produto precisa ser evitado ou suspenso.

Drauzio – A irritação se limita ao local de contato com o agente desencadeante e a alergia extrapola a área exposta a esse contato. Ou seja, determinado produto pode irritar a pele da minha mão apenas no local onde caiu. Nos processos alérgicos, porém, essa reação se espalharia pela minha mão inteira. Não se restringiria ao dedo, por exemplo, que tocou no agente alergênico.

Salim Augusto Amed Ali – Às vezes, a pessoa tem uma reação de hipersensibilidade no local em que a substância entrou em contato com a pele. Se for susceptível, onde passou determinada loção, por exemplo, a área vai ficar avermelhada, coçar e começará a drenar água. Esse tipo de lesão é chamada de eczema de contato.

Drauzio – Quando o problema aparece numa região em que só um produto é utilizado é fácil identificar o agente desencadeante. Por exemplo, uma alergia de contato na axila, sugere que a causa seja o desodorante. No entanto, quando o processo alérgico ocorre nas mãos, fica mais complicado, porque manipulamos inúmeras substâncias diferentes todos os dias. Nesse caso, como se faz para identificar a substância responsável pela lesão?

Salim Augusto Amed Ali – Talvez o ponto mais difícil da alergia de contato seja identificar o que provocou a alergia nas mãos, a mais frequente de todas, porque elas são os instrumentos que utilizamos para tocar e mexer numa série de coisas. Vamos pensar num trabalhador da indústria ou numa dona de casa. Eles mexem com produtos que inicialmente irritam suas mãos. Depois, podem desenvolver um processo alérgico em cima dessa irritação que, às vezes, funciona como porta de entrada para a substância alergênica penetrar na pele e desencadear uma reação imunológica do organismo.

Drauzio – A pele é uma barreira natural do organismo. Tocamos o tempo todo em substâncias diferentes, que ultrapassam essa barreira. Nas alergias, é preciso que tais substâncias penetrem na pele?

Salim Augusto Amed Ali – É preciso. Às vezes, a pessoa mexe com diversos produtos entre os quais existem alguns que podem irritar suas mãos. Essa irritação faz romper a barreira de proteção externa da pele, que é chamada córnea, e a substância alergênica contida no detergente, no sabão em pó, na loção ou mesmo no creme usado para amaciar as mãos, por exemplo, pode penetrar na pele e provocar uma alergia de contato, se a pessoa for suscetível ao agente desencadeante.

TESTES DE CONTATO

Drauzio  Quais são as características da lesão que aparece na imagem 1

Salim Augusto Amed Ali – Inicialmente, essa senhora desenvolveu uma irritação e depois uma alergia de contato. Para confirmar tal diagnóstico e determinar sua causa, existem os testes de contato, realizados com os produtos a que a pessoa se expôs mais e com uma bateria-padrão elaborada pelo Grupo de Estudo de Dermatite de Contato, ligado à Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Drauzio – Como são realizados esses testes?

Salim Augusto Amed Ali - Os testes consistem na aplicação de trinta substâncias em pequenas lâminas de alumínio que são fixadas nas costas da pessoa e onde permanecem por 48 horas. Depois, essas lâminas são retiradas e aguardamos mais 48 horas para fazer a primeira leitura, porque existem alergias do tipo tardio que demoram a manifestar-se. Se houver uma reação localizada como a que aparece na imagem 2, sabe-se qual foi a substância que causou a alergia porque todas as lâminas são numeradas.

Drauzio 
Você poderia explicar por que se forma essa lesão avermelhada e mais saliente? Se examinarmos um fragmento no microscópio, o que encontraremos? 

Salim Augusto Amed Ali – Vamos encontrar uma reação inflamatória. Digamos que células especializadas alcançam a pele para “comer”, isto é, para combater aquela substância estranha ao organismo (alérgeno). Esse processo é chamado de fagocitose.
Essa reação é muito precisa, muito específica, porque a concentração das substâncias utilizadas na bateria-padrão eu sei que não causam irritação na pele. Entretanto, quando a pessoa traz uma substância que suspeita estar provocando o problema, pode acontecer que a concentração do agente irritante seja maior e provoque vermelhidão. Por isso, é fundamental diferenciar a verdadeira alergia da irritação utilizando o teste padronizado.

COSMÉTICOS

Drauzio – Por que é importante identificar logo a substância alergênica?

Salim Augusto Amed Ali – Porque quanto mais rápido ela for retirada, maior a possibilidade de manter a pessoa bem, com a pele restabelecida. No caso de profissionais que trabalham numa área em que o contato com o alergênico é indispensável, somos obrigados a afastá-lo daquela atividade.

Drauzio – Além das mãos, que são o local onde aparecem com mais frequência as alergias, que outras regiões do corpo também podem ser acometidas?

Salim Augusto Amed Ali – A face é outra área bastante acometida. Atualmente, é muito comum encontrar casos de alergia e de irritações provocadas pelo uso de cosméticos.

Drauzio – Esses casos são frequentes?

Salim Augusto Amed Ali – São frequentes e o número vem crescendo. Trabalhos realizados em várias clínicas europeias, entre 1995 e 2000, mostram que diversos agentes novos colocados para preservar o produto, a fim de impedir que estrague e perca o prazo de validade muito depressa, são os principais agentes causadores de alergia. Por exemplo, ficou provado que um desses preservativos, o euxil K 400, presente em vários tipos de loções, cremes e pós, por exemplo, foi responsável pelo aumento de 50% dos casos de alergias em cinco anos.
Essas pesquisas são importantes para orientar as indústrias de cosméticos para substituir tais agentes por outros menos alergênicos.

Drauzio  Na sua experiência pessoal, quais são os cosméticos que costumam provocar mais alergias? 

Salim Augusto Amed Ali – Segundo estudo realizado pelo nosso Grupo de Estudo de Dermatite de Contato, com base numa bateria para testar cosméticos, o esmalte de unha é o produto que mais provoca alergia, porque possui uma resina muito alergênica para promover sua secagem rápida. A essa conclusão chegaram também pesquisadores de outros países.
E o esmalte não provoca alergia só nas mãos. Às vezes, quando não está completamente seco, a pessoa toca a face e desenvolve dermatite alérgica provocada por essa resina, especialmente na região dos olhos e das bochechas ou mesmo no queixo ou no pescoço. Nesses casos, a recomendação é usar um esmalte hipoalergênico. Existem algumas marcas no mercado que contêm pouca resina.

Drauzio – É difícil imaginar que uma pessoa desenvolveu alergia no olho por causa do esmalte passado nas unhas da mão. O mais comum é pensar que o processo alérgico foi desencadeado pela sombra ou pelo rímel.

 Salim Augusto Amed Ali – Por estranho que pareça, isso acontece. Um caso interessante ocorreu numa indústria da Suécia, onde dezoito funcionárias desenvolveram quadros prolongados de alergia na face atribuídos, primeiro, às substâncias que manipulavam no trabalho. Mais tarde, porém, ficou provado que a alergia era provocada pelo esmalte com que pintavam as unhas.
Na verdade, não é fácil chegar a uma conclusão como essa. Só através de testes é possível detectar o agente agressor com segurança.

Drauzio – Como a pessoa pode saber se determinado cosmético vai provocar alergia?

Salim Augusto Amed Ali - Uma dica importante para quem já apresentou alergia por cosméticos é a pessoa fazer um teste, chamado teste aberto, antes de usar um produto. Para tanto, basta friccionar o cosmético na região do cavo, ou seja, na região em que o braço e o antebraço flexionam (imagem 7), durante cinco dias, duas vezes ao dia. Se nesses cinco dias a área não ficou avermelhada nem coçou, a pessoa pode usar o produto, mas sempre observando a reação, porque não há garantia de que ele não possa desencadear um processo alérgico a qualquer momento.

CALÇADOS, CIMENTO E METAIS

Drauzio  Depois das mãos e do rosto, que outras regiões do corpo são mais acometidas por alergias?

Salim Augusto Amed Ali – Os pés também costumam ser bastante afetados por alergias, principalmente provocada pelo uso impróprio e inadequado de calçados e meias.

Drauzio – Você poderia explicar a alergia que aparece na imagem 4?

Salim Augusto Amed Ali – Veja que há uma área toda avermelhada. Como uma das características da alergia é o prurido intenso, se a pessoa coçar pode ferir o local que começa a inchar. Nesses casos, o médico costuma pedir para ver o calçado que a pessoa habitualmente usa. Na maior parte das vezes, eles são revestidos na parte interna por espumas coladas com resinas especiais que são muito alergênicas. Testar a espuma é uma forma de verificar se ela é o agente desencadeante. Para tanto, basta umedecer um pedaço pequeno com um pouquinho de azeite de oliva ou com água destilada e colocá-lo na pele da pessoa, onde deve ficar por 48 horas. Feita a leitura do teste, se o resultado for positivo, a orientação é evitar o uso daquele tipo de calçado.

Drauzio  Cimento é outro produto que pode provocar alergias.

Salim Augusto Amed Ali – Massa de cimento pode irritar a pele e também provocar alergias porque tem pH (medida da acidez ou da alcalinidade) muito alto. Como, às vezes, substâncias alcalinas irritam muito a pele, os profissionais da construção civil com hipersensibilidade ao cimento chegam a ser orientados para mudar de profissão.

Drauzio – E as alergias por metais? 

Salim Augusto Amed Ali – São das mais comuns no mundo inteiro.  Brincos, colares, anéis e pulseiras costumam conter níquel, um dos maiores alérgenos que conhecemos atualmente. Quando o níquel entra em contato com a pele, pode desencadear um processo alérgico no local.
Às vezes, pessoas que usam óculos estranham: “Mas, estou usando estes óculos há mais de seis meses e nunca senti nada. Como de repente isso mudou?” Acontece que o aro dos óculos tinha um revestimento de ouro que se desgastou com o tempo e o metal que estava por baixo entra em contato com a pele e provoca a alergia.

Drauzio – Quais as características da lesão que aparece na imagem 5?

Salim Augusto Amed Ali – A imagem 5 mostra o dedo de um trabalhador da indústria metalúrgica que desenvolveu um processo irritativo provocado pela ação alcalina dos óleos utilizados na usinagem de metais. O fato de pinçar as peças e segurá-las foi outro agravante dessa irritação (imagem 6).

Drauzio – Quando se identifica o alérgeno, ou seja, a substância que provoca alergia, é simples resolver o problema: é só não entrar em contato com aquela substância. No entanto, em grande parte das alergias, não se consegue identificá-lo ou é inevitável evitar o contato. Por exemplo, como suspender o contato com tecidos sintéticos, se praticamente todas as roupas têm alguma fibra sintética?

Salim Augusto Amed Ali – Nós costumamos dizer que quem desenvolve uma alergia de contato pode desenvolver outras. Às vezes, o indivíduo não está alérgico a uma única substância e é preciso descobrir quais são os outros alérgenos para retirá-los. Por exemplo, eu investigo, encontro a substância que causa alergia e mando suspender seu uso. Entretanto, a pessoa pode estar usando um creme ou pomada, indicados até mesmo para tratamento, que contêm uma outra substância responsável pela manutenção do processo alérgico. Esses casos requerem cuidados especiais, pois, como já disse, quem já desenvolveu uma alergia por determinada substância tem a possibilidade de desenvolver outras provocadas por substâncias diferentes.

TRATAMENTO

Drauzio – Como devem ser tratadas as alergias?

Salim Augusto Amed Ali – O tratamento das alergias começa com o levantamento da história do paciente. Quanto mais bem feito for, maior a chance de cura. É preciso colher, com muita precisão, informações sobre os produtos que vem usando, os que comprou ou recebeu de presente da mulher ou de um amigo.
O segundo passo é pedir o teste (na verdade, o teste faz parte do tratamento), e o terceiro e menos importante é a prescrição do medicamento para controle da fase aguda, uma vez que só a retirada dos alérgenos promoverá a cura.

Drauzio – Quando apenas cremes de uso tópico devem ser indicados para o tratamento de alergias e quando há necessidade de indicar remédios por via oral?

Salim Augusto Amed Ali – Quando a reação alérgica pega uma área grande do corpo e provoca muita coceira, introduzimos remédios por via oral ou injetável e também pomadas ou cremes de corticoides para uso local. O importante, porém, é investigar o que produziu a alergia e tentar retirar essa substância de uso.

Drauzio – A pomada de corticoide está sempre indicada para inibir reações locais?

Salim Augusto Amed Ali – De modo geral, sim. Quando se suspeita que a reação é alérgica, deve-se indicar uma pomada de corticoide específica, a mais apropriada para aquele caso.

Drauzio – Existem pessoas com quadros de alergia de contato que usam pomadas de corticoide todos os dias, por períodos muito prolongados. Quais são os inconvenientes desse hábito?

Salim Augusto Amed Ali – Na verdade, a necessidade do uso prolongado de pomadas de corticoide indica que o problema não está sendo resolvido, porque deveria desaparecer em duas ou três semanas, no máximo. Portanto, a pessoa deve procurar sempre um especialista para diagnóstico e orientação do tratamento.

Drauzio – É possível até desenvolver uma alergia de contato provocada pela própria pomada?

Salim Augusto Amed Ali – Ou provocada por algum componente da pomada. Por isso, é sempre muito importante procurar um especialista para avaliação, porque a pessoa pode ser portadora de alergia de contato ou de outra doença dermatológica com origem diferente e essa possibilidade precisa ser investigada.