Dia de Controle do Colesterol

Níveis de colesterol devem ser avaliados a partir dos 30 anos

Dr. Protásio Lemos da Luz é médico cardiologista. Professor e pesquisador, trabalha no Incor, Instituto do Coração de São Paulo.

Nem todos sabem que o colesterol é uma substância necessária para o organismo. Sem ele, as células não formam a membrana que as envolve. No entanto, o desequilíbrio na produção desse tipo de gordura pode ter sérias implicações no organismo.

O intrigante é que existem dois tipos de colesterol: o HDL, ou bom colesterol, que protege contra ataques cardíacos e o LDL, ou mau colesterol, que facilita a formação de placas de ateroma nas veias e artérias e favorece o aparecimento de doenças cardiovasculares.

Nem sempre os níveis de colesterol são determinados pela dieta e estilo de vida. Colesterol alto não dá sintomas a não ser quando o estrago já está feito, o que torna seu controle uma medida indispensável para evitar riscos, uma vez que há relação entre colesterol elevado e acidentes cardiovasculares, no Brasil, a principal causa de morte em homens e mulheres.

COLESTEROL TOTAL

Drauzio – Em termos gerais, o que é colesterol?

Protásio Lemos da Luz – Colesterol é um constituinte normal do organismo, essencial para a função de todas as células. É importantíssimo, por exemplo, para os hormônios sexuais, entre eles, a testosterona. Sem colesterol, não viveríamos. Problemas aparecem quando há alteração no nível do colesterol plasmático especialmente se ele subir muito.

Nas últimas décadas, demonstrou-se a associação entre níveis elevados de colesterol no sangue e ocorrência de doenças cardiovasculares. Veja bem, estou dizendo cardiovasculares e não apenas cardíacas. Isso significa que acidentes cerebrais e a insuficiência vascular periférica também fazem parte desse conjunto de enfermidades cujo denominador comum é a aterosclerose, doença ligada à elevação do colesterol que provoca entupimentos nas artérias e veias, ou seja, gera redução de luz e obstrução no interior das artérias e, consequentemente, diminuição do fluxo sanguíneo.

A aterosclerose é causa, por exemplo, de ataques cardíacos como infarto do miocárdio e angina (o principal sintoma é dor intensa no peito), de intervenções como pontes de safena e angioplastias e é causa também de acidentes vasculares cerebrais. Portanto, estamos falando de uma patologia, a aterosclerose, que tem como um dos fatores desencadeantes o colesterol aumentado.

FRAÇÕES DO COLESTEROL

Drauzio – Na segunda metade do século XX, verificou-se que pessoas com colesterol elevado tinham maior probabilidade de desenvolver problemas cardiovasculares. Depois, ficou provado pelo fracionamento dessa substância que existe o bom colesterol com efeito protetor e o mau colesterol que é nocivo ao organismo. O que são realmente essas frações?

Protásio Lemos da Luz – Quando se mede o colesterol do plasma, obtém-se o valor do colesterol total. Nele estão incluídas a fração HDL (High Density Lipoprotein), ou bom colesterol, e a fração LDL (Low Density Lipoprotein), o mau colesterol. Vários estudos demonstram que, nas pessoas com HDL aumentado ou nas faixas superiores do que é considerado normal, a ocorrência de doenças cardiovasculares é menor. Curiosamente, são as mulheres, especialmente antes da menopausa, que apresentam níveis elevados de colesterol bom. Esse é, provavelmente, um dos mecanismos que explica por que no período fértil elas ficam relativamente protegidas contra os ataques cardíacos. Depois disso, a incidência desses eventos é igual nos dois sexos.

Não se discute mais que o nível elevado do bom colesterol é um fator de proteção. O tempo demonstrou que se ele estiver abaixo de determinados valores constitui fator de risco importante. No momento, no laboratório do Incor, estamos pesquisando especificamente as alterações associadas aos níveis baixos do HDL.

Drauzio – O que se considera nível baixo do HDL?

Protásio Lemos da Luz – Abaixo de 40 para os homens e de 45 para as mulheres. Com frequência, encontramos indivíduos com níveis de HDL inferiores a 25 e doença cardiovascular precoce instalada. Esse dado importante tem implicação prática, pois para avaliar adequadamente o risco é necessário conhecer os valores das frações do colesterol.

Drauzio – E o mau colesterol, como funciona?

Protásio Lemos da Luz – A longo prazo, o LDL, ou mau colesterol, estabelece relação clara com a ocorrência de doença cardiovascular. O estudo de Fremingham, nos Estados Unidos, que analisou ao longo de muitos anos mais de cinco mil pessoas, começando o acompanhamento quando elas eram ainda adolescentes ou estavam iniciando a fase adulta, demonstra a indiscutível relação entre doença cardiovascular e níveis aumentados do colesterol.

Diante de tal evidência, tentou-se avaliar o que aconteceria se esses casos fossem tratados a longo prazo, quer dizer, o que aconteceria se conseguíssemos baixar suficientemente o nível de LDL nas pessoas que sofreram infarto, têm doença coronariana documentada por coronariografia ou se submeteram a cirurgia das coronárias. A conclusão a que mais de 20 estudos chegaram foi uniforme e constitui a chamada prevenção secundária. A diminuição dos níveis de LDL, de fato, reduz a ocorrência de eventos cardiovasculares, ou seja, reduz a incidência de infartos fatais e não fatais, a necessidade de cirurgia e de angioplastia e a mortalidade. E mais: reduz também os índices de mortalidade por outras causas. Essa informação indica que a pessoa com LDL aumentado, especialmente se já manifestou algum problema cardíaco, precisa ser tratada.

Na segunda etapa da investigação, procurou-se analisar o que aconteceria com uma parcela significativa da população que não tem doença cardíaca manifesta, mas apresenta nível de LDL aumentado. A resposta foi a mesma. Baixando o nível de LDL suficientemente, haverá redução dos eventos cardiovasculares e da mortalidade global dentro de quatro ou cinco anos. Curioso é que essa conclusão se aplica a homens e mulheres, jovens e adultos, fumantes e não-fumantes, hipertensos e não hipertensos.

Essas duas informações nos obrigam a difundir a idéia de que a pessoa precisa medir os níveis de colesterol, pois se estiverem fora das faixas adequadas, corrigir essa anormalidade leva a uma redução substancial de eventos patológicos.

IDADE IDEAL PARA MEDIR O COLESTEROL

Drauzio – No passado, recomendava-se medir os níveis de colesterol a partir dos 40 anos de idade. Esse conceito ainda permanece?

Protásio Lemos da Luz – Isso mudou porque hoje estamos lidando com os chamados grupos de risco. Por exemplo, um adolescente ou mesmo uma criança que pertença a um grupo de risco porque a mãe, o pai ou ambos apresentaram alguma doença cardíaca, precisa ser analisada muito mais cedo, aos 15, 20 anos. Sabemos hoje que a dislipidemia (alterações dos níveis das gorduras no sangue) pode manifestar-se precocemente até em crianças com alterações genéticas específicas.

Mesmo que a pessoa não apresente nenhum fator de risco, os níveis de colesterol devem ser avaliados a partir dos 30, 35 anos de qualquer maneira, porque o tratamento a longo prazo é importante e a prevenção pode ser feita por mudanças no estilo de vida, controle da dieta, exercícios físicos e uso de medicamentos.

A alteração do colesterol no plasma, isoladamente, não causa sintomas. Não há um mecanismo de alerta para indicar que o nível está aumentado. Portanto, a conduta mais sensata é fazer exames regulares.

IMPACTO DO EXERCÍCIO FÍSICO E DA DIETA

Drauzio – Você mencionou dieta e exercício físico. Qual é o impacto da atividade física e da dieta nos níveis de colesterol?

Protásio Lemos da Luz — Grande parte do colesterol plasmático é produzido pelo fígado e depende do tipo de metabolismo da pessoa. O impacto da atividade física nos níveis de colesterol é pequeno. No entanto, o exercício ajuda em vários aspectos. Ajuda a circulação de modo geral e ajuda a gastar energia. Em muitos casos, a programação que o médico estabelece para auxiliar na redução dos níveis de colesterol, inclui a queima de calorias por meio da prática de exercícios.

O impacto da dieta sobre os níveis de colesterol também não é muito grande. É da ordem de 15% a 20%. Portanto, num indivíduo com elevação moderada de colesterol, o efeito da dieta é relativamente pequeno. Aqueles, porém, com 280 ou 300, mesmo obedecendo a uma dieta rigorosa e baixando 15% a 20% desses níveis, vão continuar com hipercolesterolemia. Por isso, associar a dieta aos medicamentos que controlam o colesterol é muito importante. Não é raro receber no consultório pessoas que tomam remédio, mas não fazem dieta, o que não está certo. As duas medidas são necessárias porque nesse tipo de alteração estamos lidando com hábitos adquiridos há muito tempo e é fundamental uma mudança no estilo de vida que inclua a dieta.

GORDURAS SATURADAS

Drauzio – Quais são os tipos de gordura mais perniciosos para os níveis de colesterol?

Protásio Lemos da Luz – Costumo resumir a questão para os leigos numa única frase: cuidado com as gorduras de origem animal. Quais são elas? A gordura da carne, aquela que vêm na picanha e na costela, e a gordura dos laticínios presente na manteiga, nos queijos e no leite. Reduzir a ingestão desses alimentos pode significar 90% menos gordura saturada no organismo.

Drauzio – Você não proíbe completamente a ingestão desses alimentos?

Protásio Lemos da Luz – Não necessariamente. É preciso considerar os níveis de colesterol total e de LDL. Há pessoas que, embora comendo gordura saturada, não têm elevação do colesterol plasmático. Essas não necessitam de restrições na dieta. Entretanto, na maioria das vezes, há uma relação direta entre a quantidade de gordura saturada que a pessoa ingere e a elevação do colesterol, a ocorrência de doenças cardiovasculares e o índice de mortalidade.

DIETA MEDITERRÂNEA E DIETA CONVENCIONAL

Drauzio – Gostaria que você discutisse três componentes da dieta: óleo de oliva, grãos e fibras de modo geral e álcool.

Protásio Lemos da Luz – O óleo de oliva contém principalmente ácido oléico, um ácido monoinsaturado. Esse é um tipo de ácido graxo benéfico, também encontrado no óleo de canola e no abacate, por exemplo.

Quanto ao uso de álcool, está provado que a longo prazo a tendência é aumentar o HDL. No entanto, tentar esse método é perigoso por causa dos efeitos que o uso inapropriado da bebida produz.

Recentemente, um estudo realizado no Incor que serviu de base para a tese da pós-graduanda Dra. Silmara Coimbra, comparando a ingestão de vinho tinto e suco de uva na reatividade vascular da artéria braquial de pessoas cuja única alteração era o colesterol aumentado, demonstrou que ambos apresentam bons resultados. Ou seja, é possível obter efeitos benéficos no sistema circulatório tomando suco de uva que não contém álcool. Entretanto, a ingestão de uma quantidade moderada de álcool pode ser benéfica para pessoas acostumadas a tomar vinho e que não apresentem contra-indicações como diabetes, arritmia, miocardiopatia ou insuficiência cardíaca.

No que se refere ao consumo de grãos, a vantagem é incorporar o número necessário de calorias por uma via que não envolve a ingestão de gordura saturada. Nesse aspecto, a dieta mediterrânea é benéfica, pois é composta basicamente por grãos, frutas e vegetais.

Drauzio – Na Finlândia, onde se consome muita gordura saturada e poucos vegetais, a incidência de doenças cardiovasculares é altíssima. Qual é a relação entre o consumo de vegetais e menor frequência de ataques cardíacos?

Protásio Lemos da Luz – De fato, nos estudos que mostram a relação entre consumo de gordura saturada e ocorrência de doenças cardiovasculares, a Finlândia ocupa posição de destaque. Essa constatação serve de fundamento para concluir que quanto mais gordura a pessoa come, mais sujeita está a essas enfermidades.

Por outro lado, um trabalho feito na Holanda estabeleceu a relação entre o consumo de flavonóides existentes nos vegetais de modo geral e nas frutas (maçã, casca de uva, chá, cebola, tomate, etc.) e a menor incidência dessas doenças. Na mesma linha, pode ser citado, ainda, o estudo francês que analisou a ocorrência desses eventos comparando pessoas tratadas com dieta mediterrânea ou com dieta convencional. O efeito da dieta mediterrânea foi tão extraordinário na redução inclusive de infarto e morte, que o estudo foi interrompido.

COLESTEROL ELEVADO EM CRIANÇAS, MULHERES E IDOSOS

Drauzio – Você poderia abordar sumariamente o problema do colesterol nas crianças, adolescentes, mulheres e pessoas de idade?

Protásio Lemos da Luz – Vamos começar pelas crianças e adolescentes. Se pertencem a famílias que já apresentaram alguma doença cardiovascular ou com alterações genéticas de hipercolesterolemia, o que é raro,  devem ser analisados muito precocemente. É preciso medir os níveis de lípides e de colesterol. Ultra-som da artéria carótida é uma indicação simples e não invasiva para verificar se há ou não uma doença já instalada. Fora desses grupos, em geral, adolescentes não vão apresentar problemas e passarão a ser analisados quando adultos.

Em relação às mulheres, existe um conceito fundamental que pouca gente conhece. A principal causa de morte no sexo feminino, maior do que os cânceres ginecológicos ou qualquer outra doença, é o acidente cardiovascular. Por isso, ela precisa dos mesmos cuidados que os homens especialmente depois da menopausa. Em certas circunstâncias, a evolução da doença na mulher é pior porque as alterações aparecem mais tarde, quando a probabilidade de serem diabéticas e/ou hipertensas é maior.

Nos idosos, a causa mais frequente de morte também é a cardiovascular, mas muitos chegam aos 70, 80 anos sem grandes alterações de lípides e sem doença cardiovascular. Para esses não há por que indicar condutas rigorosas, penalizando-os com restrições desnecessárias. No entanto, se o indivíduo tiver lípides francamente alterados, sobretudo se estiverem associados a outros fatores de risco como hipertensão, fumo e diabetes, ou se já tiver sofrido acidente cardíaco ou cerebral, precisa de tratamento. Nesses casos, não há regra geral. Cada pessoa deve ser analisada individualmente, sabendo que o colesterol aumentado é um componente importante da principal causa de morte nesse grupo etário.