O outro lado

Benefícios do álcool

Drauzio Varella

Hoje vamos falar dos efeitos benéficos da ingestão moderada de álcool para a saúde. Não discutiremos os malefícios de seu consumo exagerado.

O Dr. Riad Younes, abstêmio convicto, define como alcoólatra toda pessoa que bebe mais do que seu médico. A brincadeira do Dr. Riad ilustra a dificuldade para estabelecermos o que deve ser considerado beber pouco, moderadamente ou muito.

A definição empírica aceita pela maioria dos médicos é que devem ser considerados consumidores moderados de álcool os homens que bebem o equivalente a 25 gramas da droga por dia. Quem ingere menos ou mais cairia nas categorias dos que bebem pouco ou muito, respectivamente. Por diferenças na capacidade de metabolizar o álcool, nas mulheres esse limite equivaleria a 12,5 gramas, metade da dose estabelecida para os homens. Duas latinhas de cerveja, dois copos de vinho ou duas doses de bebida destilada, equivalem mais ou menos às 25 gramas de álcool estabelecidas como limite para os homens.

No começo do século 20, os patologistas verificaram em autópsias de portadores de cirrose alcoólica que as artérias eram estranhamente livres de placas de aterosclerose. Na época foram dadas duas explicações: o álcool dissolveria o colesterol das placas ou a cirrose mataria o doente antes de elas se formarem.

No final dos anos 1960, o emprego de computadores nos inquéritos populacionais identificou os fatores de risco para doenças cardiovasculares: fumo, pressão alta, diabetes, sexo masculino, história familiar de ataques cardíacos, vida sedentária, níveis aumentados da fração LDL do colesterol e níveis diminuídos da fração HDL. Para surpresa dos epidemiologistas, esses estudos revelaram que os abstêmios de álcool tinham risco mais alto de morrer de ataque cardíaco.

Em 2000, foi publicada uma análise conjunta (meta-análise) de 28 trabalhos sobre o tema. Os dados demonstraram que o risco de ataque cardíaco em homens diminui à medida que o consumo de álcool aumenta de zero para 25 gramas diárias. Nessa dosagem diária, o risco era 20% menor do que o dos abstêmios.

Arthur Klatsky, pesquisador do Kaiser Medical Center, da California, publicou na revista Scientific American um artigo de revisão sobre os efeitos benéficos do álcool. Nela, seu grupo atualizou os dados obtidos entre 128.934 pacientes que se submeteram a check-ups cardiológicos no período de 1978 a 1985, dos quais 3.00l morreram de infarto, posteriormente. O resultado foi inequívoco: os participantes que tomavam um a dois drinques por dia tiveram redução de 32% no risco de morte por ataque cardíaco.

Os mecanismos que podem explicar as ações benéficas do álcool são:

1) Consumidores de quantidades moderadas de álcool apresentam níveis de HDL (“o colesterol protetor”) 10% a 20% mais altos do que os abstêmios;

2) A presença de álcool na circulação interfere com os mecanismos de coagulação do sangue, aumentando o tempo de coagulação. Com o sangue menos coagulável, haveria mais dificuldade para a formação de trombos nas artérias coronárias. A ingestão de quantidades maiores de álcool, no entanto, reverte essa relação, favorecendo a coagulação mais rápida e a trombogênese;

3) Beber moderadamente pode reduzir a probabilidade de infarto indiretamente, ao diminuir o risco de desenvolver diabetes do tipo 2, aquele que costuma se instalar na vida adulta. Beber muito, ao contrário, aumenta os níveis de glicose no sangue, indicador de aumento de risco para diabetes.

Em 1995, um estudo muito bem conduzido por pesquisadores dinamarqueses com 13 mil pessoas, acompanhadas durante 12 anos, mostrou que os bebedores de vinho tinto morriam menos de infartos do que os abstêmios. Muitos viram nesse trabalho evidências de que o vinho tinto teria propriedades antioxidantes inexistentes em outras bebidas, responsáveis pelo efeito protetor.

Em 2002, A. Katsky e colaboradores atualizaram os dados de uma pesquisa sobre o acompanhamento de 130 mil pessoas na Califórnia que bebiam vinho e cerveja. Os autores encontraram 35% menos de mortes por infarto entre os que tomavam vinho tinto ou branco, comparados aos que bebiam cerveja. Os que tomavam vinho, no entanto, fumavam menos, tinham nível educacional mais alto, praticavam mais exercícios físicos e abusavam do álcool com menor frequência.

Essas diferenças de estilo de vida provavelmente explicam os resultados que sugerem maior eficácia do vinho na prevenção de infartos. Por essa razão, a maioria dos autores aceita que os efeitos benéficos do consumo moderado devam-se ao álcool e não à forma segundo a qual a bebida foi preparada ou ingerida.

Além de reduzir o risco de ataques cardíacos fatais e não fatais quando usado em dosagem moderada, nenhum outro efeito benéfico do álcool para a saúde foi demonstrado até hoje.