Entrevista

Acidentes com crianças

Dra. Denise Varella Katz é médica pediatra, membro do Departamento de Pediatria do Hospital das Clínicas Da Universidade de São Paulo e do Hospital Albert Einstein (SP).

Crianças são mesmo desconcertantes. Em segundos, conseguem escapar do olhar vigilante dos adultos e aprontar alguma estrepolia que lhes põe em risco a vida. Nunca me esqueço de um filme a que assisti sobre o Paulinho da Viola. Num trecho, ele conta que estava lendo jornal, quando a mulher lhe pediu que olhasse o filho enquanto ela tomava banho. De repente, num desses pressentimentos que só as mães têm, do banheiro ela gritou que pegassem a criança que estava caindo na piscina. A explicação do Paulinho da Viola atônito com o incidente — “Criança é assim, está ali naquela hora e de repente não está mais” — exprimiu sua estupefação diante das coisas que as crianças são capazes de aprontar e da falta absoluta da noção do perigo a que se expõem.

Basta um pequeno descuido, e lá estão elas subindo em cadeiras para olhar pela janela, abrindo os armários da cozinha ou chegando perto do fogão aceso, arranjando um jeito de mexer nos produtos de limpeza ou nos remédios, apesar de terem sido colocados em prateleiras altas e aparentemente inacessíveis.

A consequência óbvia dessa característica do comportamento infantil é que elas se machucam a despeito dos cuidados e do olhar vigilante dos adultos.  Muitas vezes, felizmente, tudo não passa de um susto. Há ocasiões, porém, em que os acidentes são graves e requerem assistência médica imediata.

TOMADAS E JANELAS

Drauzio – Qual a fase em que as crianças ficam mais sujeitas aos acidentes domésticos?

Denise Katz – A partir do momento em que começam a movimentar-se sozinhas. Quando aprendem a engatinhar, por exemplo, por volta de um ano de idade, as crianças estão “prontas para aprontar”, seja enfiando o dedo nas tomadas elétricas, puxando a toalha da mesa com tudo que tem em cima ou pegando objetos que podem feri-la.

Acidentes domésticos na infância podem ter consequências graves. Uma criança de três anos, por exemplo, que anda, corre, fala, já se veste sozinha e que todos acham esperta e independente, essa mesma criança não tem a menor noção de perigo e é capaz de amarrar uma toalha de banho no pescoço, subir no parapeito da janela e sair voando. Não é que o tenha feito por impulso suicida. Ela acredita que pode voar como os super-heróis da televisão ou como o personagem da historinha do livro que a vovó leu naquela tarde.

 

Drauzio – Quando começam a engatinhar, as crianças demonstram uma atração irresistível pelas tomadas elétricas e vire-e-mexe estão tentado enfiar os dedinhos nos buracos. Qual o risco que esses choques elétricos podem provocar?

Denise Katz – Embora esses choques elétricos sejam fortes, intensos, a maioria deles não causa grandes complicações. No entanto, em bebês de 10kg, 11kg , podem provocar uma arritmia cardíaca grave, porque a corrente elétrica que entrou pelo dedinho colocado no buraco da tomada, passa não só pelo braço, mas também pelo coração. Ora, como nosso coração funciona às custas de estímulo elétrico, essa descarga extra de eletricidade pode provocar uma desorganização no batimento cardíaco conhecida como a arritmia, às vezes fatal, e a criança morrerá eletrocutada.

Drauzio – Alguns pais não cobrem as tomadas achando que, se tomarem um choque, as crianças aprenderão a não colocar o dedo ali.

Denise Katz – Essa é uma atitude muito errada. É muito mais fácil ensinar um cachorrinho que está sendo domesticado do que um bebê, que está descobrindo o mundo, a não fazer coisas que podem provocar acidentes. A única solução é afastá-lo do perigo. Por isso, as tomadas elétricas devem estar sempre vedadas. Não com fita crepe ou outra fita adesiva, porque ele vai lá, acha o brinquedo interessante, tira a fita e enfia o dedinho no buraco. É preciso bloquear as tomadas de forma a torná-las seguras.

 

Drauzio – Da mesma forma, também é imprescindível colocar telas ou grades nas janelas.

Denise Katz – As telas de proteção são tão indispensáveis quanto afastar os móveis de perto das janelas. Mesmo o bebê de dez, doze meses que não anda sozinho, consegue empurrar uma cadeira e nela subir desde que encontre alguma maneira para apoiar-se. Não é que o faça porque não está sendo vigiado. Nada disso. Bastam dois minutos de descuido e ele despenca lá do alto.

NA COZINHA

Drauzio – Em geral é na cozinha que os acidentes com criança são mais graves. Como é possível preveni-los?

Denise Katz – A cozinha é um verdadeiro laboratório de acidentes. Por ser um lugar com muitas portas de armários que a criança adora abrir e fechar, desinfetantes e outros produtos cáusticos devem ser guardados em prateleiras bem altas e trancados com chave que não pode ficar a seu alcance. Só assim será possível evitar que uma criança maiorzinha, mais irrequieta e levada, suba num banquinho e consiga abrir a porta para mexer nos produtos ali colocados.

Drauzio – Crianças nunca deveriam entrar na cozinha e circular perto do fogão.

Denise Katz – Chegar perto do fogão é muito perigoso, porque nele há sempre vasilhas com água quente ou fogo aceso. Por isso, os cabos das panelas devem estar sempre voltados para dentro. Cabo virado para fora do fogão pode chamar a atenção da criança que resolve pegá-lo. Com ele vem a panela e o que tem dentro que cai sobre a criança, quase sempre provocando queimaduras graves.

Drauzio – Como os pais podem avaliar se a queimadura pode ser tratada em casa ou requer assistência médico-hospitalar imediata?

Denise Katz – As queimaduras que ocorrem com mais frequência em casa são causadas por acidentes com líquidos quentes: água quente, leite fervendo, café que acabou de ser coado, etc. No entanto, as mais graves costumam ser as queimaduras com fogo ou provocadas por explosões. A gravidade do ferimento está diretamente associada à sua extensão e profundidade.

Se a criança se queimou, a primeira providência é colocar a área queimada na água fria para neutralizar a sensação térmica. Isso ajuda a acalmar a criança. Como a dor volta instantaneamente quando o contato com a água é suspenso, recomenda-se cobrir a lesão com um pano limpo – qualquer pano – e levar a criança para um serviço médico imediatamente, pois os pais não têm condição de avaliar se a queimadura é de primeiro, segundo ou terceiro grau.

Drauzio – Nesse momento, é comum as pessoas usarem receitas caseiras – “Ah, minha avó passava tal pomada, pasta de dentes, pó de café, manteiga” – e com isso só pioram o quadro.

Denise Katz – Como não há a menor comprovação de que qualquer um desses produtos tenha propriedades terapêuticas, o melhor é manter a ferida limpa e levar a criança ao pronto-socorro.

 

Drauzio – Há pais que bloqueiam a entrada da cozinha com grades. Isso ajuda?

Denise Katz – Colocar uma grade na entrada da cozinha é ótima medida para impedir que a criança entre num dos recintos mais perigosos da casa.

PRODUTOS DE LIMPEZA E REMÉDIOS

Drauzio – As crianças são mesmo surpreendentes. Às vezes, os pais não entendem como o filho conseguiu alcançar o produto de limpeza que tinha sido colocado numa prateleira alta e de difícil acesso. O fato é que elas conseguem. O que os pais devem fazer quando a criança ingere uma substância cáustica?

Denise Katz – Devem levar a criança imediatamente para o hospital – a criança e a embalagem do produto. Provocar vômito é uma medida ineficaz e desaconselhada, porque a substância cáustica queimará duas vezes o tubo digestivo: ao entrar e na saída.

E o perigo não está só nos produtos de limpeza (especialmente a água sanitária). Está também nos remédios, que devem ser mantidos em lugares altos e trancados à chave. Ao vê-los, a criança pode achar que a embalagem dos comprimidos é parecida com a das balinhas e resolve experimentá-los.

Drauzio – Funciona dar leite ou água para a criança que ingeriu um produto de limpeza?

Denise Katz – Não funciona. É tempo perdido. Numa situação dessas, não adianta dar leite ou água, nem provocar vômitos. A única coisa a fazer é levar a criança e a embalagem do produto para o hospital.

BATIDAS NA CABEÇA

Drauzio – Quando os outros filhos já eram grandes, um amigo teve um filho temporão. Um dia, fui visitá-lo e encontrei o bebê, que teria um ano, um ano e meio, andando de capacete pela casa. Diante da minha surpresa, ele explicou: “Não agüento mais ver criança batendo a cabeça. Ele anda de capacete para minha tranqüilidade”. Crianças batem muito a cabeça?

Denise Katz – Criança bate a cabeça, mesmo. Bate porque proporcionalmente ela é maior do que as outras partes do corpo. Raramente, porém, a batida provoca uma fratura. Mesmo assim, a recomendação é observar a criança que bateu a cabeça e relatar o fato para o pediatra.

Drauzio – Quando você diz “observar a criança” que bateu a cabeça, quais são os sinais de alerta que indicam a hora de procurar socorro imediatamente?

Denise Katz – O sinal mais importante é o vômito. Vomitou nas primeiras 24 horas depois do acidente, os pais devem levar a criança para o hospital, uma vez que isso pode ser uma manifestação precoce de complicações como fratura, sangramento e elevação da pressão intracraniana.

Outra medida importante é não deixar a criança dormir. Criança que bate a cabeça, em geral, chora muito e depois sente sono. Como a sonolência pode ser um sinal de que tenham ocorrido lesões mais graves, o ideal é manter a criança acordada. Se não for possível, ela deve ser despertada a cada 15, 20 minutos para ver como reage quando conversam com ela ou lhe perguntam alguma coisa.

Drauzio – Quanto tempo é razoável deixar a criança dormir depois que bateu a cabeça e chorou muito?

Denise Katz – Duas horas, mas interrompidas a cada 15, 20 minutos para ver se está tudo bem. Criança que não responde a estímulos, não acorda de jeito nenhum, está mais endurecida (hipertônica) e cujos olhos parecem ausentes, está exteriorizando sinais neurológicos indicativos de que precisa ser levada ao pronto-socorro imediatamente.

Drauzio – Vamos imaginar que a criança caiu e bateu a cabeça no sábado ao meio-dia. Quando os pais podem ter certeza de que nada de mais grave aconteceu?

Denise Katz – Depois de 24 horas de observação; portanto, no domingo ao meio-dia.

Drauzio – E se, na segunda-feira de manhã, ela vomitar?

Denise Katz – Nesse caso, é bom que a criança seja examinada minuciosamente pelo pediatra ou por um neuropediatra. Dependendo dos sinais clínicos instalados, pode ser necessário encaminhá-la para uma tomografia.

DENTES QUEBRADOS E CORTES

Drauzio – O que deve ser feito quando as crianças caem e quebram os dentes?

Denise Katz – É comum a criança cair e quebrar um dente. Mesmo que seja um dente-de-leite, ela deve ser avaliada por um especialista no assunto, porque da integridade da primeira dentição depende a o bom desenvolvimento da dentição.

Drauzio – Embora os cortes, especialmente os cortes na cabeça, sangrem muito, não se deve passar mertiolate, mercúrio-cromo ou água oxigenada no ferimento. Quais são os cuidados indicados nessa situação?

Denise Katz – Quando a criança se corta, o certo é lavar a ferida com água corrente e depois comprimi-la com um pano limpo para estancar a hemorragia. Há pessoas que põem pó de café, talco, serragem, por exemplo, para coibir o sangramento. Isso não deve ser feito nunca por causa do risco de contaminação.

Se a compressão não for suficiente para estancar o sangue, os pais levar a criança para o hospital a fim de suturar a ferida. Isso pode ser feito com calma, sem afobação, mas comprimindo sempre o ferimento. Assim que chegarem ao pronto-socorro, certamente o caso será considerado uma emergência e a criança será atendida depressa.

CRISES CONVULSIVAS

Drauzio – Criança com febre deixa sempre os pais preocupados, especialmente quando a temperatura sobe muito, por causa do risco de convulsão. O que eles devem fazer quando, em virtude da febre alta, a criança tem uma convulsão?

Denise Katz – A crise convulsiva mais comum nas crianças é provocada pela febre alta. Em geral, ela ocorre dos seis meses até seis anos de idade e tem a ver com o aumento rápido da temperatura. A criança estava bem, mas de repente têm uma crise convulsiva, porque apanhou uma infecção de garganta, por exemplo, que fez a febre subir muito de uma hora para outra.

A convulsão febril clássica é benigna e caracteriza-se por abalos e perda de consciência. No entanto, crises prolongadas podem causar lesões no sistema nervoso.

Criança que teve convulsão deve ser logo socorrida e levada ao médico. Enquanto dura a crise, porém, os pais devem deixá-la numa posição o mais confortável possível para que possa respirar. Nada de puxar a língua para fora, nem colocar uma colher boca, jogar água no rosto ou virar a cabeça da criança para baixo. Da mesma forma que apareceu, a convulsão vai passar espontaneamente, sem que seja necessário realizar qualquer uma dessas manobras.

Drauzio – Na verdade, diante de um quadro de convulsão febril, os pais devem manter a calma. Mas, tão logo passe a crise, precisam procurar assistência médica.

Denise Katz – Precisam levar a criança rapidamente para o pronto-socorro para que seja devidamente medicada.

QUEDAS

Drauzio – Tombos são quase rotina na vida da criança. Como a família pode avaliar a gravidade da queda?

Denise Katz – Crianças que andam, também correm e caem. Quando se machucam, sabem dizer onde está doendo. Aí, é preciso distinguir se não foi nada, ou se sofreram um entorse, uma fratura ou uma luxação. (Entorse é uma lesão nas partes moles da articulação e, em geral, provoca edema e vermelhidão; luxação é a perda da posição anatômica normal de uma articulação e fratura, a quebra de um osso).

Como não está totalmente mineralizado – o osso da criança é semelhante ao galho verde de uma planta, portanto difícil de quebrar, mas existem situações em que ele não dá sinal de que sofreu uma fratura. Ao contrário dos ossos dos adultos que se partem totalmente, nas crianças, a fratura nem sempre é completa nem provoca lesões aparentes. Por isso, a criança que se queixa de dor depois de uma queda deve ser levada ao pronto-socorro para verificar se não apresenta uma lesão óssea.

PREVENÇÃO

Drauzio – A melhor forma de evitar acidentes é preveni-los. Como a grande maioria deles acontece em casa, algumas providências precisam ser tomadas com o intuito de impedir que as crianças se machuquem.

Denise Katz – Esse é um ponto-chave a ser discutido. Não adianta falar em primeiros-socorros sem cuidar da prevenção. Se a maioria dos acidentes infantis ocorre em casa, é importante os pais adotarem algumas medidas que ajudam a evitá-los.

Como em qualquer idade a criança está sujeita a um acidente por afogamento, se a casa tiver piscina, ela deve ser cercada com grades. Não adianta colocar uma capa sobre a água, pois essas capas não impedem que a criança caia dentro d’água, e pior, não permitem que saia, mesmo estando consciente.

As janelas devem receber telas que as vedem em toda sua extensão e os orifícios das tomadas de luz rigorosamente tapados. Os cabos das panelas devem estar sempre virados para dentro do fogão e os produtos de limpeza e remédios guardados em armários altos e trancados à chave, que deve ser mantida longe do alcance das crianças.

Sempre é bom lembrar que acidentes não ocorrem só dentro de casa.  Acima dos seis anos, acidentes de trânsito são causa importante de mortalidade infantil. Na verdade, acima dos seis meses, o trauma é a principal causa de morte nos países desenvolvidos. Por isso, é obrigação dos pais respeitar a atual legislação de trânsito, garantindo que a criança seja transportada com segurança dentro dos automóveis. Criança só deve sair de casa no banco de trás dos carros; bebês até um ano numa cadeirinha apropriada, firmemente presa com cinto de segurança e, acima de um ano, numa cadeirinha maior, mais adequada ao seu tamanho. A partir  dos oito anos, pode sentar-se diretamente no banco de trás, nunca no da frente e sem colocar o cinto de segurança.

Drauzio – Como socorrer a criança que caiu na piscina e bebeu muita água?

Denise Katz – Tão logo a criança que caiu na piscina ou bebeu muita água no mar seja retirada da água, é indispensável garantir que as vias aéreas estejam liberadas para poder respirar livremente. Se estiver respirando, deve-se deitá-la de lado e mantê-la tranqüila até a chegada do serviço de resgate. Se não estiver, é preciso iniciar as manobras de respiração boca-a-boca.

Numa situação como essa, nunca se deve provocar vômitos. A água que está dentro da boca da criança deve ser retirada manualmente ou colocando sua carinha de lado para que verta normalmente.

Drauzio – Vamos lembrar que o serviço de resgate atende pelo número 193.