Entrevista

O fígado e o álcool

Luís Caetano da Silva, médico especialista em fígado, é professor de Hepatologia na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e autor do livro “O fígado sofre calado”, publicado pela Editora Atheneu e dedicado ao esclarecimento e orientação do público leigo.

São tantas as consequências desastrosas das drogas na vida de um dependente que, muitas vezes, os danos que causam nos diferentes órgãos são postos em segundo plano. O grande problema é que seu consumo acarreta (não esquecer que o álcool também é uma droga), no início seu efeito é agradável. Depois, o organismo cria resistência e exige doses maiores para repetir a sensação de bem estar.

Certo grau de embriaguez é a reação normal do organismo posto em contato com o álcool, mas todos conhecemos pessoas que bebem quantidades enormes e aparentemente não se abalam. Essa resistência à ação do álcool é o primeiro passo para que a doença do alcoolismo se instale e o fígado entre em processo de deterioração.

A dificuldade maior em relação ao álcool é que ele custa pouco, é facilmente encontrado e legalmente obtido. Além disso, tem o poder de libertar-nos das inibições que nos constrangem. O jovem começa a beber na adolescência, fica mais extrovertido, mas não imagina que isso pode significar o fim de sua vida em 20 ou 30 anos, porque seu fígado foi irremediavelmente destruído.

METABOLISMO DO ÁLCOOL E DESTRUIÇÃO CELULAR

Drauzio – O fígado suporta mal qualquer quantidade de álcool?

Luis Caetano da Silva – O fígado tem a capacidade de destruir o álcool, porque possui enzimas que o transformam em outras substâncias, por exemplo, o acetaldeído. Acontece que, quando o álcool é ingerido em quantidades maiores, começam a aparecer lesões nas células hepáticas. Obviamente, se o indivíduo bebe todos os dias e há muito tempo, a recuperação celular fica mais difícil e o metabolismo do álcool é comprometido.

Drauzio – As células do fígado podem ser destruídas pela ação do álcool?

Luis Caetano da Silva  – É óbvio que uma escapada ocasional não provoca grande estrago. Todavia, se a ingestão for frequente e o volume ingerido maior do que a capacidade do fígado para metabolizar o álcool, as células hepáticas podem ser irremediavelmente destruídas.

Drauzio – O que é pior para o fígado: quem bebe todos os dias doses menores ou quem toma o equivalente às doses de vários dias de uma só vez?

Luis Caetano da Silva  – O pior é o uso diário de álcool. Já existe uma estimativa de que um indivíduo pode desenvolver cirrose hepática se beber 80 gramas de álcool por dia, durante aproximadamente 10 anos. A mulher, que é mais sensível, corre o mesmo risco com metade dessa dose.

Drauzio – Vamos tentar demonstrar o que são 80 gramas de álcool? 

Luis Caetano da Silva  - Vamos tomar como exemplo a cerveja, bebida bastante apreciada e consumida no Brasil. Uma garrafa de cerveja tem 600ml. Vamos admitir que cada garrafa tenha 4% de álcool. Logo, três garrafas e meia de cerveja perfazem os oitenta gramas. Quem bebe essa quantidade todos os dias, durante 10 anos, corre sério risco de desenvolver cirrose.  Se considerarmos que o teor alcoólico da pinga, do uísque e da vodca é dez vezes maior do que o da cerveja, dá para imaginar o que pode acontecer. Um copo grande de qualquer uma dessas bebidas corresponde a 64 gramas de álcool, portanto beirando o limite que, na maioria dos casos, leva à cirrose.

RISCO DE DEPENDÊNCIA

Drauzio – Sabe o que acho perigoso nisso? Um indivíduo que beba essa quantidade      não é considerado alcoólico, como é politicamente correto dizer.

Luis Caetano da Silva  – O grande problema é o conceito, o critério adotado, porque ninguém duvida de que tomar uma caipirinha ou uma cerveja, de vez em quando, é agradável. A coisa complica com a repetição que pode levar à dependência. O indivíduo pode não se embriagar e muitas vezes se gaba de nunca ter ficado bêbado. Também não faz diferença o tipo de bebida escolhido. A cerveja tem, em média, de 4% a 5% de álcool. Algumas chegam a 8%. O vinho tem 12%; licores, de 20% a 25%, mas nada disso importa. O que conta é a quantidade de álcool ingerida diariamente ou quase todos os dias. Por outro lado, se houver predisposição genética, mesmo em quantidades menores o álcool pode provocar cirrose hepática.

Drauzio – Por que na mulher o álcool provoca maiores estragos?

Luis Caetano da Silva  – Há várias explicações. Uma delas é que, ao entrar na circulação sanguínea, o álcool se distribui inclusive na parte aquosa e esse volume de distribuição, na mulher, é menor. Parece, também, que ele é absorvido com mais intensidade pelo organismo feminino, porque a mulher tem menos enzimas capazes de destruí-lo ainda no estômago.

De qualquer modo, independentemente do sexo, o problema fica mais grave quando, sem     perceber, o indivíduo perde o controle e, dominado pelo álcool, torna-se dependente dessa droga.

EFEITOS DELETÉRIOS DO ÁLCOOL

Drauzio – Num país como o Brasil, onde o álcool é um problema sério de saúde pública,  muita gente tem cirrose?

Luis Caetano da Silva - Muita gente tem cirrose e os gastos são altos. Isso para não falar na   perda da qualidade de vida e no índice de mortalidade.

Quem bebe, mesmo que não se considere um alcoólico, sofre danos em seu organismo. O   álcool é tóxico e agride o fígado, o pâncreas, o músculo cardíaco e o coração como um todo, o sistema nervoso central, os nervos periféricos, as glândulas, os testículos e assim por diante. As lesões vão surgindo devagarinho e, quando o indivíduo descobre ou é alertado pelo médico, às vezes não consegue mais se libertar da dependência. Alguns doentes, no entanto, conseguem afastar-se da bebida quando descobrem que estão com cirrose.

Drauzio – Há algum tempo, na revista da Academia de Ciências de Nova York, saiu uma matéria a respeito de uma mesa redonda em que se discutiram os procedimentos adotados para deixar de beber. Muitos participantes discordavam da ideia de que só a suspensão total e absoluta do álcool garantia que o dependente de álcool parasse de beber. Eles argumentavam que certas pessoas bebem muito numa fase da vida, depois conseguem controlar-se e passam a beber moderadamente sem precisar afastar-se definitivamente da bebida. Essas pessoas correspondem a mais ou menos 1/3 daqueles que chegaram a níveis perigosos de consumo de álcool. Qual sua opinião sobre isso?

Luis Caetano da Silva - O assunto é polêmico. Quando se discute o problema principalmente    com os psiquiatras, todos são categóricos em afirmar ser perigoso permitir que o alcoólico beba um pouco. Seria como permitir ao fumante, que abandonou o cigarro, dar uma tragadinha. Com o cigarro, isso não existe. Existiria com o álcool?

Algumas pessoas conseguem reduzir drasticamente a quantidade de álcool sem parar de uma vez. Não sei precisar números nem porcentagens, mas tenho certeza de que não constituem a maioria. Por isso, o conselho que se dá, nesses casos, é não beber sob nenhum pretexto. O perigo está em tomar uma cervejinha ou um cálice de vinho, perder o controle e voltar a consumir álcool como fazia antes.

Se a doença já se instalou, o caso muda de figura. É preciso parar de beber mesmo, porque qualquer quantidade de álcool, por menor que seja, pode piorar quadro.

Drauzio – Você bebe álcool?

 Luis Caetano da Silva – Bebo ocasionalmente. Quando está muito calor, tomo uma cervejinha,    o que é muito agradável, ou bebo uma caipirinha antes de comer feijoada. Beber em determinadas ocasiões não é o problema. O perigo está em ser dominado pelo álcool o que não é raro acontecer.

CIRROSE: SINTOMAS E DIAGNÓSTICO

Drauzio – Quais são os primeiros sintomas da cirrose?

Luis Caetano da Silva – Quando os sintomas aparecem, a cirrose está instalada, embora isso não queira dizer que já seja fatal. No entanto, é possível perceber alguns sinais de que a doença está progredindo. A resistência física diminui. Os pés incham e surgem as aranhas vasculares pelo corpo e muitas vezes nas mãos, a chamada palma hepática, ou então, a pele e os olhos ficam amarelados pela icterícia. O mais comum, porém, é o diagnóstico ser feito por um exame de laboratório. Plaquetas baixas ou transaminase (dosagem no sangue de uma enzima que existe no fígado) alterada são indícios bastante significativos. Quando o fígado está inflamado ou sofrendo alguma agressão, essa enzima escapa da célula hepática e vai parar na corrente sanguínea.

Drauzio – Então você recomenda que os pedidos de exame de sangue de rotina incluam também a transaminase?

 Luis Caetano da Silva – A transaminase é um exame importantíssimo e deve ser indicado sempre que se fizer um exame de sangue. É um exame barato que permite diagnosticar doenças do fígado em fase relativamente precoce. O ideal seria pedir duas transaminases (TGP e TGO) e a Gama GT. Este último exame é importante para avaliar as condições em que se encontra o fígado de quem bebe.    

Drauzio – Quando a Gama GT está elevada e você percebe que a pessoa exagera um pouco na bebida, você recomenda que ela pare de beber completamente?

Luis Caetano da Silva - Se eu não conhecer bem o problema, prefiro pedir que ela suspenda temporariamente o álcool e os medicamentos indicados para combater artrite ou reumatismo crônico, que por acaso esteja tomando, já que alguns anti-inflamatórios interferem nos resultados das transaminases.

Depois de um mês, o exame é repetido. Se as dosagens voltarem aos níveis normais, teremos identificado a causa do problema. Caso contrário, é preciso continuar investigando e provavelmente só uma biópsia possibilitará o diagnóstico.

Drauzio – Como é feita a biópsia hepática?

Luis Caetano da Silva Atualmente, a biópsia hepática é um exame simples. O paciente fica deitado numa maca e o médico, orientado por ultrassom, introduz uma agulha no espaço intercostal (entre as costelas) e acompanha seu percurso até o fígado onde é colhido o material. São retirados apenas alguns miligramas de tecido que nada significam para um órgão de um quilo e meio. O passo seguinte é examinar esse material no microscópio. Até hoje, nenhum aparelho de imagem moderno conseguiu substituir o microscópio nesse tipo de análise.

Antes da biópsia, verifica-se o tempo de coagulação do sangue para afastar a possibilidade de hemorragia ou sangramento interno.

Como é necessário atravessar a cápsula do fígado, que é bastante enervada, e o músculo, o paciente recebe uma anestesia local, semelhante à anestesia troncular que os dentistas aplicam para extrair dentes ou tratar de nervos.