Artigos

Hipertensão

Drauzio Varella

Os antigos pensavam que o órgão central da circulação seria o fígado, porque nas autópsias encontravam grande quantidade de sangue em seu interior. Imaginavam que as veias levariam o sangue do fígado para a periferia e que o ar da respiração seria conduzido pelas artérias (daí o nome) para refrigerar os órgãos internos.

Hoje sabemos que o coração é um músculo com quatro cavidades que funcionam como bomba hidráulica. Quando se dilatam ficam cheias de sangue; ao contraírem-se, pressionam o sangue venoso para os pulmões e o sangue já oxigenado através das artérias, com a finalidade de distribuir oxigênio e nutrientes para todos os tecidos.

A bomba cardíaca trabalha sem parar: em seu interior passam 5 a 6 litros de sangue por minuto.

O sistema circulatório é fechado: o sangue impulsionado pelo coração para percorrer as artérias voltará pelas veias. É como no encanamento de uma casa na qual a água da caixa fosse impulsionada por uma bomba e, depois de utilizada, passasse por um filtro e retornasse para ser bombeada de novo.

A pressão arterial é consequência da força que o sangue faz contra as paredes das artérias para conseguir circular pelo sistema.

Se o sangue saísse do coração sem pressão nenhuma, não teria condições de circular e morreríamos em poucos minutos por falta de oxigênio nos tecidos.

O organismo é muito sensível a aumentos de pressão. Se o sangue for bombeado constantemente sob pressão mais alta, vários órgãos entrarão em sofrimento. Em situações extremas, quando acontecem aumentos bruscos de pressão, pode haver colapso do sistema e morte súbita.

Quando o coração se contrai (sístole) para expulsar o sangue de seu interior, a pressão nas artérias atinge o valor máximo: é a pressão máxima ou sistólica. Quando sua musculatura relaxa (diástole) para permitir que o sangue volte para encher suas cavidades, a pressão cai para valores mínimos: é a pressão mínima ou diástólica.

Com o aparelho, procuramos medir esses dois níveis de pressão – máximo e mínimo – em centímetros ou milímetros de mercúrio. Assim, quando dizemos que uma pessoa apresenta pressão de 12 cm por 8 cm (o mesmo que 120 mm por 80 mm), queremos explicar que o coração, ao bater na sístole, impulsiona o sangue pelas artérias com pressão igual à exercida por 12 cm (ou 120 mm) de uma coluna de mercúrio; e, que, na diástole, ao relaxar a musculatura cardíaca, a pressão arterial cai para 8 cm (ou 80 mm).

A pressão arterial não é constante no decorrer do dia: em repouso ou dormindo, com os vasos relaxados, ela tende a cair; e a subir quando fazemos esforço físico, estamos agitados, nervosos ou submetidos a condições de estresse.

Por isso, é muito importante que a pressão seja medida com aparelho aferido regularmente, que o manguito seja inflado devagar e que seja adequado ao diâmetro do braço. Por exemplo, crianças precisam medir a pressão com manguitos menores e pacientes obesos, com manguitos mais largos para evitar erros de medida.

Além desses, é preciso tomar os seguintes cuidados ao medir a pressão, para evitar a chamada síndrome do avental branco, responsável pelo aumento dos níveis por causa da tensão que a presença do médico e o ambiente podem ocasionar:

* Você deve estar sentado e o aparelho ajustado em seu braço à altura do coração. Não falar, e descansar de 5 a 10 minutos em ambiente calmo, antes de efetuar a medida;

* Você não deve ter praticado exercício ou realizado esforço físico nos últimos 60 a 90 minutos;

* Você não deve ter ingerido bebidas alcoólicas, alimentos ou fumado nos últimos trinta minutos;

* Você não deve estar com a bexiga cheia nem com as pernas cruzadas.

Quando os valores obtidos estiverem elevados, a pressão deverá ser medida 1 a 2 minutos mais tarde. Se permanecerem elevados, o ideal é medi-la novamente em ambiente doméstico.

É preciso muita cautela antes de rotular uma pessoa como hipertensa.

Nos adultos com pelo 18 anos, a pressão arterial pode ser classificada de acordo com os critérios internacionais ordenados na tabela abaixo:

Classificação Pressão máxima (cm) Pressão mínima (cm)
Ótima <12,0 e <8,0
Normal <13,0 e <8,5
Limítrofe 13,0 a 13,9 ou 8,5 a 8,9
Hipertensão
Estágio 1 (leve) 14,0 a 15,9 ou 9,0 a 9,9
Estágio 2 (moderada) 16,0 a 17,9 ou 10,0 a 10,9
Estágio 3 (grave) 18,0 ou mais ou 11,0 ou mais

De acordo com o Ministério da Saúde, em nosso país existem 43 milhões de hipertensos, assim distribuídos de acordo com a faixa etária:

* Cerca de 30% dos adultos;

* 50% da população acima de 50 anos;

* 60% da população acima de 60 anos.

A hipertensão é doença democrática que se instala em crianças, mulheres e homens de todas as etnias e condições sociais. Por razões genéticas, mulheres e homens negros correm mais risco de desenvolvê-la.

Aumentos de peso e de pressão arterial caminham de mãos dadas. As diminuições também: nos hipertensos, para cada 1 kg perdido a pressão cai em média 1,3 mm a 1,6 mm.

Existe relação nítida entre peso corpóreo e pressão alta. A obesidade provoca alterações no metabolismo que contribuem para fazer as terminações nervosas, que controlam a abertura e o fechamento dos vasos (vasodilatação e vasoconstricção), manterem os vasos mais contraídos. Para vencer a resistência aumentada à passagem do sangue, o coração é obrigado a fazer mais força, que se reflete no aumento da pressão arterial.

Assim, uma pessoa obesa que tenha pressão 15 por 10 – hipertensão estágio 1 -, ao perder 10 quilos, terá a pressão diminuída para aproximadamente 13,5 por 8,5, faixa considerada limítrofe. Se perder 20 quilos, sua pressão voltará ao normal.

A perda de peso constitui a medida não farmacológica mais eficaz no tratamento da hipertensão. Ela também aumenta a eficácia dos medicamentos anti-hipertensivos em indivíduos obesos ou não.

Hipertensão arterial é doença traiçoeira, só provoca sintomas em fases muito avançadas ou quando ocorre aumento abrupto e exagerado.

Muitas pessoas acreditam que o aumento da pressão provoque sintomas como tontura, dor de cabeça, palpitações ou pontos brilhantes que turvam a visão e, como nada sentem, passam anos sem medir a pressão. Não é verdade que esses sintomas tenham alguma coisa a ver com a pressão. A única forma de fazer o diagnóstico de hipertensão é medir a pressão arterial.

Quanto mais cedo for diagnosticada, melhor o resultado do tratamento. O ideal é que a pressão seja medida a partir do primeiro ano de vida, nas consultas pediátricas.

Nos adultos com pressão de até 12 por 8, basta medi-la uma vez por ano. Entre esse valor e 14 por 9, uma vez a cada 6 meses. Acima de 14 por 9, os controles devem ser muito mais freqüentes, porque nessa faixa a doença deve obrigatoriamente ser tratada.

Estruturas afetadas pela hipertensão

Imagine, que por um defeito qualquer, a água de sua casa seja bombeada pelo encanamento sob alta pressão. De início, talvez você fique satisfeito com o impacto da ducha ou com a força do esguicho no jardim. Mas, com o tempo, as torneiras precisarão de consertos, o filtro da cozinha ficará avariado, os canos apresentarão vazamentos e a mangueira do jardim estará em frangalhos. Exausta de tanto esforço, finalmente, a bomba hidráulica começará a falhar, o fluxo diminuirá e o sistema entrará em colapso.

Nada muito diferente do que ocorre com o organismo submetido ao aumento constante da pressão arterial, embora existam duas distinções fundamentais: a hipertensão só provoca sintomas nas fases finais e as estruturas lesadas por ela não são encontradas em lojas de ferragens.

A hipertensão dilata o coração e danifica o sistema arterial: das artérias de maior calibre, como a aorta, às de calibre médio e aos milhares de quilômetros de capilares que irrigam nossos tecidos.

Algumas pessoas têm sangramentos nasais, quando a pressão aumenta, mas esses casos são raros. A maioria dos hipertensos não sente rigorosamente nada. Por isso, a doença é chamada de assassino silencioso.

Sua pressão arterial pode ficar elevada durante décadas sem que você sequer desconfie. Na clínica, canso de encontrar mulheres e homens com 18 por 12 de pressão (ou mais), que simplesmente desconhecem a condição de hipertensos.

Sintomas como dor de cabeça, pressão na nuca, sudorese excessiva, câimbras, palpitações cardíacas, micções freqüentes, geralmente atribuídos à pressão alta, na esmagadora maioria dos casos nada têm a ver com aumento da pressão arterial.

Para quem sofre de pressão alta é absolutamente fundamental controlá-la por meio de mudanças no estilo de vida e do uso de medicamentos, quando estes se tornam indispensáveis. Quanto mais precocemente a doença for identificada, mais fácil tratá-la e mais baixo o risco de surgirem complicações.

A pressão exagerada do sangue nas câmaras cardíacas e no interior das artérias causa problemas para diversas estruturas do organismo:

1) Coração

O coração é constituído por fibras musculares encarregadas de bombear o sangue para percorrer o sistema arterial e a retornar pelo sistema venoso. Quando a resistência ao fluxo da corrente sanguínea aumenta, a musculatura cardíaca é obrigada a fazer mais força.

O excesso de trabalho muscular causa hipertrofia progressiva das paredes cardíacas, especialmente as do ventrículo esquerdo, encarregadas de impulsionar o sangue pela aorta. Com isso, a curvatura que a aorta faz ao deixar o coração é empurrada para cima e para trás.

A musculatura hipertrofiada reduz o espaço disponível para as cavidades cardíacas, que se tornam angustiadas e com dificuldade progressiva de expulsar o sangue de seu interior. Nas fases finais, a hipertrofia pode ser tão exagerada que o órgão é chamado de “coração de boi”.

Como consequência do funcionamento precário do coração, há retenção de líquido nos pulmões e nos membros inferiores, surgem falta de ar aos esforços e inchaço nas pernas: está instalada a insuficiência cardíaca.

Além de insuficiente para enfrentar adequadamente as solicitações dos esforços físicos, o aumento do coração pode levar a alterações do ritmo das batidas: são as palpitações ou arritmias, que provocam falta de ar e sensação de desconforto respiratório.

2) Artérias

Nossas artérias não têm a rigidez dos encanamentos hidráulicos; ao contrário, são estruturas elásticas dotadas de uma camada muscular que se contrai (vasoconstrição) ou relaxa (vasodilatação) de acordo com as necessidades, justamente a fim de manter constante o fluxo de sangue que chega aos órgãos, para evitar danificá-los.

Quando o aumento da pressão é mantido por muitos anos, as camadas musculares que contraem ou dilatam as pequenas e as grandes artérias perdem gradativamente a elasticidade e se tornam endurecidas: é a arteriosclerose (do grego sklerosis, endurecimento).

Por outro lado, a pressão elevada pode modificar as características da camada fina e delicada que reveste internamente as artérias: o endotélio. Os danos às paredes internas atraem plaquetas para o local, com a finalidade de formar microcoágulos para repará-los.
As irregularidades microscópicas surgidas no endotélio facilitam o depósito de gorduras e a instalação de um processo inflamatório que levará à formação de placas. Mais tarde, as placas invadirão as paredes arteriais mais internas, e constituirão uma barreira à passagem do sangue: é a aterosclerose.

A arteriosclerose e a aterosclerose podem ocorrer em qualquer artéria, mas a freqüência é maior (e causam complicações mais sérias) nas que irrigam coração, cérebro, rins e os olhos.

Os depósitos de gordura e a perda da elasticidade afetam com mais freqüência a parte da aorta que atravessa o abdômen (aorta abdominal) e as artérias das pernas. Na aorta, podem surgir dilatações chamadas de aneurismas e nas pernas, dificuldade de circulação que provoca dores ao andar.

A principal causa de morte em hipertensos é o infarto do miocárdio (ataque cardíaco), conseqüência da obstrução das artérias coronárias. Das pessoas que sofrem ataques cardíacos, 60% sofrem de hipertensão.

3) Cérebro

O endurecimento das paredes arteriais e a deposição de placas de gordura em suas camadas internas podem provocar danos à circulação cerebral.

Quando ocorre obstrução ou rompimento de uma artéria do cérebro o quadro recebe o nome de acidente vascular ou derrame cerebral.

Existem dois tipos de acidentes vasculares cerebrais:

a) Isquêmico

É o tipo mais comum, responsável por 70% , 80% dos acidentes vasculares cerebrais.
O fluxo incessante da corrente sangüínea pelas câmaras cardíacas e através de artérias com placas em suas paredes pode deslocar pequenos coágulos capazes de navegar até obstruir artérias cerebrais menos calibrosas, privando de oxigênio o tecido nervoso delas dependentes.

Às vezes, o suprimento sangüíneo é interrompido por períodos curtos (24 horas ou menos). Nesse caso, o acidente cerebral é chamado de transitório (ameaça de derrame, popularmente) para diferenciá-lo dos que se instalam por períodos mais prolongados.
Em 80% dos casos, os derrames cerebrais isquêmicos acontecem em pessoas hipertensas.

b) Hemorrágico

Ocorre quando um vaso cerebral se rompe, provocando hemorragia que lesa o tecido nervoso. Acidentes hemorrágicos podem ser conseqüentes à ruptura de aneurismas – dilatações das paredes arteriais – ou de pequenas fissuras no interior das artérias.
Os sintomas dos derrames dependem da extensão de tecido cerebral que entra em sofrimento e das funções que essas áreas coordenam. Os mais freqüentes são perda de movimento de um lado do corpo, dificuldade para falar, desorientação espacial, tonturas e perda da consciência.

4) Rins

Cerca de 20% do sangue colocado em circulação pelas batidas cardíacas vão parar nos rins para ser filtrado.

O rim é formado por um conjunto de estruturas microscópicas (os néfrons) encarregadas de filtrar o sangue para retirar de circulação os produtos desprezados pelas células e estabelecer o equilíbrio entre as quantidades de água, ácidos e sais minerais que devem permanecer no organismo.

O aumento da pressão e a existência de placas nas artérias que levam sangue aos néfrons para ser filtrado, reduzem o fluxo sangüíneo e, conseqüentemente, a capacidade de filtração. Com o passar do tempo, os rins diminuem de tamanho e perdem progressivamente a capacidade de eliminar substâncias tóxicas, quadro conhecido como insuficiência renal.

Por outro lado, a incompetência funcional dos rins causada pela hipertensão dificulta excreção de água e sódio nas quantidades desejáveis. A retenção aumenta o volume de líquido circulante, colaborando para elevar ainda mais a pressão arterial.

Boa parte das pessoas submetidas a diálises e transplantes renais, chegaram a essas condições por causa de hipertensão não tratada.

5) Olhos

A retina, camada que reveste internamente a cavidade ocular, rica em terminações nervosas essenciais para a captação das imagens projetadas sobre ela, é altamente vascularizada. Iluminando-a através da pupila, é possível visualizar, no fundo do olho, essa rede de pequenas artérias e veias tortuosas.

Nos estágios iniciais da hipertensão, essas pequenas artérias se tornam estreitadas e endurecidas. Nas fases adiantadas, elas podem ser obstruídas ou mesmo romper, provocando hemorragias que podem destruir células da retina e agredir o nervo ótico que conduz os estímulos luminosos da retina para o cérebro, causando perda da visão.

Mecanismos naturais de controle

O sistema circulatório dispõe de mecanismos muito delicados para manter constante a pressão no interior das artérias.

Quando o coração se contrai, expulsa o sangue existente em seu interior. O sangue venoso contido no ventrículo direito é bombeado para os pulmões, para ser oxigenado. O arterial contido no ventrículo esquerdo é bombeado para a aorta, artéria da qual emergem ramos que se bifurcam em outros de diâmetros cada vez mais finos para formar uma rede quilométrica de capilares, destinada a levar oxigênio e nutrientes para todas as células do organismo.

Nos tecidos, os capilares entregam oxigênio e os nutrientes essenciais, recebem gás carbônico e tudo o que não interessa mais às células, para conduzi-los às veias que vão levá-los de volta ao coração.

Diversos sistemas ajudam a manter a pressão arterial dentro de valores adequados:

1) Coração: quanto mais forte a pressão que o músculo cardíaco fizer para bombear o sangue, maior a pressão exercida no interior das artérias;

2) Artérias: as artérias são dotadas de uma camada muscular que, ao contrair (vasoconstrição), dificulta a passagem do sangue, e, ao relaxar (vasodilatação), facilitam-na. Além disso, suas paredes internas são revestidas pelo endotélio, tecido delicado que secreta substâncias vasoativas cruciais para a contração e a dilatação dos vasos;

3) Óxido nítrico e a endotelina: o primeiro é um gás que dilata os vasos e diminui a pressão; a segunda é uma proteína que exerce a função inversa, para aumentá-la;

4) Barorreceptores: são estruturas sensíveis às variações de pressão, estrategicamente distribuídas no interior do coração, artérias e veias, por meio das quais o cérebro monitora a cada segundo os valores da pressão no sistema circulatório;

5) Adrenalina: quando os baroreceptores detectam algum valor anormal de pressão, o cérebro imediatamente envia ordens (hormônios) para corrigir o problema. O hormônio mais importante nessas situações é a adrenalina, mas existem outros, como o cortisol, que também está envolvido no mecanismo de estresse;

6) Outros hormônios: entre eles a renina, que o organismo converte em outro hormônio, chamado angiotensina I. Quando a angiotensina I cai na circulação, é convertida em angiotensina II, que contrai os vasos sangüíneos e avisa as glândulas adrenais (suprarenais) para produzir aldosterona. A aldosterona dá ordem aos rins para reter mais água e sódio, e aumentar a pressão.

Milhões de anos de evolução selecionaram mecanismos de alta complexidade que permitem ao cérebro monitorar continuamente os valores da pressão arterial e enviar ordens para executar as correções necessárias, com a finalidade de mantê-la em valores adequados para cada situação.

Em 90% a 95% dos casos, não se consegue descobrir a causa da hipertensão. Mas sabemos que há genes e outros fatores associados ao risco de desenvolvê-la; alguns evitáveis, outros não.

Fatores não evitáveis

São inevitáveis porque nada pode ser feito para modificá-los:

1) História familiar: se um de seus pais tem hipertensão, você tem 25% de probabilidade de desenvolvê-la no decorrer da vida. Quando pai e mãe são hipertensos, essa probabilidade sobe para 60%;

2) Idade: embora possa instalar-se em qualquer idade, o diagnóstico costuma ser feito ao redor dos 35 anos. Ao atingir 50 anos, porém, metade da população sofre de pressão alta; daí em diante a incidência cresce sem parar;

3) Sexo: entre as pessoas de meia idade, os homens são mais propensos à hipertensão. No entanto, depois dos 55 anos – quando as mulheres atingem a menopausa – a relação se inverte, e a doença se torna mais prevalente no sexo feminino;

4) Etnia: hipertensão é mais comum em negros do que em brancos. Nos negros, a doença costuma surgir em idade mais precoce, tende a ser mais pronunciada e a progredir mais rapidamente.

Fatores evitáveis

1) Vida sedentária: mulheres e homens inativos apresentam batimentos cardíacos mais acelerados para o sangue vencer a resistência das artérias, que a falta de atividade física tornou endurecidas. Além disso, a vida sedentária acha-se ligada à obesidade, causa importante da doença;

2) Obesidade: Quanto maior a massa corpórea, maior a freqüência cardíaca e mais esforço o coração deve executar para que o sangue chegue aos tecidos. Além disso, o excesso de gordura aumenta os níveis de insulina no sangue, o que provoca retenção de sódio e de água. O aumento do volume líquido circulante faz a pressão subir no interior do sistema;

O tipo de distribuição de gordura no corpo guarda relação com a hipertensão. Quando a gordura está acumulada principalmente no abdômen (corpo em forma de maçã), o risco de hipertensão é mais elevado. Quando se acumula na parte inferior (bacia, cadeiras e coxas – corpo em forma de pêra), o risco é menor;

3) Síndrome metabólica (ou síndrome X): Essa síndrome é caracterizada por um conjunto de condições associadas, que incluem: obesidade, diabetes tipo 2, alterações nos níveis de triglicérides/colesterol, pressão arterial elevada e risco aumentado de ataque cardíaco;

4) Fumo: A nicotina provoca contração temporária dos vasos (vasoconstrição) e aumenta a freqüência dos batimentos cardíacos. O monóxido de carbono da fumaça se acumula no sangue e desloca o oxigênio dos glóbulos vermelhos, fazendo o coração bater com mais força para compensar a falta de oxigenação. Com o passar dos anos, substâncias tóxicas existentes no fumo lesam as paredes internas das artérias, facilitando o acúmulo de placas de aterosclerose;

5) Sensibilidade ao sódio: O cloreto de sódio (sal de cozinha) é indispensável para o organismo. Para cada 9 gramas de sal ingerido, o corpo retém em média 1 litro de água. Organismos que acumulam sódio com mais facilidade retêm líquido em excesso e podem apresentar tendência à hipertensão. Cerca de 60% dos hipertensos apresentam sensibilidade ao sal, característica que se torna mais evidente com a idade;

6) Potássio baixo: Potássio é importante para manter em equilíbrio a quantidade de sal e água que os rins excretam. Quando a dieta é pobre em potássio, os rins não conseguem eliminar sódio com eficiência. O excesso de sódio no organismo retém água e aumenta a pressão arterial;

7) Álcool em excesso: Álcool em pequena quantidade não afeta significativamente a pressão; seu efeito relaxante pode eventualmente reduzi-la. Enquanto um ou dois drinques (1 drinque = uma taça de vinho = 1 lata de cerveja = 50 mL de destilados) por dia podem ser tomados com segurança, os estudos deixam claro que o consumo diário de três ou mais praticamente dobra o risco de hipertensão. E mais, o excesso de álcool pode lesar o coração, além do fígado e outros órgãos;

8) Estresse: O estresse geralmente causa aumento temporário da pressão, mas, quando se torna persistente, esses picos hipertensivos podem lesar artérias, rins e o próprio coração.

Tratamentos

O tratamento da hipertensão não é padronizado; ao contrário, precisa ser individualizado segundo as necessidades de cada um.

A melhor forma de controlar a pressão é por meio de modificações no estilo de vida. Manter atividade física diária, evitar a obesidade, o excesso de bebidas alcoólicas, de alimentos gordurosos, de doces e de sal (nas pessoas sensíveis a ele), reduzir o estresse e, especialmente, abandonar o fumo são procedimentos que todos os portadores de hipertensão devem adotar.

Nos casos de hipertensão mais leve, tais medidas podem ser capazes de fazer a pressão retornar a valores normais. Muitas vezes, no entanto, elas são insuficientes para mantê-la dentro de limites seguros.

Felizmente, contamos com diversos medicamentos dotados dessa propriedade, que podem ser administrados continuamente, por anos consecutivos, com o mínimo de efeitos indesejáveis.

A prevenção das complicações da hipertensão por intermédio do uso de drogas anti-hipertensivas foi um dos maiores sucessos da medicina moderna.

A hipertensão não é uma doença uniforme. É lógico que o médico não pode tratar de uma pessoa com 13,5 por 9,5 da mesma forma que de outra com 17 por 12. Embora em ambos os casos seja necessário aconselhar a adoção de um estilo de vida saudável, é muito mais provável que o paciente com 17 por 12 precise ser medicado.

Como a hipertensão é a doença crônica mais prevalente no mundo, a medicina acumulou enorme experiência em seu tratamento. Diversos estudos envolvendo centenas de milhares de participantes permitiram definir certos princípios para orientar os médicos na condução de seus casos.

Esses princípios gerais tomam como base a tabela de classificação da hipertensão mostrada na primeira parte deste trabalho. O quadro abaixo indica as opções de tratamento de acordo com a classificação dos níveis de hipertensão:

Classificação (pressão máxima e pressão mínima) Tratamento
Ótima (<12 e <8) Manter estilo de vida saudável
Normal (<13 e <8,5) Adotar estilo de vida saudável
Limítrofe (13 a 13,9 ou 8,5 a 8,9) Adotar estilo de vida saudável
Hipertensão Estágio 1 (leve) (14 a 15,9 ou 9 a 9,9) Vida saudável + Um medicamento
Estágio 2 (moderada) (16 a 17,9 ou 10 a10,9) Vida saudável + Dois ou mais medicamentos
Estágio 3 (grave) (≥18 ou ≥11) Vida saudável + Dois ou mais medicamentos

O tratamento deve levar em conta não apenas os graus de hipertensão acima, mas outras condições mórbidas porventura associadas. Por exemplo, se você sofre de diabetes ou teve um infarto ou derrame cerebral, o ideal é que sua pressão seja mantida em valores abaixo de 13 por 8. Mas, se sofre de insuficiência renal grave, ela não deve ultrapassar 12 por 7,5.

Na indicação do tipo de tratamento, os seguintes fatores de risco devem ser analisados: fumo, obesidade, vida sedentária, níveis elevados de triglicérides/colesterol, diabetes, insuficiência renal, idade (homens acima de 55 anos, mulheres com mais de 65 anos), sexo (homem ou mulher em menopausa), história de doença cardiovascular em familiares homens antes dos 55 anos ou em mulheres com menos de 65.

Orientações gerais

Se seu médico indicou medicamentos no seu caso, é muito importante que você leve em consideração as seguintes recomendações, válidas para todos os hipertensos:

1) Muitos hipertensos acham que não precisam mudar o estilo de vida porque os remédios resolvem sozinhos o problema da pressão. Não é verdade! Primeiro, porque há situações em que os remédios reduzem a pressão, mas não conseguem fazê-la atingir o alvo ideal para seu caso, enquanto você não perder de peso, for inativo ou continuar fumando, por exemplo. Segundo, porque uma vida ativa e saudável além de diminuir a chance de desenvolver diabetes, de sofrer infarto ou derrame cerebral, poderá permitir que seu médico reduza as doses diárias de medicamento;

2) No passado, os hipertensos eram simplesmente proibidos de comer sal. Hoje não somos tão radicais. O sal é um mineral importante para o organismo e deve ser ingerido mesmo por quem sofre de pressão alta. Mas é preciso cuidado, porque cerca de 60% das pessoas apresentam sensibilidade exagerada e respondem com aumento de pressão à presença de quantidades maiores de sal na dieta. São mais sensíveis os negros, as mulheres e homens com mais de 65 anos, os portadores de diabetes e aqueles que têm familiares sensíveis aos efeitos do sal.

Se esse for seu caso, evite os alimentos processados, são os mais ricos em sal, e jamais acrescente sal à comida antes de prová-la. Leia sempre o conteúdo de sal no expresso no rótulo dos alimentos processados.

O mais sensato é pedir para seu médico orientá-lo em relação à quantidade de sal que pode ser ingerida com segurança;

3) Dieta rica em frutas, vegetais, em cereais integrais e em laticínios com baixo teor de gordura garante a ingestão de pouco sódio, pouca gordura e quantidades mais altas de potássio, cálcio e magnésio, nutrientes necessários à redução da pressão.

Ao cozinhar use pouco sal, óleo ou gordura: dê preferência às ervas e a outros temperos.

4) O efeito do café na pressão arterial está mal definido. Enquanto algumas pesquisas mostram que doses altas da cafeína provocam aumento de pressão, outras sugerem que consumidores habituais desenvolvem tolerância a ela, e se tornam imunes a seus efeitos;

5) O estresse pode aumentar a pressão temporariamente e agravar quadros de hipertensão. Modificações do estilo de vida, aumento da atividade física, técnicas de relaxamento e de psicoterapia podem ajudar.

Aderência ao tratamento medicamentoso

Se você recebeu a prescrição de medicamentos para controlar a pressão, evite encará-la de forma pessimista, como se representasse uma tragédia. De fato, não é agradável tomar remédio todos os dias, mas pense no sofrimento dos que viveram numa época em que eles não existiam: ataques cardíacos, derrames cerebrais e todo o cortejo de complicações da hipertensão, sem nenhuma possibilidade de defesa.

Por isso, agradeça à imaginação criadora dos cientistas que desenvolveram os anti-hipertensivos e procure seguir as seguintes recomendações em relação a eles:

1) Escolha um médico atualizado com as inúmeras opções terapêuticas hoje disponíveis – A escolha dos medicamentos mais adequados para cada caso requer capacitação técnica e acompanhamento de seus efeitos a longo prazo. Um médico indisponível e desatento certamente não é a pessoa ideal para tratar uma condição crônica como a sua;

2) Assuma o controle de sua condição – Compre um aparelho e meça a pressão em casa e no escritório, em horários variados. Anote os valores obtidos para que o médico possa avaliar a eficácia do tratamento;

3) Tome os comprimidos rigorosamente nos horários prescritos – A prescrição dos horários não é aleatória, mas baseada no tempo que cada droga leva para agir e na duração de seu efeito hipotensor. Atrasos e esquecimentos podem criar “janelas” farmacológicas nas quais a pressão escapa do controle. Caixas com divisórias para comprimidos, relógios com alarme, métodos para enquadrar as tomadas nos rituais diários, são muito úteis para evitar falhas de aderência;

4) Em caso de efeitos indesejáveis converse com seu médico, não faça ajuste de doses nem interrompa o tratamento por conta própria – Embora as drogas atuais sejam muito bem toleradas, todo medicamento pode causar efeitos colaterais cuja intensidade varia de uma pessoa para outra. Em caso de intolerância, discuta o problema com seu médico, ele é a pessoa certa para encontrar uma solução. Pequenas reduções de doses, modificações de esquemas ou do horário das tomadas, muitas vezes, são suficientes para resolver o problema;

5) Você toma os medicamentos exatamente como foram prescritos, a pressão volta ao normal e assim se mantém por meses e meses – Então,você é assaltado pela dúvida: “Vou ter que tomar remédio pelo resto da vida?”.

A resposta mais provável é “sim”. Raros portadores de hipertensão grau I e grau II conseguem ficar livres da medicação graças apenas a mudanças no estilo de vida, mas muitos conseguem reduzir significativamente as doses diárias;

6) Jamais, em hipótese alguma, abandone o tratamento. Lembre-se sempre de que a hipertensão é um inimigo silencioso que ataca sem aviso prévio. É uma condição crônica incurável, mas que, felizmente, pode ser controlada de modo a evitar complicações incapacitantes e permitir que você leve vida absolutamente normal.

Classificação               Pressão máxima (cm)            Pressão mínima (cm)
Ótima                          < 12,0                  – e –                     < 8,0
Normal                          < 13,0                  – e –                     < 8,5
Limítrofe                  13,0  a 13,9               – ou –                 8,5 a 8,9
Hipertensão
Estágio 1 (leve) 14,0 – 15,9        – ou –                  9,0 – 9,9
Estágio 2 (moderada) 16,0 – 17,9        – ou –                 10,0 – 10,9
Estágio 3 (grave)   18,0 ou mais     –  ou –                 11,0 ou mais