Tabagismo

Cigarro: riscos reais e benefícios de parar

Daniel Deheinzelin, médico, livre-docente em Pneumologia pelo Departamento de Cardio-Pneumologia da Faculdade de Medicina da USP, é membro do corpo clínico do Hospital Sirio-Libanês de São Paulo (SP)

Que o cigarro faz mal, já se sabe há muito tempo.  No entanto, os riscos associados ao cigarro sempre foram estimados com base, por exemplo, no fato de o câncer de pulmão ser muito mais frequente em fumantes. As estimativas de risco não levavam em conta a melhora do tratamento das doenças cardiovasculares nos últimos anos. Mais importante, essas previsões não permitiam medir o impacto de parar de fumar.

Para avaliar de fato os riscos relacionados ao cigarro e verificar o impacto de parar de fumar, Jha e colaboradores seguiram mais de 200.000 homens e mulheres com mais de 25 anos, entre 1997 e 2006, nos Estados Unidos. Relacionando os dados de tabagismo com os da mortalidade e as causas de morte verificadas nesse período, esses pesquisadores encontraram os dados abaixo:

1) Fumantes entre 25 e 79 anos de idade morrem três vezes mais do que os não fumantes, independentemente da causa;

2) Para certas doenças, esse número é ainda maior: mulheres fumantes têm 17 vezes mais probabilidade de morrer de câncer de pulmão do que as não fumantes; os homens, 14 vezes mais;

3) Homens e mulheres correm risco nove vezes maior de morrer de doenças respiratórias, quando fumam;

4) Mesmo com a melhora do tratamento das doenças cardiovasculares, que levou à diminuição da mortalidade global por essas doenças, fumantes morrem três vezes mais do coração do que os não fumantes;

5) Os pesquisadores verificaram que, na população americana, a probabilidade de uma mulher não fumante chegar aos 80 anos foi de 70%, enquanto uma mulher fumante tinha somente 38% de chance de chegar a essa idade. Para homens, a chance foi de 61% para não fumantes e somente 26% para os fumantes;

6) Isso significa que mulheres fumantes viveram cerca de 11 anos menos do que as não fumantes; e homens, cerca de 12 anos menos. Sessenta por cento desse número maior de mortes deveu-se a doenças sabidamente associadas ao cigarro.  Como essas doenças pioram muito a qualidade de vida, o fumante não só vive menos, como vive pior.

O desenho do estudo e o tamanho da população estudada permitiram ainda verificar o impacto de parar de fumar. Os dados obtidos foram os seguintes:

1) Fumantes que pararam entre 25 e 34 anos (em média aos 29 anos) tiveram suas curvas de sobrevida muito semelhantes às dos não fumantes. Isso significa que os que pararam de fumar ganharam cerca de dez anos de vida comparados aos que não o fizeram;

2) Os que pararam de fumar entre os 35 e os 44 anos ganharam nove anos comparados aos que continuaram fumando;

3) Juntos, esses dados significam que parar de fumar perto dos 39 anos de idade reduz o risco excessivo de morrer por qualquer causa, em cerca de 90%. O que não quer dizer que seja seguro fumar até os 40 anos de idade, uma vez que 20% dos que fumaram até os 40 anos morreram mais cedo do que os não fumantes;

4) As vantagens de parar de fumar não se restringem aos indivíduos com menos de 40 anos de idade. Parar de fumar entre 45 e 54 anos de idade representa um ganho médio de seis anos de vida e, entre 55 e 64 anos, um ganho de quatro anos de vida.

Além desses dados inéditos, esse estudo também confirma que mulheres que fumam tanto quanto os homens morrem na mesma proporção ou até mais. cedo do que eles. Considerando que cerca de 30 milhões de jovens começam a fumar todos os anos no mundo inteiro e que a maioria não vai parar, pode-se estimar que o cigarro vai matar um bilhão de pessoas no século 21.

Referência

* Jha P, Ramasundarahettige C, Landsman V, Rostron B, Thun M, Anderson RN, McAfee T, Peto R. 21st-century hazards of smoking and benefits of cessation in the United States. N Engl J Med. 2013 Jan 24;368(4):341-50.