Entrevista

Leucemia

Dr. Jacques Tabacof é médico hematologista. Especialista em tratamento de leucemias e linfomas, trabalha nos hospitais Sírio-Libanês e Albert Einstein.

A simples menção da palavra leucemia geralmente assusta muito as pessoas. Esse medo provém de duas fontes principais. Primeira: as leucemias são muito frequentes em crianças e as famílias atingidas por esse drama transmitem uma imagem dolorosa da doença. Segunda: no passado, leucemias eram enfermidades quase sempre fatais. Dizer que alguém tinha a doença era praticamente um sinônimo de sentença de morte num prazo curto.

Hoje, o panorama mudou muito. Para as leucemias agudas, de início abrupto e evolução rápida, e para as leucemias crônicas, de evolução mais lenta e muitas vezes assintomáticas e descobertas num exame de sangue de rotina, há métodos que permitem diagnóstico preciso. Na verdade, o que chamamos de leucemia é um agrupamento de doenças diferentes entre si, que exigem tratamentos complexos e de alta diversidade.

Felizmente, hoje, muitos casos de leucemia podem ser curados e, mesmo que não o sejam, a sobrevida dos pacientes pode ser aumentada em muitos anos com o tratamento.

DEFINIÇÃO

Drauzio O que é realmente essa doença chamada de leucemia?

Jacques Tabacof – Leucemias são cânceres dos leucócitos, os glóbulos brancos que estão nos gânglios linfáticos e na corrente sanguínea. As leucemias caracterizam-se, portanto, por uma proliferação anormal e desordenada de glóbulos brancos que provoca grandes alterações na contagem das células do sangue.

Todas as células do sangue – glóbulos brancos (células de defesa do organismo), glóbulos vermelhos (cuja função é transportar oxigênio para órgãos e tecidos) e plaquetas (células responsáveis pela coagulação) – são fabricadas dentro da medula óssea, no tutano do osso e nos gânglios linfáticos.

Existem vários tipos de leucócitos, ou glóbulos brancos. São os linfócitos, neutrófilos, monócitos, por exemplo. Na leucemia, a produção totalmente desordenada dos leucócitos faz com que seu número aumente consideravelmente. Num hemograma, em vez de aparecerem de cinco mil  a dez mil glóbulos brancos, aparecem 90 mil, 100 mil. Isso altera a produção das outras séries, ou seja, das plaquetas e dos glóbulos vermelhos, acarretando uma queda expressiva no número de plaquetas. De 150/200 mil, elas podem cair para apenas cinco mil. Outra manifestação importante da doença é a anemia, porque os níveis de hemoglobina também desabam. Essas alterações todas são detectadas no hemograma, um exame de sangue bastante simples, e acontecem porque as células leucêmicas se proliferam de forma desordenada e começam a ocupar a medula óssea.

A grande característica da leucemia, portanto, é o surgimento de quantidades muito grandes de leucócitos anômalos. São leucócitos doentes que, além de perder a função de defesa do organismo, ocupam a fábrica e reduzem o espaço para a fabricação das outras células que compõem o sangue.

A falha na produção dos glóbulos vermelhos e plaquetas provoca manifestações clínicas que incluem anemia, fraqueza, palidez, cansaço, hemorragia, sangramentos no nariz e na gengiva, manchas vermelhas na pele e infecções. Esses sinais são próprios da leucemia aguda.

Existem, porém, as leucemias crônicas que na maior parte das vezes são detectadas num hemograma rotineiro. Em geral, a pessoa não sente nada, faz um check-up ou um exame de sangue por qualquer motivo e constata alterações significativas na contagem das células do sangue.

LEUCEMIA AGUDA E LEUCEMIA CRÔNICA

Drauzio – A diferença fundamental entre uma e outra é que o tipo agudo vem acompanhado de sintomas, anemia intensa, sangramentos, infecções, etc. Já o tipo crônico tem evolução lenta, às vezes completamente assintomática, e acaba sendo descoberto ocasionalmente. Como você avalia um doente com suspeita de leucemia?

Jacques Tabacof – A primeira coisa que se faz é pedir um hemograma para avaliar o grau de alteração nas várias séries do sangue. Dependendo do resultado, pode fazer-se necessária a internação hospitalar porque paciente com número muito baixo de plaquetas, por exemplo, corre risco de hemorragia no cérebro, nos olhos, no aparelho digestivo, ou pode precisar de transfusões. A necessidade dessa abordagem terapêutica faz da leucemia aguda uma doença mais dramática e assustadora.

O diagnóstico da leucemia exige também a realização de testes especiais para identificar qual é o tipo da doença. Para se ter uma ideia só de leucemias mieloides agudas, as que acometem a linhagem dos neutrófilos ou granulócitos, há sete tipos diferentes. Um exame chamado mielograma, que consiste na aspiração do líquido da medula óssea, permite a análise direta do local afetado para identificar o tipo de célula que o está invadindo de forma anormal a ponto de impedir a fabricação dos outros elementos do sangue.

E não é só. Além das antigas colorações químicas chamadas citoquímicas, recorre-se hoje a teste de imunofenotipagem, exame bastante sofisticado que, utilizando anticorpos, ajuda a caracterizar as moléculas existentes na superfície da célula leucêmica.

Drauzio – Podemos dizer, então, que existe grande diversidade de glóbulos brancos ou leucócitos (linfócitos, neutrófilos, monócitos, etc.) e que há diversidade também entre glóbulos de uma mesma categoria. Os neutrófilos, por exemplo, não são todos iguais. Estabelecer critérios que permitam caracterizar essas diferenças é importante porque têm implicações no tratamento…

Jacques Tabacof – A análise da medula óssea com a fenotipagem para classificar exatamente o tipo da leucemia é importante para estabelecer a estratégia de tratamento. Hoje, a sofisticação é tal que se torna possível checar o que chamamos de cariótipos, ou seja, o tipo de mutação gênica que existe em determinada leucemia. Estudar o gene e até a alteração cromossômica é importante para nortear a decisão terapêutica.

TRATAMENTO: INDUÇÃO DA REMISSÂO

Drauzio – Quando o tratamento precisa começar o mais depressa possível porque o paciente está em risco, qual é a primeira medida que deve ser tomada?

Jacques Tabacof – Basicamente, na grande maioria das leucemias agudas, o tratamento começa pela quimioterapia. Tanto o tratamento da leucemia mieloide quanto o da linfoide, em geral, exige internação hospitalar e aplicação de um cateter central, porque as veias dos braços não são suficientes para suportar a aplicação das drogas quimioterápicas e as transfusões necessárias.

Essa primeira fase do tratamento é chamada de indução da remissão e seu objetivo é matar, eliminar as células doentes, os blastos. Às vezes, em uma ou duas semanas eles somem do sangue porque são muito sensíveis à quimioterapia.

Eliminados os blastos, há a recuperação das outras séries, porque eles deixaram de infiltrar a medula e os precursores das células vermelhas proliferam, assim como se normaliza a produção de hemoglobina e das plaquetas. Em suma, o hemograma se restabelece nos níveis adequados.

Embora no início o tratamento seja bastante dramático e agressivo, em poucas semanas de internação hospitalar, há a indução da remissão. Um novo mielograma costuma revelar que não existe mais doença na medula óssea. O paciente atingiu de fato a remissão. Sabe-se, porém, que essa intervenção terapêutica não basta para eliminar de vez a leucemia. Podem ter sobrado pequenas quantidades de células doentes que farão a doença voltar invariavelmente. A indução é o primeiro passo para cura, mas se o tratamento parar aí, a doença recidiva.

Drauzio – Quanto tempo dura essa etapa do tratamento?

Jacques Tabacof – Em geral, dura mais ou menos um mês.

TRATAMENTO: ESTRATÉGIAS DE CONSOLIDAÇÃO

Drauzio – Como você dá continuidade ao tratamento?

Jacques Tabacof – O tratamento continua com as estratégias de consolidação. Existem estudos especializados que mostram qual a melhor consolidação para cada subtipo de leucemia. Se a pessoa tem determinada translocação em sua alteração genética, o melhor tratamento pode ser só a quimioterapia. O paciente recebe, então, mais três ou quatro ciclos de quimioterapia em doses convencionais. No entanto, o prognóstico pode ser tão desfavorável que a melhor conduta seja o transplante de medula óssea.

Drauzio – Vamos deixar claro que medula óssea não deve ser confundida com a medula espinhal.

Jacques Tabacof – Quando se fala em medula óssea estamos nos referindo à fábrica das células do sangue que fica dentro dos ossos, no tutano de ossos como o esterno, a bacia, o fêmur, etc. Não se deve confundir medula óssea com a medula nervosa ou espinhal que percorre o interior da coluna vertebral.

TRANSPLANTE DE MEDULA ÓSSEA

Drauzio – Em linhas gerais, como se realiza o transplante de medula óssea?

Jacques Tabacof – Há dois tipos de transplante: o transplante autólogo e o alogênico.
O autólogo é, na verdade, uma quimioterapia em doses muito altas que leva à eliminação total das células do sangue e da medula óssea. Ela acaba com a leucemia, mas provoca também um esvaziamento total da medula óssea. Morrem as células boas e as ruins. Por isso, antes da quimioterapia, coletam-se células do sangue ou da medula óssea do próprio paciente, que são congeladas e guardadas. Terminada a quimioterapia, elas são devolvidas através da corrente sanguínea, como numa transfusão, e vão repovoar a medula. Essa estratégia mostrou-se útil na consolidação de algumas leucemias agudas.

Para o transplante alogênico de medula óssea é sempre necessário encontrar um doador. Ele traz a vantagem de contar com uma medula sadia, sem células leucêmicas. Em geral, os irmãos costumam ser os melhores doadores. O passo seguinte é submeter o paciente a uma quimioterapia em doses altas para eliminar a doença. Depois, as células do sangue ou da medula óssea retiradas do doador são injetadas no doente para repovoar sua medula. A pessoa passa, então, a produzir células sanguíneas absolutamente normais e, em certos casos, muda de tipo sanguíneo, pois adota o tipo do sangue do doador.

DrauzioIsso quer dizer que um paciente de tipo sanguíneo A, recebendo o transplante de medula óssea de um doador de tipo O, pode deixar de ser A e passar para O?

Jacques Tabacof – Considerando o sistema ABO e RH, receptor e doador podem ser diferentes e o que recebe a medula pode assumir o tipo sanguíneo do doador. Doador e receptor, no entanto, não podem ser diferentes no sistema HLA, que representa um outro método de avaliar a compatibilidade para o transplante.

Drauzio – Nem todos os irmãos podem ser doadores?

Jacques Tabacof – Nem todos. A chance de um irmão ser totalmente compatível no sistema HLA é, em média, 25%. Quando isso ocorre, é uma boa opção utilizar a medula normal do irmão no tratamento da pessoa com leucemia.

ENXERTO X HOSPEDEIRO

DrauzioEm linhas gerais, o que é a reação enxerto versus hospedeiro que pode ocorrer nos transplantes alogênicos, isto é, quando a medula óssea de um doador é transplantada para um paciente com leucemia?

Jacques Tabacof – Por mais que se analise a tipagem HLA e se identifique a compatibilidade entre doador e receptor, assim que a nova medula se instala no paciente com leucemia, este passa a produzir as células do doador.

O sistema imunológico do irmão, por exemplo, começa a reconhecer como estranhos os componentes do receptor e ataca seu fígado, tubo digestivo e pele. Está criada uma nova doença chamada ‘enxerto contra hospedeiro’.

Drauzio Nos transplantes de outros órgãos, o receptor pode rejeitar o enxerto. No de medula óssea, como o enxerto é composto por células imunocompetentes e o sistema imunológico do receptor está destruído, é o enxerto que rejeita o hospedeiro.

Jacques Tabacof – Exatamente. Nos transplantes de órgãos sólidos, como coração, fígado e rins, é preciso induzir imunodepressão no receptor para que ele não rejeite o órgão doado. No caso da doença enxerto contra hospedeiro, são as células da medula óssea do doador que agem contra o organismo do receptor.

Trata-se de uma doença nova que não existe na natureza. Foi criada pelos homens fazendo os transplantes. É óbvio que existem técnicas para amenizar o risco. O primeiro passo é selecionar o melhor doador, o mais parecido, o mais compatível. O outro passo é deprimir a imunidade do receptor. Ficando um pouco imunodeprimido, a tendência é não haver tanta rejeição da medula transplantada contra o hospedeiro. Existem drogas usadas profilaticamente que ajudam a evitar essa doença.

AVANÇO NO TRATAMENTO DAS LEUCEMIAS CRÔNICAS

Drauzio – Nos últimos anos, houve grande avanço no tratamento das leucemias crônicas.

Jacques Tabacof – Acho que um dos maiores avanços que presenciei no tratamento oncológico como um todo foi o surgimento de uma droga administrada por via oral e desenhada para tratar da leucemia mieloide crônica, doença incurável e para a qual, no caso de pacientes jovens, o único tratamento era o transplante alogênico com seus riscos e problemas.

Desde os anos de 1970, sabia-se que essa doença apresentava uma translocação balanceada entre o cromossomo 9 e o cromossomo 22, ou seja, uma troca de pedaços entre esses dois cromossomos que levava ao surgimento de um gene diferente. Na década de 1980, ficou evidente que esse gene alterado produzia uma proteína, na verdade uma enzima chamada tirosinaquinase, que era a causa desse tipo de leucemia. A partir de então, pesquisadores e clínicos do mundo inteiro começaram a buscar substâncias que inibissem essa enzima e surgiu uma droga, melhor dizendo, uma pequena molécula que tomada por via oral, três ou quatro comprimidos por dia, resultou numa revolução no tratamento clínico da doença. Pacientes com leucemia mieloide crônica, que utilizam esses comprimidos, normalizam o hemograma e, em muitos deles, não se detecta mais a alteração cromossômica nem mesmo quando são aplicadas técnicas sofisticadas e sensíveis de análise.

Além disso, os efeitos tóxicos dessa droga são discretos especialmente se comparados com os da quimioterapia. O único problema é seu custo que é bastante alto.

Drauzio – Esses doentes podem ser considerados curados?

Jacques Tabacof – Como se trata de um tratamento relativamente novo, ainda é um pouco precoce dizer que os pacientes estejam curados, mas ninguém pode negar que o resultado clínico é fantástico.

Drauzio – Por que você acha que essa descoberta é tão importante?

Jacques Tabacof – Em oncologia, a grande maioria dos tratamentos foi descoberta empiricamente. Por tentativas de acerto e erro, foram identificadas várias substâncias da natureza – casca de árvore, plantas, etc. – que funcionavam como agentes quimioterápicos para atacar células tumorais. O imatinib, essa nova droga usada no tratamento da leucemia mieloide crônica, mudou esse paradigma porque foi desenhada uma molécula específica para combater um alvo determinado: a célula leucêmica.

Drauzio – Como os pacientes recebem o diagnóstico de leucemia e a perspectiva de eventualmente terem de submeter-se a tratamentos de alta agressividade?

Jacques Tabacof – Varia muito de um paciente para o outro. Se ele tem leucemia mieloide crônica, pode ser tratado com essa medicação nova sem ser internado em hospital. A leucemia linfoide crônica, a mais comum, também pode ser tratada com medicamentos relativamente simples, por via oral.

Nas primeiras consultas, procuramos explicar que há vários tipos de leucemia e desfazer o mito de que ela seja uma doença necessariamente fatal. Pacientes com leucemia crônica são convencidos de que a evolução mais lenta dessa enfermidade facilita o tratamento, que avançou muito nas últimas décadas.

Embora os casos de leucemia aguda tenham apresentação clínica mais dramática por causa dos sintomas (sangramento, anemia, infecção e fraqueza) e da abordagem inicial bastante agressiva, como a melhora é mais ou menos rápida, os pacientes desenvolvem uma atitude positiva em relação ao tratamento e à doença.

Drauzio Eles aceitam nesse momento que a doença pode ser curada?

Jacques Tabacof – Aceitam. Eles são informados de que o objetivo da quimioterapia é a cura. Em oncologia, muitos dos tratamentos são paliativos. Na leucemia aguda, no entanto, a proposta é curar o paciente. Às vezes, o tratamento inicial é muito agressivo, mas quando o paciente atinge a remissão, além de mostrar que a técnica terapêutica está dando resultado, é um estímulo encorajador para ele.

Drauzio – Para os adultos, a remissão tem enorme impacto sobre a qualidade de vida. Eles sofrem com o tratamento agressivo, mas depois disso suas vidas melhoram bastante.

Jacques Tabacof – A qualidade de vida melhora muito. Eles entram em remissão, saem do hospital com o hemograma normal, sem nenhuma cicatriz e podem reassumir suas atividades. Depois, com calma, se estabelece a estratégia ideal de consolidação.

No entanto, é impressionante  como as crianças toleram bem o tratamento. Você vê crianças com cateter central para receber a quimioterapia e as transfusões, caminhando pelos corredores do hospital, segurando o soro sem nenhum constrangimento. Em pouco tempo aquilo vira rotina de vida para elas.

Drauzio Nos anos de 1970, curávamos entre 20% e 30% das leucemias infantis. E hoje, quais são os resultados?

Jacques Tabacof - Hoje, a possibilidade de cura da leucemia aguda infantil é muito alta. Gira em torno de 80% a 90% dos casos. Nos adultos, esses índices são mais baixos. Não trato crianças, mas a literatura confirma todos esses dados.

ORIENTAÇÃO PARA A FAMÍLIA

Drauzio – Que orientação você dá para as famílias que têm um parente com leucemia?

Jacques Tabacof – Nos casos de leucemias agudas, a primeira coisa é identificar o cenário do tratamento. Sinceramente me preocupo muito com quem vai pagar a conta, porque o custo do tratamento é muito alto, pois requer internação hospitalar, transfusões de sangue e uso de drogas caras. É preciso saber se a pessoa tem convênio com direito a ser tratada no sistema privado ou se terá de recorrer ao sistema público de saúde.

Tão logo o paciente é internado no hospital, inicia-se o tratamento quimioterápico e é de extrema importância ele saber que há uma equipe multidisciplinar cuidando dele, que há médicos e enfermeiros preocupados que, em nenhum momento, o deixarão sem atendimento ou desamparado. Perceber que a equipe toda está a seu lado e ao lado da família participando e torcendo pelo êxito do tratamento dá muita força para o paciente.

Drauzio – Esse envolvimento da equipe com o paciente é fundamental para o tratamento. Infelizmente, no serviço público, ele é mais difícil e complicado.

Jacques Tabacof – No sistema em que trabalho, o sistema privado, no Brasil um privilégio de não muita gente, consegue-se prover os pacientes com essa retaguarda. No serviço público nem sempre isso é possível.